Aumento da tarifa e mudanças no sistema da Rota Transportes causam revolta no litoral sul da Bahia
A empresa, sem um período de aviso prévio suficiente nem medidas eficientes de divulgação, abandona passageiros que utilizavam o Rotacard e aumenta novamente o valor das passagens.

Novo sistema abandona os já consolidados passes e usa QR codes escaneados por um aparelho próximo às catracas. Foto: T.M. / Jornal O Futuro.
Por Daimar Stein
Em meio à chegada do carnaval antecipado de Itabuna, a população de toda a microrregião em torno da cidade foi surpreendida pelo descaso completo da Rota Transportes Rodoviários LTDA, empresa parte do Grupo Brasileiro, que controla praticamente todo o transporte público intermunicipal, exclusivo via ônibus.
Para além de um aumento repentino do valor das passagens sem qualquer aviso prévio, divulgado apenas através dos stories do Instagram da empresa e através do “boca a boca” entre motoristas, passageiros e grupos de WhatsApp, a empresa também implementou de forma definitiva o novo sistema de passagens através do aplicativo Bipay, substituindo completamente o antigo Rotacard sem nenhum plano de transição ou forma de aproveitamento do valor remanescente dos passes, cuja data limite para uso era o dia 24 de janeiro.
Esse é o quarto ano seguido com aumentos dos preços das passagens pela Rota, que retornaram em 2022, após o pico da pandemia de Covid-19. A população itabunense já teve que lidar com um aumento recente de mais de 20% na tarifa do transporte intramunicipal, que foi de R$3,90 para R$4,50 no final de 2025. Isso leva a um aumento ainda maior no custo de transporte para as pessoas que moram em bairros mais afastados da cidade, que precisam pegar o ônibus intramunicipal para chegar até um dos pontos de embarque da Rota.
Segundo a empresa, o aumento na tarifa foi autorizado pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Agerba, conforme deliberação publicada no dia 14, já aplicando os novos valores a partir do dia 19, com apenas 5 dias de diferença. Os materiais de anúncio das novas tarifas começaram a ser divulgados somente no dia 17, não dando à população nenhum tempo para se preparar ou protestar contra o aumento. Já os materiais sobre o Bipay começaram a ser divulgados no dia 7, dando menos de um mês para que a população usasse o valor restante que possui no Rotacard, e a forma da divulgação do novo app fez com que muitos não notassem o aviso sobre o fim do suporte ao passe, que ficou escondido nos últimos cards das publicações.
As medidas afetam trabalhadores e estudantes dos municípios da microrregião, em especial aqueles que estudam e/ou trabalham no chamado “corredor da educação”, localizado na rodovia Ilhéus-Itabuna e composto pelo Campus Ilhéus do Instituto Federal da Bahia (IFBA), pela Escola SESI Adonias Filho e SENAI Sul, pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e pelo Campus Jorge Amado da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Apesar disso, até o momento apenas o DCE e a reitoria da UESC fizeram contato e negociaram com a empresa, em reunião realizada na terça-feira, dia 20.

Funcionalidade do aplicativo Bipay, utilizado pela empresa para gerenciar o acesso aos ônibus e acompanhar os horários da frota. O aplicativo gera um QR code novo a cada poucos segundos no smartphone, que, quando escaneado e reconhecido pelo aparelho no ônibus, libera a passagem pela catraca. Foto: Jornal O Futuro.
Com a transição para um sistema completamente dependente de um aplicativo online ou de compra da passagem de forma presencial em um dos pontos de embarque, a Rota exclui uma parcela da população que não possui smartphones ou que possui modelos antigos, cujo sistema operacional não possui suporte para o Bipay. A falta de um plano de transição também abandona completamente os usuários do passe atual, já que até o momento de escrita da matéria não existe nenhuma forma de converter ou ressarcir o valor disponível no Rotacard para o Bipay, e diversos usuários não têm como utilizar todo o valor antes do fim de seu funcionamento nos ônibus.
Além disso, essa dependência também aliena completamente usuários cujos aparelhos descarreguem ou fiquem sem sinal de internet, situação extremamente comum para os estudantes do corredor da educação. A rodovia Ilhéus-Itabuna ainda possui cobertura insuficiente de sinal de internet móvel, o Wi-Fi das instituições e universidades frequentemente tem problemas de alcance que impedem seu funcionamento nos pontos de ônibus próximos de suas entradas, e tanto o Wi-Fi quanto a internet móvel frequentemente ficam fora do ar em situações de queda de energia na região.
