USP e Unesp intimidam manifestações pró-Palestina no interior paulista

Reações recentes das universidades frente ao movimento estudantil evidenciam alinhamento das instituições brasileiras ao projeto sionista.

7 de Janeiro de 2026 às 21h00

Grafite em solidariedade ao povo palestino na USP São Carlos, 2025. Reprodução/Foto: Guilherme Choueiri.

Por chorume e zaago

Partindo de casos recentes na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Estadual Paulista (Unesp), a presente reportagem analisa como as universidades brasileiras atuam alinhadas aos interesses da burguesia nacional dependente, subordinada ao imperialismo. Enquanto instituições mantêm convênios e cooperações científicas que fortalecem a cadeia de produção bélica utilizada no genocídio do povo palestino, administrações universitárias reprimem estudantes, criminalizam manifestações antissionistas e recorrem a falácias para justificar a censura nos campi. Mesmo perante intimidações, o movimento estudantil resiste para defender a solidariedade ao povo palestino.

O caso da Unesp Araraquara

No dia 29 de setembro de 2025, o movimento estudantil brasileiro realizou uma mobilização nacional em defesa da Palestina livre. O ato esteve presente em diversas cidades do país, tendo como pauta central a ruptura das relações Brasil-Israel, incluindo os vínculos entre nossas universidades e as instituições sionistas.

No estado de São Paulo, diversos locais aderiram à mobilização nacional e realizaram atos e vigílias na última semana de setembro. Em Araraquara (SP), o ato foi realizado na Unesp e organizado por entidades estudantis da instituição (CAFF, CAMT, ESPP e DCE-HR), contando com panfletagem nas salas de aula, diversos cartazes, lambes, faixas pelo campus, um cine-debate que exibiu o longa-metragem “5 Broken Cameras”, acompanhado de comidas árabes e, por fim, um acampamento.

Faixa colocada no espelho d’água da Unesp Araraquara durante ato em prol da Palestina, 2025. Foto: Divulgação/CAFF.

No dia 16 de dezembro, quase três meses após o ato, que havia ocorrido sem contratempos, o Conselho Diretor, instância máxima de gestão, do campus da Unesp Araraquara enviou um e-mail a toda a comunidade universitária. A mensagem, encaminhada após denúncias, repudiava cartazes colocados no restaurante universitário, acusando-os de intolerantes e discriminatórios, apontando inclusive que foram afixados em 1° de outubro de 2025 e ressaltando que essa data coincidiu com o Yom Kippur, um dos mais importantes feriados do calendário judaico.

Diante de uma declaração tão grave, que relatava manifestações de ódio, apesar de não esclarecer quais seriam, os estudantes do campus e suas entidades tiveram sua atenção voltada ao e-mail, dado inclusive o histórico recente do campus, que contém até casos de pichações nazistas nos banheiros da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr), denunciados pelo Centro Acadêmico Florestan Fernandes (CAFF), entidade estudantil dos estudantes de Ciências Sociais, à direção da faculdade, e ao Ministério Público, após o caso ganhar notoriedade até mesmo ao nível nacional.

Inscritos nazistas no banheiro da FCLAr no segundo semestre, 2025. Foto: Divulgação/CAFF.

Chamou ainda mais a atenção das entidades estudantis o fato de não haver qualquer registro recente de cartazes intolerantes e/ou discriminatórios no restaurante universitário, tampouco na data mencionada pela direção. Naquele período, o único material afixado no local era um cartaz do próprio ato da antevéspera do feriado citado, com a frase “Do rio ao mar, Palestina livre”.

Faixa colocada no restaurante universitário da Unesp Araraquara no dia do ato em prol da Palestina, 2025. Foto: Divulgação/CAFF.

