Governo e oposição bolsonarista convergem no entreguismo das terras raras brasileiras
Ganha força no Congresso a defesa de uma política baseada em elementos de segurança jurídica ao capital monopolista e da priorização de incentivos à exploração por empresas privadas estrangeiras que dominam o setor.

Canos em uma área de produção de terras raras jogam dejetos em uma barragem perto da vila de Xinguang, na região chinesa da Mongólia Interior. Reprodução/Foto: David Gray/Reuters.
Por Filgueira
Em reunião com ministros, realizada em 22 de abril, o presidente Lula fechou questão em seu governo contra a criação da Terrabras, optando pelo apoio ao Projeto de Lei 2780/2024, relatado por Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), na qual não existem distinções sobre a participação de capitais nacionais ou estrangeiros na exploração de terras raras e minerais críticos e estratégicos.
O Governo Lula defende tal política baseada em elementos de segurança jurídica ao capital monopolista, contrariando a sua própria base social, e prioriza os incentivos ao setor privado com o estabelecimento de instrumentos regulatórios que, na prática, entregarão o controle sobre tais recursos ao capital estrangeiro em detrimento do controle nacional sobre a exploração através de uma empresa estatal.
O jogo de cena da base governista
No início de abril de 2026, o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), apresentou à Câmara dos Deputados um Projeto de Lei (PL) 1733/2026 autorizando a construção da Terras Raras Brasileiras S.A. – TERRABRAS, uma empresa pública destinada “à pesquisa, à exploração, ao aproveitamento econômico, ao beneficiamento, à industrialização e à comercialização de terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos”, vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Na prática, a empresa desempenharia o papel que hoje desempenha a Petrobrás na exploração do petróleo.
O projeto propõe que a União detenha a participação mínima suficiente para manter o controle acionário da empresa, podendo dividir a participação acionária com empresas privadas, investidores individuais e institucionais, fundos soberanos e bancos públicos de desenvolvimento. Além disso, a administração da empresa seria feita por meio de um Conselho de Administração, uma Diretoria Executiva e um Conselho Fiscal, todos eles indicados proporcionalmente pelos acionistas e eleitos em Assembleia Geral, permitindo que o setor privado tenha controle econômico e administrativo de uma empresa pública.
A proposta já nasceu rebaixada, quando a ala governista não se dispôs a travar uma luta pela reestatização dos setores extrativistas. Na campanha presidencial de 2022, Lula discursou sobre a necessidade de reverter as privatizações realizadas durante as gestões Temer e Bolsonaro, mas, eleito, não se movimentou em relação à pauta; pelo contrário, sem necessidade de aprovação do Congresso, aprofundou o Programa Nacional de Desestatização (PND), colocando rios, florestas, unidades prisionais, sistema educacional, linhas férreas, saneamento, transporte e energia sob a mira das privatizações coordenadas pelo BNDES, conforme levantamento realizado pelo Jornal O Futuro.
“Flertar” com a reestatização de setores estratégicos do país e construção de novas empresas públicas é uma tática eleitoral antiga do PT. Em 2006, a campanha de Lula intensificou os ataques às privatizações ocorridas durante o governo FHC, mas, em quase 20 anos de mandato, nunca reverteu a dominação burguesa dos setores estratégicos do país. A reestatização sob controle operário e popular de empresas como Vale e Petrobrás, e a defesa inegociável do SUS e dos Correios, por exemplo, não é apenas um debate sobre “para quem vai o lucro”; é, na verdade, uma pauta fundamental para garantir direitos básicos ao povo brasileiro e defender sua soberania ainda sob os marcos do capitalismo.
Contrariando sua própria base social, que vem levantando campanha e abaixo-assinado para “pressionar” a criação da estatal nos termos do projeto de Rollemberg, o Governo Lula optou por apoiar um projeto ainda mais rebaixado, que não prevê a criação da empresa estatal, apenas “definindo parâmetros” para a entrega da exploração dos minerais críticos a empresas privadas nacionais e estrangeiras.