Os ônibus e pontos de embarque da empresa também não oferecem Wi-Fi gratuito de forma consistente, o que vai forçar os usuários do transporte público a carregar dinheiro físico para lidar com essas situações. A medida também coloca todos os usuários do transporte intermunicipal em risco de violência, já que, como a maioria dos usuários vai precisar estar com seus smartphones ou dinheiro físico em mãos para pagar suas passagens, os ônibus passam a ser um alvo mais fácil para assaltos.
Outras consequências da medida são a falta de acessibilidade, já que o sistema não é autoexplicativo e, até por sua novidade, causa confusão em boa parte da população, o desperdício de papel descartável, já que todo passe comprado por fora do aplicativo gera um QR code impresso de uso único que precisa ser escaneado para liberar a passagem pela catraca, gerando mais lixo de forma desnecessária, e o aumento no tempo de embarque, já que o próprio aparelho tem certa dificuldade para reconhecer QR codes impressos, criando filas ainda maiores para a entrada. Além disso, mesmo que o aparelho nos ônibus possua tecnicamente suporte para pagamentos por aproximação via NFC, nenhuma integração foi implementada ou anunciada via passe físico, digital ou cartões de crédito/débito.
Já quanto ao aumento do preço das passagens, os valores deixam a permanência de trabalhadores e estudantes que venham de cidades circunvizinhas, como Buerarema, Barro Preto, Itajuípe e Itapé, ainda mais inacessível, já que, no caso dos estudantes, o desconto nas passagens é válido apenas para a rota Itabuna-Salobrinho. O desconto, que não é uma meia passagem, apenas uma redução de 30% no valor, foi conquistado através de um acordo com a Rota, já que não há uma lei que obrigue a empresa que cumpre o translado intermunicipal a fornecer a meia passagem estudantil. O novo app também não tinha suporte inicialmente para outros documentos além do comprovante de matrícula da graduação para garantir o desconto para os estudantes da UESC e UFSB, causando problemas para estudantes da pós-graduação e mestrado.
A “negociação” entre a Rota e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e reitoria da UESC, que são compostos em sua maioria pela Juventude do PT, organizações e figuras do campo governista, tem um limite claro: o risco à imagem do governo estadual e de seus coligados. A família Carletto, dona da Rota Transportes e com representação tanto no Progressistas quanto no Avante, possui ligações antigas com o atual ministro da Casa Civil, Rui Costa, e compõe a base de apoio do atual governador, Jerônimo Rodrigues.
Qualquer forma de mobilização real ou ataque à empresa vindo do campo governista pode colocar em risco a relação da família de empresários e parlamentares com o governo petista, então a “luta” em torno do tema tem se resumido à mesas de negociação sem a participação da população afetada pela mudança e com pouca perspectiva de protestos organizados pelos mesmos. Para além disso, a mesa não contou com representações de nenhuma outra entidade estudantil para além da UESC. Por isso, a mediação promovida não tensiona seus aliados, ainda que isso signifique abandonar a mobilização da base estudantil e da população afetada.
Essa prática não se restringe ao caso da Rota e aparece de forma reiterada em embates políticos recentes. Durante a posse da reitoria da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), estudantes, moradores e vítimas da violência policial organizaram um ato para denunciar a letalidade policial e cobrar respostas diante da expectativa da presença de Jerônimo. Porém, os manifestantes enfrentaram empurrões, constrangimentos, xingamentos e barreiras humanas formadas por seguranças, cerimonialistas, estudantes e burocratas alinhados ao governo estadual, como no caso da Juventude do PT, a corrente Renova CNB.
O caso da UNEB e o conflito em torno da Rota revelam o mesmo padrão político: quando a mobilização popular ameaça expor as contradições do governo, setores do movimento estudantil governista atuam para esvaziar e deslegitimar a luta. Em muitos casos a recusa em criticar o governo não se dá apenas por alinhamento ideológico político, mas por interesses oportunistas, como a preservação nos espaços institucionais, cargos, acesso a verbas e projeção política futura. O resultado é um movimento estudantil institucionalizado, que funciona mais como instrumento do governo do que como um local de organização e luta. No lugar de mobilização coletiva, restam promessas frágeis e a tentativa de domar a indignação social sem enfrentá-la.