Ao associar esse cartaz à data do Yom Kippur, a administração do campus indicou, na prática, que compreende como antissemita uma manifestação antissionista em solidariedade ao povo palestino. Essa equiparação não apenas banaliza e distorce o significado do antissemitismo como também dificulta o seu repúdio, servindo como instrumento para silenciar manifestações políticas legítimas do movimento estudantil.

Questiona-se, portanto: o que interessa à Unesp impedir manifestações em solidariedade ao povo palestino e ser cúmplice de um projeto colonial?

O caso da USP São Carlos

Em São Carlos, cidade vizinha no interior paulista, estudantes da USP vivenciaram um processo semelhante de intimidação institucional, revelando que os episódios de Araraquara não foram isolados. Durante o mês de outubro, corredores e banheiros do campus são-carlense também foram alvos de manifestações de ódio, incluindo pichações nazistas, sionistas, misóginas e homofóbicas, contendo múltiplas suásticas e exaltações de figuras como Hitler e Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense. Aliás, não é coincidência que símbolos nazistas tenham surgido associados a posições sionistas no campus, o que, do ponto de vista político, revela afinidades entre projetos ideológicos baseados em hierarquização racial e colonial.

Em repúdio a esse cenário e em solidariedade internacional, o Centro Acadêmico Armando de Salles de Oliveira (CAASO), que representa os milhares de estudantes do campus, convocou um ato para o dia 31 de outubro. Lá, a entidade demarcou o claro posicionamento dos estudantes em solidariedade ao povo palestino, denunciando a cumplicidade institucional através dos convênios vigentes da universidade com Israel. Após as falas, o ato prosseguiu para uma intervenção artística na parede externa do prédio do centro acadêmico, onde uma artista convidada, que inclusive coordena o CAFF, realizou um grafite estilizando a bandeira palestina, símbolo da resistência à ocupação sionista.

Grafite em solidariedade ao povo palestino no CAASO durante sua execução, 2025. Reprodução/Foto: Lin Gohan.

Semanas após o ato, a Prefeitura do Campus, órgão dirigente da universidade em São Carlos, convocou a diretoria do CAASO para uma reunião para cobrar explicações, baseando-se em uma denúncia anônima feita à Ouvidoria da USP sobre a suposta ilegalidade da intervenção. Utilizando o pretexto de que manifestações políticas e religiosas são vetadas em espaços públicos, a administração exigiu que o CAASO apagasse os escritos com declarações políticas na parede, como, novamente, “Palestina livre”.

A administração da USP agiu rapidamente para restringir uma manifestação pacífica e artística dos estudantes, o que contrasta com sua ineficiência ao lidar com crimes reais ocorridos no campus. Exemplo que torna isso evidente são as próprias pichações nazistas do período, que passaram ilesas a ações e pronunciamentos públicos da USP. Tal postura, entretanto, não é inédita no campus: em março, o Coletivo de Mulheres do CAASO afixou cartazes denunciando condutas misóginas em repúblicas universitárias da cidade. Três dias depois, o material foi vandalizado e posto em fogo, colocando a estrutura do prédio em risco. A resposta da USP ao caso se resumiu a impedir o acesso às câmeras, burocratizar a denúncia e, mesmo identificando a autoria do vandalismo, manter o caso impune desde então. A burocracia que segue em letargia diante da violência contra as mulheres é a mesma que agiu em menos de um mês para restringir a solidariedade à Palestina, atacando inclusive a autonomia dos espaços estudantis, o que também não é novidade no campus, dado o legado e o contexto atual do terreno do antigo Colégio CAASO.

Por que é importante o movimento estudantil brasileiro pautar a solidariedade ao povo palestino?

Essas manifestações do movimento estudantil e suas repressões, embora fisicamente distantes da Palestina, não são fatos isolados do genocídio. O Brasil e suas instituições, incluindo suas universidades, mantêm relações comerciais e acadêmicas com Israel, alimentando o poderio técnico de um projeto colonial de extermínio, que não respeita nem os acordos de cessar-fogo que assina.

