Nas prévias eleitorais, Lula e Flávio Bolsonaro disputam a narrativa de combate ao crime organizado
Enquanto Flávio Bolsonaro articula com Donald Trump nos EUA, Lula fecha parceria com centrão e direita em uma postura reacionária para supostamente enfrentar as facções.

Hugo Motta, Lula, Alckmin e Wellington César no lançamento do programa do governo federal contra o crime organizado. Reprodução/Foto: SEAUD.
Por Filgueira
Em abril, autoridades do governo dos Estados Unidos informaram ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que tinham a intenção de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Em 29 de maio, depois de uma reunião com o senador e candidato à presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a administração de Donald Trump confirmou a medida. Essa decisão, porém, não acontece de forma pontual, desde o começo do mandato de Trump, o governo norte-americano vem dando repetidos indícios de que pretende adotar essa classificação.
De acordo com Washington, o enquadramento seria necessário porque tais organizações representam riscos à estabilidade regional, devido à sua ligação com o narcotráfico, a violência e o crime que atravessa fronteiras. Atribuir o rótulo de "terroristas" a facções criminosas, como se planeja fazer com PCC e CV, fornece a Washington um pretexto tanto jurídico quanto político para aplicar sanções e expandir mecanismos de intervenção, usando como justificativa o combate ao terrorismo, o que é uma prática histórica para intervenções em diversos países da da África, Ásia e América Latina (como recentemente fez na Venezuela, semanas antes do sequestro contra o então presidente Nicolás Maduro).
No caso brasileiro, o anúncio ocorreu dias antes de mais ofensivas por parte do governo Trump, que voltou a atacar o PIX, anunciou novas sanções às exportações brasileiras e criticou decisões do STF. O senador Flávio Bolsonaro endossou as acusações estadunidenses para tentar desgastar o governo Lula: "É a maior oportunidade que nós temos de acabar com esse poder paralelo, que é o que eles são. Então não tem que ter tolerância, tem que ter unidade da nossa parte. Aí você olha para o presidente do Brasil e ele pensa o contrário, parece que ele é o chefe do PCC".
Acontece que, na realidade, a política do governo federal para a segurança pública é tão reacionária quanto a proposta pela família Bolsonaro que possuem relações estreitas com as milícias que atuam no Rio de Janeiro. Sob a austeridade do arcabouço fiscal, que enfraquece o setor primário (educação, saúde, esporte, cultura etc.) e com cortes em políticas de transferência direta de renda como BPC e Bolsa Família, Lula sancionou o chamado “PL antifacção”, que vinha sendo pautado desde 2025 como mote principal dos presidenciáveis para a campanha eleitoral de 2026 no que tange o tema de “segurança pública”.
Em suma, os governistas acataram a estratégia de fortalecimento das “guerras às drogas”, que justifica chacinas em favelas e aumento de gastos em operações policiais, ampliação da militarização das forças de segurança, endurecimento de penas e aumento do encarceramento, o que impacta singularmente a juventude negra e periférica. Recentemente, Lula se vangloriou ao anunciar o fim do auxílio-reclusão, um salário mínimo concedido à família de baixa renda do preso que tenha contribuído ao menos 24 meses ao INSS, entre outras regras.
Não suficiente, mesmo Lula mantendo acordos militares com os EUA para treinamentos em terras brasileiras, criando projetos de privatização que favorecem o mercado estrangeiro (tanto estadunidense-europeu, quanto chinês), disponibilizando terras raras para os monopólios internacionais, etc, a posição ofensiva dos EUA se mantém para pressionar o governo brasileiro por ainda mais concessões e dá o tom da campanha do presidenciável pelo Partido Liberal, Flávio Bolsonaro, de buscar cada vez mais apoio e pressão externa dos EUA. Com essa postura, o governo federal investiu em propagandas mostrando a relação das facções com sistema bancário na Faria Lima, postos de gasolina, plataformas de apostas e divulgou as recentes medidas adotadas pelo governo.
Essa disputa de quem possui uma melhor narrativa sobre segurança pública, sem apresentar, de fato, um projeto político que atenda às necessidades da população, mostra a convergência programática dos setores da social-democracia e reacionários e escancara que no balcão da democracia burguesa não há alternativa concreta para a classe trabalhadora que tem sempre de avaliar “o menos pior” e não aquele projeto que realmente lhe representa.