Em 2025, assassinatos no campo dobraram segundo dados da CPT
Dados preliminares indicam 26 mortes, com a maioria de sem-terra, indígenas e posseiros. O aumento ocorre em meio à paralisia do Estado em demarcar terras e conter o avanço do agronegócio.

Seringal Entre Rios (sul do Amazonas/Amacro) em 2025, posseiros são impedidos de chegar às suas terras porque o fazendeiro bloqueou a estrada usando empresa de segurança privada. Reprodução/Foto: CPT.
Conflitos agrários no Brasil se tornaram mais letais em 2025, com o número de assassinatos no campo dobrando em relação ao ano anterior. Dados preliminares da Comissão Pastoral da Terra (CPT) registram 26 mortes até dezembro, contra 13 em 2024. Nos dados preliminares foram identificados dez sem-terra, quatro posseiros e sete indígenas. O levantamento aponta que a violência é intrínseca ao problema da concentração fundiária.
Entre os estados, Pará e Rondônia lideram com sete assassinatos cada. A Bahia registrou quatro mortes, todas de indígenas, cenário repetido no Paraná com outras duas vítimas. Em São Paulo, dois agricultores do MST foram mortos por grileiros, enquanto no Amazonas, dois posseiros foram assassinados na região da Amacro. Mato Grosso do Sul e Minas Gerais tiveram um caso cada.
Apesar do aumento expressivo, os dados parciais de 2025 ainda apresentam números menores que os picos recentes de 2021 a 2023, quando os assassinatos variaram entre 31 e 47. A CPT, órgão da CNBB que documenta esses conflitos desde 1986, afirma que os dados refletem um padrão de violência promovido pelo avanço do agronegócio e de mineradoras, frequentemente com anuência do Estado, contra trabalhadores rurais, povos indígenas e comunidades tradicionais.
Análise dos conflitos no campo em 2024: violência se reconfigura, mas não cessa
Embora 2024 tenha registrado uma diminuição no número total de conflitos no campo – 2.185 ocorrências contra 2.250 em 2023 –, os dados da CPT revelam um cenário de violência persistente e reconfigurada. Este total ainda era o segundo maior da série histórica, indicando que a pressão sobre as comunidades rurais permanece em patamar elevado. Os assassinatos caíram de 31 para 13, e as ações de resistência, como manifestações, atingiram o segundo menor número da última década. No entanto, um dado contraditório sinaliza a intensificação da mobilização: o número de participantes nessas manifestações saltou de 111.233 para 169.998 pessoas.
A análise dos Cadernos do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT), que categoriza as violências em conflitos por terra, água, trabalho e resistências, mostra dinâmicas preocupantes. Nos conflitos por terra, que envolvem disputas pela posse e uso do território, houve uma queda nas ocorrências de despejos e ameaças diretas. Contudo, violências ambientais explodiram: o desmatamento ilegal vinculado a esses conflitos aumentou 39% e os incêndios criminosos, 113%. Mato Grosso liderou em incêndios e Pará em desmatamento.
Nos conflitos por água, o ano registrou 266 casos, aumento de 16% em relação a 2023, o terceiro maior número em cinco anos. A CPT alerta que a degradação hídrica é progressiva e cumulativa; desastres como os de Mariana e Brumadinho continuam a impactar as comunidades ano após ano, mesmo sem novos registros.
Um dos crescimentos mais alarmantes foi na contaminação por agrotóxicos. No eixo terra, os casos dispararam 763% (de 32 para 276), afetando 17.027 famílias. No eixo água, o aumento foi de 54%. Em 87% dos casos no campo, a contaminação se deu por pulverização aérea. O agronegócio foi apontado como principal responsável, envolvido em 92% dos casos na terra e 70% na água. Essa violência química atingiu diretamente 44 pessoas, com três mortes registradas.