Evidência de que essa cumplicidade ocorre inclusive dentro de nossas universidades é a relação do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da própria USP, com o Departamento de Defesa dos EUA (DoD), órgão que recentemente bombardeou a Venezuela e que envia anualmente bilhões de dólares em armamento para Israel massacrar palestinos, libaneses, iemenitas e sírios. Em fevereiro do ano passado, o IFSC anunciou a vinda de representantes do DoD para um evento no dia 26 de março em São Carlos, com o objetivo simbólico de apresentar o órgão e estreitar laços que já são uma realidade, visto que o próprio IFSC reconhece que tem pesquisas financiadas pelo Exército, Força Aérea e Marinha dos EUA.

Assim, o CAASO e o PCBR, em conjunto com as secretarias acadêmicas do instituto, CEFiSC e SACEx, convocaram um ato dos estudantes em repúdio ao evento, pautando a defesa da soberania nacional e a solidariedade ao povo palestino. A mobilização foi vitoriosa e o evento do DoD acabou cancelado, mas a manifestação foi mantida para denunciar essa cooperação e reiterar que a nossa produção científica não pode servir à máquina de guerra imperialista norte-americana e israelense.

Ato pela soberania no IFSC-USP, 2025. Reprodução/Foto: Guilherme Choueiri.

Essa aproximação revela também o sucateamento que sofre a ciência brasileira. Enquanto o investimento público em pesquisa e educação é sucateado e as bolsas federais permanecem estagnadas, abre-se um vácuo deliberado no orçamento das universidades, que é então ocupado pela burguesia. De um lado, o capital militar estrangeiro apoia diversos projetos de pesquisa básica no Brasil; do outro, há a priorização do setor privado, nacional e estrangeiro, em detrimento do ensino público. Trata-se, portanto, de um projeto de entregar a ciência e tecnologia brasileiras — que deveriam atender às demandas da população — para servir ao lucro dos patrões e às guerras do imperialismo.

Mas essa mobilização contra a cooperação de pesquisa com a cadeia imperialista não se restringe, evidentemente, só a São Carlos ou Araraquara. Na USP São Paulo, por exemplo, recentemente o movimento estudantil conquistou o rompimento do convênio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas com a Universidade de Haifa, que compõe o complexo militar do Estado de Israel, desenvolvendo tecnologias para o exército de ocupação colonial que dá continuidade ao genocídio do povo palestino. É interessante também observar outra semelhança entre os locais: no campus da capital paulista, enquanto cinco estudantes eram processados por uma fala antissionista sob o falso pretexto de discurso de ódio antissemita, a administração também ignorava suásticas expostas pelo campus.

E nem somente na USP e na Unesp os estudantes têm tocado essas mobilizações: ainda no interior paulista, a comunidade universitária conquistou o rompimento da Unicamp com o Instituto de Tecnologia de Israel, que faz parcerias com empresas militares israelenses. No Ceará, essas lutas conquistaram o rompimento da UFC com a sionista Universidade Ben-Gurion do Neguev, com a qual também rompeu a UFF, do Rio de Janeiro.

Se esse projeto sionista de aproximação das instituições brasileiras com as israelenses não é isolado numa ou outra universidade, tampouco se encerra dentro de seus muros. Essa cooperação é também um projeto da burguesia nacional. Enquanto Lula até reconhece o genocídio em meio a discursos contraditórios, o Governo Federal ainda mantém laços diplomáticos e comerciais com Israel. O petróleo e o aço brasileiros continuam alimentando a máquina de guerra sionista e blindando a infraestrutura do genocídio.

Navio cargueiro MSC Leila, usado para carregar 56 toneladas de aço brasileiro para a empresa israelense IMI Systems, 2025. Foto: Divulgação/MSC.

