Atropelamento de estudante na UFSB escancara descaso com a segurança e acesso à universidade

Estudantes do Campus Jorge Amado da universidade protestaram contra o ocorrido fechando a rodovia, após denunciar por anos as condições precárias de travessia da rodovia Ilhéus-Itabuna.

3 de Abril de 2026 às 21h00

Estudantes em manifestação no dia 16, fechando a BR-415 em protesto. Reprodução/Foto: Sávio Louro.

Por Daimar Stein

Na noite do dia 16 de março, ao atravessar a rodovia Ilhéus-Itabuna para acessar a entrada do campus Jorge Amado da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), uma estudante foi atropelada por um motorista da Tellus, empresa que presta serviços à Neoenergia Coelba. O mesmo dirigia acima do limite de velocidade, deixando a vítima hospitalizada em estado grave. A tragédia, para além de um acidente inesperado, foi consequência de anos de inação da instituição e do poder público da região para implementar medidas de segurança, informação cuidadosamente omitida na nota publicada pela universidade.

Para aqueles que vem de Itabuna, a entrada depende da travessia pela faixa de pedestres no meio da rodovia, já que os ônibus não possuem acesso à parte interna da entrada da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), local onde o campus se encontra. O incidente foi imediatamente denunciado pelas testemunhas que esperavam a chegada do ônibus no local na hora do atropelamento, causando revolta nos estudantes que estavam em aula no momento.

Em poucos minutos, uma manifestação foi articulada, com chamamento dos alunos em sala e convocação nos grupos de WhatsApp. A mobilização, que reuniu mais de uma centena de pessoas, levou ao fechamento da rodovia por mais de duas horas, exigindo justiça e uma resposta imediata do poder público que garanta a travessia segura para todos que dependem do transporte público da região para acessar a UFSB. No dia 18, os professores do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC) do campus, no qual a estudante cursava Licenciatura Interdisciplinar em Linguagens e suas Tecnologias, paralisaram suas atividades em solidariedade tanto à mobilização quanto à greve dos técnicos-administrativos (TAEs).

Falta de segurança é problema antigo

A entrada da CEPLAC sofre com falta de iluminação adequada, colocando os estudantes em risco de assaltos e outras formas de violência ao aguardar a chegada dos ônibus, além do risco de atropelamento ao atravessar. Também não existem lombadas ao redor do local ou elevação da faixa de pedestres por onde os estudantes fazem a travessia (lombofaixa), para garantir a redução de velocidade pelos motoristas. A faixa também é mal localizada, levando muitos a atravessar por fora dela, os expondo a ainda mais riscos.

Para piorar o problema, os radares que fazem o controle de velocidade próximo à entrada do campus foram desativados e retirados há mais de três anos. Também não há atualmente nenhuma forma de fiscalização e controle de velocidade via câmeras, sonorizadores ou por agentes de trânsito sendo feita no local desde a sua desativação.

Em resumo, o limite de velocidade de 40km/h não é efetivamente reforçado pelo poder público, permitindo que motoristas passem muito acima da velocidade permitida na região. O resultado prático é o aumento exponencial de acidentes no local, com perda de controle de carros em alta velocidade e colisões entre veículos sendo apenas exemplos recentes.

Faixa de pedestres para a entrada dos estudantes que vem de Itabuna, cuja falta de acessibilidade força estudantes a passar por cima do gramado ou sair da faixa para poder terminar a travessia. Foto: Jornal O Futuro.

Em assembleia realizada no dia 17, foram apresentados aos estudantes os ofícios redigidos nos últimos três anos pelos diversos organismos da universidade, principalmente o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e a reitoria, que exigiam formalmente, dentre diversas outras demandas, a reativação dos radares, elevação e realocação da faixa de pedestres e melhoria da iluminação pública. Os documentos até hoje não foram respondidos pelo Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT) e as demandas contidas neles nunca foram atendidas.

A situação infelizmente é comum: poucas semanas antes, um servidor da própria CEPLAC também foi atropelado fazendo a travessia pela faixa. Durante a assembleia, uma frase foi repetida diversas vezes por diversos estudantes: “poderia ser comigo”. Muitos relataram situações de risco e quase atropelamento ao atravessar a faixa, deixando claro o quanto a falta dessas medidas de segurança coloca centenas de estudantes em risco de vida diariamente.

A Superintendência Regional do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) na Bahia, respondeu ao contato feito pela TV Santa Cruz para sua matéria apenas que o trecho da BR-415 está em boas condições e que a sinalização do local é adequada, e alegou até desconhecer a existência de equipamentos de fiscalização eletrônica de velocidade instalados anteriormente no local. A Prefeitura de Ilhéus sequer respondeu às tentativas de contato da mídia e não se pronunciou publicamente sobre o acidente até o momento de escrita da matéria.

Problemas no transporte também são culpados pela tragédia

A Rota Transportes, única empresa que faz o transporte intermunicipal na região, não só aumentou o valor de sua tarifa e mudou seu sistema de pagamentos como há anos trata com um descaso especial os usuários de seu serviço para a UFSB, que conta não só com estudantes como também com servidores técnicos-administrativos e professores. Durante anos, os usuários lidam com ônibus lotados, frequentemente quebrados e com o sistema de climatização quebrado.