Ronaldo Carletto (Avante) e Neto Carletto (PP), ambos da família dona de todo o Grupo Brasileiro, compõem a base de apoio do governador Jerônimo Rodrigues. Reprodução/Foto: Neto Carletto / Instagram.
O resultado da lógica desmobilizante é claro: após a “negociação” na UESC, as promessas da Rota se limitam a menos do que o básico: disponibilizar um cartão físico para além do aplicativo (o que acrescenta na burocracia do processo, já que será outro sistema ao invés do já existente Rotacard), adiar o prazo limite de uso do Rotacard em um mês, aceitar comprovantes de residência de outros municípios além de Itabuna para o desconto estudantil (sem nenhuma menção da meia passagem estudantil), implementação de Wi-Fi gratuito em toda a frota (sem garantias reais do funcionamento deste Wi-Fi, já que até os ônibus que já oferecem o serviço sofrem com constantes problemas de sinal e disponibilidade), além de garantir a transferência dos saldos do Rotacard para o Bipay (sem prazos reais ou garantias de que isso seja feito de forma automática).
Enquanto isso, as universidades da região seguem lidando com a frota insuficiente vinda da Rota, forçando muitos estudantes do turno noturno a sair mais cedo das aulas para pegar o último ônibus, além de possuírem políticas de permanência insuficientes, bolsas defasadas, seguirem sem creches, sem sistema de transporte interno para além de servidores concursados e sem políticas de moradia estudantil, medidas que poderiam mitigar os impactos do aumento da passagem. Fora dos campi, os trabalhadores de Itabuna e região seguem pagando cada vez mais caro por acesso à ônibus lotados e precários, com constante infiltração de água em períodos de chuva e com sistema de climatização frequentemente quebrado, esperando cada vez mais, já que a frota não tem sido expandida para dar conta da demanda crescente e dos constantes casos de ônibus quebrados, em pontos cada vez mais precários e inseguros.
Além disso, tanto dentro quanto fora da universidade, pessoas com deficiência têm lidado com um transporte público cada vez menos acessível, já que a frota atual da Rota tem constantes problemas com seus elevadores, para o acesso de pessoas que usam cadeiras de rodas, e o novo sistema de passagens não possui nenhuma forma de suporte para pessoas cegas ou com baixa visão, forçando as mesmas a apresentar um QR code sem nenhum outro guia para ser alinhado além do visual. Até existe um sistema de passe livre para PCDs, mas o acesso ao mesmo é limitado e dependente da quantidade de assentos livres antes da catraca, que se resumem entre dois a quatro assentos, forçando em diversas situações pessoas com comorbidades consideradas “menores”, como pessoas autistas, a não conseguir usufruir desse direito em momentos de ônibus lotado.
O transporte público não é apenas uma questão de deslocamento, mas um elemento central do direito à educação e à cidade. Quando o custo do transporte se eleva e o serviço se torna instável, estudar, trabalhar e acessar serviços básicos deixam de ser garantia passam a depender da capacidade individual de pagamento. É nesse ponto que o chamado ciclo vicioso da tarifa ajuda a compreender por que os aumentos sucessivos não resolvem os problemas do sistema, mas o aprofundam.
A cada aumento no preço da passagem, parte dos usuários é expulsa do transporte público por não conseguir arcar com os custos. Com menos passageiros, a arrecadação do sistema diminui. Essa queda de receita passa então a ser utilizada pelas empresas e pelo poder político como justificativa para novos reajustes tarifários ou cortes de linhas e de frota, o que piora ainda mais o serviço oferecido. O resultado é um sistema mais caro e excludente, que afasta e reforça a dependência do transporte individual e imobilidade urbana.
Os limites da reação da indignação sobre os absurdos da Rota expõem a ausência de um espaço amplo de debate e organização da pauta do transporte, bem como a ausência de participação de movimentos e entidades, na região e no estado. O combate ao controle e monopólio do transporte “público” concedido à Rota significa pensar nas necessidades de quem trabalha, estuda e mora na região, que tem seu direito à circulação transformado em uma mercadoria para dar lucros milionários, e ceder meras “migalhas” como se fosse muita coisa.