Guerra no Irã mostra fragilidade da OTAN frente às ofensivas do EUA
Com bombardeios dos EUA e Israel ao Irã, China estreita suas relações com o governo iraniano e se torna a principal beneficiária da guerra.

O presidente iraniano Ebrahim Raisi, à esquerda, aperta a mão do presidente chinês Xi Jinping, em 14 de fevereiro de 2023. Reprodução/Foto: Yan Yan/Xinhua.
Por Filgueira
A escalada bélica dos EUA-Israel contra o Irã se realizou após alguns meses de tensões de Trump com o governo iraniano. Mesmo sem um objetivo claro sequer entre os próprios países de sua base militar (da OTAN), Trump já vinha anunciando possíveis ataques ao Irã desde o início do ano com deslocamento militar para região do Oriente Médio e Ásia Central e fomentando, junto a Israel, protestos contra o regime aiatolá, apoiando, mesmo que indiretamente, um possível retorno do regime monárquico iraniano que já vem se aproximando de Israel e prometendo o encerramento do programa nuclear do país. Em junho de 2025, Israel realizou uma série de bombardeios ao Irã, que respondeu com ataques massivos que sobrecarregaram o Domo de Ferro israelense e forçaram um cessar-fogo 12 dias após os ataques.
A disputa pela hegemonia nas Américas, Ásia e África dos EUA com a China expõe a nova fase do capitalismo mundial, em que o bloco EUA-UE-OTAN-Israel tentam retomar a influência conquistada pelo avanço imperialista do bloco russo-chinês nos países da periferia do capitalismo – que contam com o apoio de diversos governos ditos “progressistas” alinhados ao grande capital chinês e russo e às burguesias de seus próprios países.
Com a morte do Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em 28 de fevereiro de 2026, no mesmo dia que os bombardeios dos EUA e Israel martirizaram 150 meninas de uma escola no sul do Irã, parte dos conflitos internos contra a aristocracia clerical que se apoia sobre a burguesia iraniana foram diminuindo devido a um “mal maior” externo (EUA e Israel), o que forçou os EUA a investir em propagandas com um falso pretexto “humanitário” para justificar a intervenção, escondendo o real interesse dos monopólios capitalistas na região em busca de matérias-primas (sobretudo petróleo), rotas de transporte (Estreito de Ormuz) e influência geopolítica com a localização estratégica do Irã na região.
Ao bombardear o Irã em meio a uma ofensiva cara para a burguesia árabe e europeia na Palestina, Cuba, Venezuela e Ucrânia em um cenário de crise do capitalismo mundial, além das ameaças de invasão à Groenlândia (membra da OTAN por pertencer à Dinamarca, que é membro-fundadora da aliança) e taxações até em países aliados, Trump escancarou as contradições internas à própria OTAN e às relações entre as potências imperialistas ocidentais frente aos desenvolvimentos da ordem capitalista monopolista.
Ao mesmo tempo que promete fabricar novas ogivas nucleares, a França condenou o ataque ao Irã; já a Espanha, nega-se a enviar tropas para o Oriente e proibiu que os EUA utilizassem de suas bases militares em solo espanhol para realizar ataques ao povo iraniano; outros países como Alemanha, Itália, Holanda e Reino Unido também recusaram apoio imediato às ações de Donald Trump, o que fez com que o presidente estadunidense chamasse seus aliados da OTAN de “covardes” que “não serão esquecidos”.
A relação desgastada entre o bloco imperialista ocidental se dá pelas consequências imediatas do bombardeio ao Irã. O Estreito de Ormuz é essencial para o tráfego de navios petroleiros (cerca de 20% do petróleo mundial) vindos do Golfo Pérsico em direção à África (e depois Europa e América) e Ásia, e seu fechamento pelo Irã, que controla a região, aumentou consideravelmente os preços do petróleo, gás e derivados em todo o globo, principalmente na Europa, que é dependente do fornecimento energético do Oriente.
Se o ataque ao Irã buscava, entre outras coisas, pôr fim à influência chinesa que vem numa crescente de exportação de capitais para a África e América, utilizando a Iniciativa Cinturão e Rota, que passa pelo Estreito de Ormuz, foi justamente o capital chinês o maior beneficiário dessa guerra. Numa ajuda mútua, Irã e China estreitaram relações. Pequim, nos dois primeiros meses do ano, aumentou em 15,8% sua importação de petróleo em relação ao ano anterior; já o Irã, enquanto possui ativos sequestrados em todo o globo, atingiu seu maior nível de exportação desde 2018, com 2,16 milhões de barris por dia, todos vendidos para a China, que agora tem capacidade de atender à própria demanda por 3 a 4 meses sem depender do exterior, podendo trabalhar exclusivamente na exportação de petróleo através do Estreito de Ormuz.
Com a crise no fornecimento energético, o cenário global geopolítico sofreu um baque. Cerca de 32 países, incluindo os EUA, vinculados à Agência Internacional de Energia, tiveram que liberar barris de petróleo de suas reservas estratégicas. Os 400 milhões de barris superam em mais do que o dobro os 182 milhões liberados após a guerra Rússia-Ucrânia em 2022. Mesmo assim, esse volume equivale apenas a 4 dias da produção global diária e 16 dias do fluxo diário que passa por Ormuz. Os EUA serão o país que mais disponibilizará suas reservas, sendo a forma que a grande burguesia internacional vem “cobrando a conta” de Washington, que parece contar com o petróleo venezuelano que está entregue ao capital privado e à justiça internacional.
As lutas de trabalhadores navais do Mediterrâneo e outras regiões próximas ao conflito dão a resposta. Depois de haverem conseguido uma paralisação de trabalhadores portuários de diversos países em fevereiro, os sindicatos PEMEN e STEFENSON, filiados à Frente Militante de Todos os Trabalhadores (PAME) na Grécia, apresentaram uma demanda de reivindicações dos trabalhadores, que estão sendo expostos aos ataques por seus trabalhos embarcados, para a Organização Marítima Internacional (OMI-ONU). Se os ataques continuarem, novas greves e paralisações do comércio marítimo serão a saída para a pressão operária sobre os monopólios nesses conflitos.
Os trabalhadores do mundo não podem se enganar: a disputa entre dois blocos imperialistas pelo poder mundial não pavimenta a libertação da exploração dos trabalhadores do mundo; pelo contrário, faz com que o povo dos países em guerra seja a “bucha de canhão” dos interesses da burguesia monopolista. A luta contra as guerras imperialistas é indissociável da luta contra o capitalismo em crise que as produz; é justamente no momento de acirramento das contradições entre as burguesias internacionais que devemos forjar uma alternativa proletária capaz de derrotar os inimigos de classe dos trabalhadores e construir o socialismo.