Quanto aos conflitos trabalhistas, houve uma redução de 40% nos registros de trabalho escravo, com 1.622 trabalhadores resgatados em 2024 (sendo 38 crianças/adolescentes). A CPT ressalta, porém, uma grave subnotificação devido a uma greve de fiscais no ano anterior. A prática permanece intimamente ligada a cadeias produtivas regionais: desmatamento e garimpo no Norte; etanol e mineração no Nordeste; pecuária e cana no Centro-Oeste; café e cebola no Sudeste; maçã e uva no Sul.
As violências contra a pessoa somaram 1.528 ocorrências, vitimando 1.163 pessoas (incluindo 222 mulheres e 182 menores). Embora os assassinatos tenham diminuído, as ameaças de morte aumentaram 24%, as intimidações 16% e as tentativas de assassinato, 43%. Para as mulheres, a violência mais recorrente não é a ameaça direta, mas a contaminação por minério, um dano persistente que afeta gerações.
Os principais alvos de todas essas violências continuam sendo os povos indígenas, quilombolas, assentados, pequenos produtores, posseiros e sem-terra. Do lado dos agentes violadores, destacam-se fazendeiros, empresários, madeireiros, mineradoras e o próprio Estado. A principal violência estatal é o não cumprimento de procedimentos legais, como a falta de consulta prévia e a morosidade do sistema de justiça, configurando uma omissão sistêmica que facilita outros crimes.
Já as formas de resistência diminuíram. O número de acampamentos caiu para 10 e o de ocupações/retomadas de terra reduziu de 124 para 78. Contudo, as manifestações, embora em menor número (649), mobilizaram mais pessoas. A principal pauta segue sendo a Reforma Agrária, seguida por demandas por justiça contra violências, questões ambientais e direitos indígenas.
O estado e os grupos de extermínio no campo
Os conflitos no campo brasileiro resultam não de uma ausência estatal, mas de uma presença seletiva e conivente. Em âmbito federal e estadual, o Estado atua por omissão na garantia de direitos territoriais e por ação direta na perpetuação da violência, configurando-se como o estruturador dos conflitos.
A omissão se materializa em políticas deliberadas de paralisia fundiária. O reconhecimento de territórios quilombolas e indígenas, um direito constitucional, é sistematicamente negligenciado. Paralelamente, a reforma agrária é esvaziada pela falta de desapropriações de latifúndios e pela destinação insuficiente de terras públicas, um cenário que se arrasta por diferentes governos.
Contudo, o Estado não é apenas omisso; é frequentemente parte ativa da violência. Em 2023, a CPT documentou que o Estado teve ligação direta em mais de 261 casos de violência contra comunidades rurais e tradicionais. Essa atuação se dá pelo direcionamento de forças policiais, como no "Massacre do rio Abacaxis" no Amazonas, onde uma operação policial em 2020 resultou em execuções, tortura e destruição de propriedades de ribeirinhos e indígenas.
A atuação e influência de grupos paramilitares representam um fator crítico na escalada da violência no campo. Organizações como o movimento "Invasão Zero", fundado por grandes fazendeiros e políticos do agronegócio na Bahia, agem para expulsar ocupações de terra por meio de intimidação e destruição de propriedades. Suas ações de pistolagem cresceram 45% em 2023.
A eficácia desses grupos depende de uma perigosa conivência. Eles operam com articulação rápida via aplicativos e, frequentemente, com anuência ou suporte direto de forças estatais. Essa influência se estende ao Legislativo, onde parlamentares apresentam projetos de lei que criminalizam movimentos sociais e legitimam as ações paramilitares.
Como resume José Batista Afonso, advogado da CPT, a estratégia mudou: "Queimam tudo: barracas, documentos, carros, motos, mas não matam mais". A violência, portanto, não diminuiu; tornou-se mais difusa, assumindo formas químicas, ambientais e judiciais como ferramenta de controle territorial.
Além disso, a omissão do Estado se completa na falha em proteger as vítimas. No Pará, uma liderança indígena sob proteção oficial teve um pedido de escolta policial negado, ficando exposta a ameaças de morte.
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