O bolsonarismo vai ainda mais além no entreguismo
No mesmo sentido, buscando burlar a “entrega controlada” das terras raras ao capital estrangeiro articulada pelo Governo Federal, o governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) diz estar “fechado com os EUA” a respeito da conclusão da venda da mineradora Serra Verde à empresa americana USA Rare Earth. Caiado, que já se apresenta como pré-candidato do partido à Presidência da República para as eleições de 2026, alinha-se ao discurso de outro pré-candidato, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, em conferência nos EUA, reforçou que as terras raras são fundamentais para os equipamentos da máquina de guerra estadunidense e que o Brasil seria a solução para “quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.
Segundo o relatório Mineral Commodity Summaries 2025, do United States Geological Survey (USGS), a China lidera com aproximadamente 49% das reservas conhecidas e, junto com o Brasil, respondem por mais de 70% das reservas globais de terras raras exploráveis. A China unificou em 2021 seis empresas estatais para controlar o setor extrativista no China Rare Earth Group, integrando verticalmente toda a cadeia, da extração à venda de produtos finais. Em 2023, 68% da produção global de terras raras estava sob controle chinês, enquanto os Estados Unidos respondiam por apenas 12%. Em resposta, os EUA realizaram investimentos estatais progressivos no setor, além de buscar alianças formais (como a realizada em Goiás) e intervir diretamente nas cadeias produtivas de países da periferia do capitalismo, como o Brasil.
Com contradições latentes, a disputa das Terras Raras no Brasil tem sido palco de uma disputa entre setores da burguesia monopolista internacional e da narrativa dos partidos políticos brasileiros (tanto os social-liberais da base governista, quanto os abertamente reacionários como PL e PSD). Enquanto as potências imperialistas se digladiam em torno da exploração de minerais brasileiros, a corrida presidencial se torna palco de quem detém a narrativa da entrega desses recursos.
Sob o apassivamento de diversos setores reformistas, o debate sobre as terras raras no Brasil está ocorrendo a despeito dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros, ocorrendo em reuniões de gabinetes e acordos laterais do setor público com entes privados. Quando entendemos que há “setores estratégicos do proletariado”, estamos reafirmando a necessidade de uma organização proletária consequente em setores dinâmicos caros para a economia capitalista para que, na guerra de posições preparatória à ofensiva revolucionária do proletariado, a infiltração nessas “fortalezas produtivas” coloque os trabalhadores em uma posição decisiva no curso dos eventos, a exemplo da luta dos trabalhadores navais do Mediterrâneo, que estão paralisando diversos setores portuários de diversos países desde fevereiro, apresentando demandas por melhores condições de trabalho e exigindo ações imediatas contra as tensões no Golfo Pérsico e região, como a Guerra no Irã e o genocídio na Palestina.
Ter que escolher “um lado” em meio a disputa entre dois blocos imperialistas (encabeçados por EUA e China em cada lado) é, na verdade, um falso debate que atende única e exclusivamente aos interesses de uma ou outra burguesia monopolista em disputa, deixando de lado os interesses reais da classe trabalhadora que, controlando seus setores estratégicos, poderá direcionar a exploração dos minerais estratégicos para o desenvolvimento tecnológico a serviço do povo, não do lucro de acionistas e da corrida tecnológica ou das máquinas de guerra imperialistas. A luta contra o entreguismo e a privatização encontra-se na luta contra as investidas imperialistas (por pressão bélica ou por guerras econômicas), porque ambas são indissociáveis da luta contra o capitalismo em crise. Somente com a organização dos trabalhadores em torno de um programa socialista será possível ter o controle social de nossas riquezas e derrotar os inimigos de classe dos trabalhadores.
#Governo Lula-Alckmin#Câmara dos Deputados#Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)#EUA#China