Para além disso, a empresa não oferece a meia passagem estudantil, garantindo apenas um desconto de 25% a partir de um acordo que pode ser revogado a qualquer momento, já que não existe uma legislação que garanta a aplicação da meia passagem para o transporte intermunicipal no estado. Durante a audiência pública realizada sobre o tema na Câmara Municipal de Itabuna no ano passado, a empresa sequer mandou um representante.

Enquanto isso, nos transportes municipais, a situação é tão ruim quanto. Os ônibus de Ilhéus são ofertados pela Viametro Transportes Urbanos Ltda., empresa que, assim como a Rota, é parte do Grupo Brasileiro, da família Carletto, e pela Atlantico Transportes Ltda. Ambas têm poucas linhas disponíveis e repetem os mesmos problemas, especialmente quanto à superlotação. Já em Itabuna, sequer existe uma linha municipal que vá até a UFSB, já que a CEPLAC tecnicamente se encontra em território de Ilhéus, deixando a Rota como a única opção de acesso para a universidade.

Quando se trata dos ônibus municipais de Ilhéus, por conta do seu trajeto, nunca houve um problema no desembarque dos estudantes, que é feito na rotatória em frente a portaria. A exceção aqui é quanto ao trajeto Salobrinho-Itabuna da Rota, onde a maioria dos motoristas se recusa a passar pela rotatória e parar no ponto da entrada da CEPLAC, forçando diversos estudantes a correr pela ciclovia para acessar o ônibus, que para no meio da pista.

Já quanto ao trajeto Itabuna-Salobrinho, os usuários são deixados no ponto do outro lado da rodovia, o que cria a situação de risco na travessia da faixa de pedestres. Devido à grande oferta de cursos no período noturno da universidade, existe um fluxo de estudantes muito grande nesses horários, o que aumenta o risco ainda mais devido à falta de iluminação.

Privatização, terceirização e desvio da responsabilidade

A Tellus, empresa cujo funcionário foi o causador do acidente, é uma terceirizada que presta serviços para a Coelba, antiga estatal privatizada nos anos 90 e que hoje se encontra sob responsabilidade da Neoenergia, parte do grupo espanhol Iberdrola. Ambas empresas têm negado qualquer responsabilidade sobre o acidente e sobre a iluminação no local, com a Coelba apenas tendo lançado uma nota lamentando o ocorrido.

Condições de iluminação atuais da entrada da CEPLAC durante a noite. Foto: Jornal O Futuro.

O motorista, que permaneceu no local e ajudou com os primeiros socorros e fez o contato com a SAMU, foi o único responsabilizado pelo acidente até o momento, já que a Tellus não respondeu às tentativas de contato da mídia e até o momento não deu nenhuma declaração sobre o ocorrido e sobre o que pretende fazer para apoiar a vítima.

A UFSB, através de uma equipe de apoio e da Pró-reitoria de Ações Afirmativas (PROAF), tem oferecido apenas apoio através de psicólogos e assistentes sociais e arcando com os custos de hospedagem à família da vítima, que é do município de Mascote, a cerca de 110 km de Itabuna. Enquanto isso, os estudantes e professores têm contribuído com doações para ajudar a custear o resto das despesas.

Soluções apresentadas até o momento são insuficientes

No dia 18, foram feitos reparos no local do acidente, adicionando novamente os radares de velocidade, seguindo a exigência do Ofício nº 003/2026, encaminhado pela reitoria no dia 17. Segundo informações, a ordem para o restabelecimento dos radares não veio da superintendência local, mas sim diretamente da diretoria do DNIT, após a repercussão pública do acidente. No entanto, todas as outras demandas encontradas nos ofícios encaminhados pelo movimento estudantil seguem sendo ignoradas e a responsabilidade sendo passada para frente por todos os envolvidos: a Neoenergia Coelba, a Prefeitura de Ilhéus e o DNIT.

A reitoria não teve nenhum diálogo com os estudantes para produzir o ofício encaminhado, sequer tendo participado ou enviado representante para a assembleia do dia 17. O resultado é claro: se coloca panos quentes na situação para não sujar a imagem pública da universidade e se apresenta o mínimo de soluções (insuficientes) como o máximo realizável, sem nenhuma luta por mudanças reais que garantam que essa tragédia não se repita. Ao invés de lutar pela implementação de uma passarela ou da garantia de acesso dos ônibus à entrada do campus, o máximo exigido pela instituição é o reforço da sinalização na rodovia, e a possibilidade de instalação de sonorizadores.

Segunda manifestação dos estudantes da UFSB, realizada em frente à reitoria no dia 23. Reprodução/Foto: Raone (oneprod).

A resposta dos estudantes é clara: no dia 23 uma segunda manifestação foi realizada, em frente à reitoria da universidade, no centro de Itabuna, com novas manifestações sendo organizadas para as próximas semanas. A mobilização envolveu produção de cartazes, colados na grade da entrada da reitoria, que em resposta ao protesto, não somente não liberou um transporte para garantir a presença dos estudantes de Ilhéus, como trancou seus portões, não permitindo que a manifestação ocorresse no espaço interno. O corpo estudantil segue mobilizado e revoltado, não só com o acidente, mas com todo o descaso que permitiu que o mesmo acontecesse.