Além dos convênios e da exportação de commodities, o Brasil também importa a violência, batendo recordes na compra de armamento israelense, o que financia o extermínio palestino e arma a violência policial brasileira contra a juventude negra e periférica, como escancaram os recentes casos de assassinato de adolescentes pela PM na Bahia, a chacina no Rio de Janeiro e até a criminalização da própria cultura periférica.

É por isso, então, que o movimento estudantil brasileiro precisa pautar a solidariedade ao povo palestino. O genocídio, embora do outro lado do globo, é financiado com nossos recursos, legitimado pela nossa diplomacia e tecnicamente aprimorado dentro de nossas universidades.

A quem interessa a confusão entre antissemitismo e antissionismo?

A questão colocada é de suma importância para entender o posicionamento de ambas universidades diante dos respectivos atos acontecidos, bem como da burguesia sionista e das contradições do Estado brasileiro, que buscam confundir a população para silenciar divergências.

Arlene Clemesha, professora da própria USP e historiadora brasileira que pesquisa a questão judaica e a história da Palestina moderna, define o termo, de forma sintetizada, mas que não deixa de ter seu rigor teórico:

“O que é o Antissionismo?
É a oposição à doutrina política e ideológica que leva o nome de sionismo, surgida no século XIX, que propunha a colonização da Palestina por judeus da Europa.
Desde a primeira metade do século XIX, antes do surgimento do movimento sionista judaico, a ideia sionista podia ser observada entre certos religiosos cristãos, e membros proeminentes das elites imperialistas europeias, que acreditavam que a transferência dos judeus, da Europa para a Palestina, aceleraria a vinda do messias.
No final do século XIX, o crescimento da perseguição aos judeus da Europa fez com que a ideia sionista fosse articulada por intelectuais como Moses Hess e Leo Pinsker, que forneceram as bases para o surgimento de um movimento nacional judaico que propunha a criação de um Estado judeu como forma de proteger os judeus da perseguição que sofriam na Europa.
No final do século XIX, então, o sionismo tornou-se expressão de um movimento nacional judaico que defendia a colonização da Palestina para a criação de um Estado judeu fora da Europa.
Nos anos 1890, o movimento sionista implantou-se na Palestina, que era parte do Império Otomano e a região sul da Grande Síria; organizou a imigração, e colocou em prática um colonialismo de assentamento, criando colônias agrícolas em detrimento da população árabe palestina que ali vivia há séculos, fornecendo assim as bases materiais, políticas, e ideológicas, para a criação do Estado de Israel em 1948.
Portanto, o movimento sionista é ao mesmo tempo um movimento nacional e colonial, onde um é inseparável do outro.”

Esclarecendo a distinção num contexto histórico, a pesquisadora também define:

“O antissemitismo é uma forma de preconceito ou ódio racial dirigido contra os judeus como indivíduos ou grupo, apenas por serem judeus.
Como todo ódio racial, ele é irracional e não está ancorado na realidade. Diz mais do antissemita — aquele que exerce o preconceito — do que de sua vítima, a pessoa de origem religiosa ou étnica judaica.
O termo "antissemitismo" foi cunhado no final do século XIX, não obstante o ódio aos judeus já existir desde a época romana e ter assumido diferentes características ao longo da história.
No período feudal, as acusações incluíam o "libelo de sangue", o "judeu deicida" e o ódio contra o "comerciante e usuário" de uma sociedade cristã e agrícola, baseada sobre a produção de valor de uso.
A partir do século XIX tornou-se um ódio de tipo racial e racista, que continuou a reproduzir os típicos preconceitos medievais, acrescidos de ideias fantasiosas de "conspiração" e "dominação mundial dos judeus". Os judeus foram utilizados como bode expiatório do regime tsarista, que popularizou o termo pogrom para todos os idiomas.
Como todo ódio racial no período moderno, o antissemitismo foi empregado para justificar estruturas de dominação e expansão imperialista. O regime nazista, com suas ideias de supremacia racial e "espaço vital", levou o antissemitismo e a desumanização dos judeus às últimas e pavorosas consequências — o genocídio.
No Islã, pelo contrário, onde residiu a maior concentração mundial de judeus até o século XII, os judeus, assim como os cristãos, possuíam liberdade de culto, de organização comunitária, e viviam livres de perseguição.
Hoje, o preconceito contra os judeus costuma reproduzir imagens que percorreram todos os períodos da história europeia, desde a ideia do judeu como "explorador" e "banqueiro", até as típicas elucubrações de uma suposta dominação mundial.
Finalmente, um dos maiores empecilhos à compreensão e ao combate ao antissemitismo é a atual tendência de se definir o antissionismo — a oposição a uma doutrina política — como uma nova forma de antissemitismo, ou seja, como um novo racismo.
O intuito dessa falaciosa tipificação é criminalizar a pessoa que se opõe à ideologia política do sionismo, e blindar o Estado de Israel de críticas por seus atos, inclusive quando ele realiza o crime dos crimes, o genocídio do povo palestino.
*nota-se que o termo antissemitismo é impreciso. Os árabes também possuem origens consideradas semíticas e são alvo de preconceitos crescentes. Mas o preconceito anti-árabe não costuma ser denominado de antissemitismo. Sendo que tanto o racismo anti-árabe como a islamofobia possuem raízes ideológicas muito semelhantes àquelas do antissemitismo moderno.”

Essa confusão indevida que surge entre os termos assume a premissa de que qualquer manifestação em defesa da Palestina, contra o movimento sionista de Israel, é discriminatória ao povo judeu. Além de banalizar o que de fato seria uma manifestação de ódio aos judeus, esse equívoco exerce uma tentativa de intimidação às manifestações que lutam pela libertação de um povo que há décadas resiste contra a invasão agressiva colonizadora de Israel.

Quando as entidades clamam "Do rio ao mar, Palestina livre" ou “Palestina Livre”, não estão pedindo a expulsão de judeus, como fizeram e fazem os sionistas aos palestinos, mas o fim do Apartheid. A reivindicação antissionista proclamada nessas manifestações é o desmantelamento das fronteiras e dos muros de segregação que dividem a região, defendendo um Estado democrático e laico, onde todos, independentemente de etnia ou religião, tenham direitos iguais. É uma oposição frontal ao atual projeto de supremacia etnonacionalista do Estado de Israel.

Ao intimidarem o justo posicionamento antissionista e o taxarem como antissemita, as universidades evidenciam que o discurso de liberdade de expressão em seus campi só é válido quando não ameaça os interesses do imperialismo. O que deveria ser o local onde posições críticas se desenvolvem para desafiar o senso comum é transformado numa ferramenta de legitimação do sionismo, preferindo calar seus estudantes a se distanciar dos parceiros comerciais e acadêmicos que gerem um dos maiores e mais bem documentados genocídios da história, o extermínio ainda em curso do povo palestino.

Por que a universidade brasileira se subordina à ideologia imperialista da burguesia sionista?

No cenário internacional, a manutenção do Estado de Israel atende diretamente aos interesses estratégicos do imperialismo, em especial dos EUA e do capital monopolista. Como definiu Lenin, o imperialismo consiste na consolidação do capital financeiro, na exportação de capitais e na partilha do mundo entre grandes potências. Israel cumpre sua função na cadeia imperialista ao assumir a disputa militar, política e econômica no Oriente Médio, garantindo a estabilidade necessária para o controle de rotas comerciais, reservas energéticas e áreas estratégicas para o capital internacional.

E o Brasil também tem seu papel nessa cadeia. Para Florestan Fernandes, célebre sociólogo brasileiro que dá nome ao CAFF, sob a tese do capitalismo dependente, a burguesia brasileira não possui um projeto autônomo de nação, reprimindo internamente a classe trabalhadora para atender externamente aos interesses do capital monopolista. A autocracia burguesa precisa do imperialismo para garantir o fluxo de capitais e manter o aparato repressivo interno que sustenta as contradições sociais do Brasil. Exemplo disso é como exportamos matéria-prima a Israel e importamos de lá armas para reproduzir sua violência. Ao se subordinar ao imperialismo, essa burguesia incorpora também suas ideologias dominantes, como o sionismo.

Com faixa do CAASO ao fundo, Florestan Fernandes participa de manifestação em São Paulo, 1988. Reprodução/Foto: Acervo da família.

E a universidade, como qualquer outro braço institucional, não está isolada do capitalismo e, assim, não escapa à lógica da dependência. Sua função sempre esteve ligada à formação de quadros técnicos, administrativos e ideológicos necessários à reprodução da ordem capitalista. Nos raros momentos em que a universidade tentou romper com esse papel, foi duramente reprimida, como ocorreu durante a ditadura empresarial-militar, quando estudantes e pesquisadores foram presos e assassinados. Assim, a universidade brasileira se torna mais um elo dessa cadeia de dominação ao se subordinar à burguesia nacional dependente, subordinando-se também ao imperialismo e, consequentemente, à ideologia sionista que nele está embutida. Assim, ao intimidar manifestações estudantis, a USP e a Unesp espelham a repressão da burguesia nacional e a ideologia imperialista da burguesia sionista.

O movimento estudantil resiste!

O combate ao ódio contra o povo judeu, à sua etnia e religião, é parte inegociável da luta antirracista do movimento estudantil, reconhecendo a gravidade da perseguição histórica, dos pogroms e do horror inominável do Holocausto. Entretanto, não será aceito que esse sofrimento seja instrumentalizado para blindar de críticas um Estado que pratica crimes de guerra. Ser antissionista não é atacar judeus; é opor-se a uma ideologia política colonial que defende a supremacia de um grupo sobre outro e a limpeza étnica de um território. E, assim como o antissemitismo, é intolerável o genocídio do povo palestino; discriminatório mesmo é o Apartheid em curso pelo Estado de Israel.

Diante da “confusão” entre o antissionismo e o antissemitismo, as direções dos campi da Unesp e da USP agem com a finalidade de suspender as mobilizações em prol da libertação de um povo. Mas os estudantes não se curvaram diante das intimidações: em Araraquara, continuarão a manifestar sua solidariedade ao povo palestino, lutando contra o imperialismo e o colonialismo; em São Carlos, o CAASO mantém seu grafite e os escritos. Como o próprio CAASO pontua, aceitar a derrota frente a uma tentativa de supressão significaria não apenas legitimar a intimação de quaisquer manifestações contrárias à ordem vigente, mas também a conivência com a posição sionista e a abertura de precedentes a ataques maiores à autonomia e livre expressão dos estudantes.

Assim, as intimidações das universidades estão longe de serem compreendidas enquanto fatos isolados, evidenciando seu papel histórico enquanto aparato da burguesia nacional, que por sua vez se subordina aos interesses do imperialismo. O movimento estudantil tem como papel fundamental não somente resistir diante de intimidações infundadas, como também sempre buscar escancarar as contradições entre o que uma universidade de fato deveria ser, um espaço de livre manifestação e de desenvolvimento que atenda aos interesses do povo, e o que ela vem sendo construída enquanto braço do Estado burguês na sociedade — o que é materializado tanto por convênios com instituições israelenses, que a tornam um instrumento para guerras e genocídios, quanto por repressões a manifestações que repudiem essa cooperação.

Essa luta é, portanto, um confronto direto contra a mesma cadeia imperialista que lucra com o extermínio na Faixa de Gaza e arma a violência policial nas periferias do Brasil. Assim, o movimento estudantil há de assumir sua responsabilidade histórica de agir ao lado da classe trabalhadora para romper os laços de cumplicidade e impedir que o nosso país continue servindo à retaguarda da máquina de guerra sionista.