Comando das Forças Armadas demanda quase R$ 1 trilhão em verbas a Lula

Em janeiro, no mês do ataque dos EUA à Venezuela, o presidente Lula, o Ministro da Defesa e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica se reuniram no Palácio do Planalto para discutirem a atribuição de R$ 800 bilhões à Defesa Nacional.

12 de Abril de 2026 às 21h00

Comandantes da Marinha, da Aeronáutica e do Exército ao lado do Presidente Lula e do Ministro da Defesa, José Múcio. Reprodução/Foto: Ricardo Stuckert/PR.

O presidente Lula, o Ministro José Múcio e os comandantes do Exército, general Tomás Paiva, da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, e da Aeronáutica, brigadeiro Marcelo Damasceno se reuniram, ainda em janeiro, no Palácio do Planalto para a apresentação da demanda, realizada pelos comandantes das forças, de aportes financeiros em investimentos na Defesa Nacional. Nesse encontro, os comandantes estimaram em R$ 800 bilhões, em 15 anos, o aporte necessário para dar conta de “uma defesa do tamanho que a sociedade brasileira precisa”, como dito por Múcio, em entrevista ao Tarde BandNewsTV.

Ainda que não estejam claramente apresentadas as iniciativas, os programas ou os prazos que justifiquem a aplicação dos recursos, o encontro marcou uma elevação do nível do debate interno sobre Defesa Nacional. Múcio, entendendo o momento de ameaça de expansão de guerras imperialistas como uma “janela de oportunidades”, vem articulando junto ao Governo Lula a demanda dos comandantes das Forças Armadas pela retirada dos investimentos destinados à defesa do país por causa do Arcabouço Fiscal.

No ano passado, o Congresso Nacional decretou a Lei Complementar 221/2025, que destina R$ 30 bilhões fora do limite de gastos orçamentários, do Novo Arcabouço Fiscal (NAF), às Forças Armadas (FA) até 2031. A medida já garante uma injeção de R$ 5 bilhões por ano aos projetos estruturados pelo Comando. Porém, após acirramento da tensão geopolítica, como a invasão estadunidense à Venezuela e os sequestros do Presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores, as discussões a respeito da necessidade de investimento em Defesa Nacional a longo prazo ganharam mais força.

Em entrevista à jornalista Míriam Leitão, o Ministro da Defesa, José Múcio, que já vem servindo de ponte para a negociação dos interesses militares com o presidente Lula, destacou sua “preocupação” diante da riqueza brasileira em recursos naturais, o que nos coloca como alvo de países estrangeiros.

O ministro destacou ainda que, apesar dos novos investimentos às Forças Armadas, anos de defasagem no setor, em suas palavras, nos fariam continuar “a anos-luz do patamar americano, que planeja investir cerca de US$ 1,5 trilhão em defesa. O ministro e os comandantes seguem reforçando sua pauta e projetando novos avanços de posição.

Enquanto a propaganda militarista avança como uma pretensa solução para a insegurança dos trabalhadores, o Comando das FA aumenta o poderio bélico sob seu domínio e atua para reestruturar sua imagem, que sofreu abalos após o Governo Bolsonaro/Mourão. A retomada de protagonismo político do comando, alavancada sob os Governos de Temer e Bolsonaro-Mourão, vem sendo reorganizada em um ganho de protagonismo orçamentário sob o Governo Lula-Alckmin com a mediação de seu Ministro da Defesa, José Múcio.

Enquanto o imperialismo estadunidense passa a manejar acusações de terrorismo para produzir derrubadas de governos e saques de riquezas naturais, como o petróleo venezuelano ou as terras-raras brasileiras, o lucro de suas multinacionais é protegido pelas instituições do Estado burguês em praticamente toda a América Latina, com a exceção de Cuba.

Apesar do que a mídia burguesa exibe, nós não somos tão diferentes dos nossos vizinhos: estamos na periferia do capitalismo, podemos ser cercados e termos as armas dos comandos militares locais, historicamente aliados aos EUA, viradas contra nosso próprio povo.

A América Latina como alvo

Os EUA, inegavelmente, nunca consideraram a autodeterminação dos povos. Na década de 60, sentiram-se ameaçados pelo pensamento socialista que se integrava ao pensamento da classe trabalhadora latina-americana à época, através da Revolução Cubana, em 1959. Seguiu-se a isso, uma sequência de praticamente 20 anos de derrubadas de presidentes eleitos por meio de golpes militares de comandos alinhados a Washington. No Brasil, o Governo de João Goulart foi desestabilizado e derrubado através desse tipo de agressão imperialista.

Nos dias atuais, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e sequestraram seu presidente eleito, após consolidarem uma presença militar no Mar do Caribe desde o final do ano anterior. Sob a linha do Governo Trump, em seu segundo mandato, Washington mobilizou o maior destacamento naval na região em décadas, liderado pelo porta-aviões USS Gerald R. Ford. Ainda em 2025, petroleiros que transportavam o óleo venezuelano foram sequestrados.

Com o domínio da mídia ocidental, a burguesia norte-americana declara ser um combate ao tráfico de drogas e em “defesa da democracia”, apesar do apoio material ao Estado colonial e ilegítimo de Israel em terras palestinas, do bombardeio a escolas no Irã, invasão da Venezuela, bloqueio ao fornecimento de petróleo à Cuba e ameaças de imposição de tarifas a qualquer país que o forneça à ilha.

Tendo isso em mente, o Governo Lula, em parceria com a África do Sul, passou a defender abertamente a produção de suas próprias armas, além de se posicionar com mais frequência acerca dos últimos crimes de guerra mundo afora, sempre em tom de crítica à brutalidade. Porém, o faz com atitudes vacilantes. Ao mesmo tempo que critica Trump, reconhecendo seus interesses imperialistas, também sinaliza que pode abrir negociações vantajosas aos EUA ao afirmar que “pintou uma indústria petroquímica” entre ambos.

No cenário interno, o vemos ceder às pressões dos comandantes militares, histórica e organicamente ligados às doutrinas impostas pelos EUA no último século. O histórico recente de golpismo, entreguismo e defesa dos interesses do Governo dos EUA e dos capitais estadunidenses, como se fossem semelhantes aos interesses dos trabalhadores brasileiros, não foi superado por ausência completa de enfrentamento.

Não podemos, efetivamente, dizer que o presidente Lula busca ceder aos “dois lados”, quando ambos representam a posição burguesa, seja ela nacional ou estrangeira. O que há, é reforço de posições burguesas acerca das possíveis instabilidades que podem se abater sobre a “normalidade” da acumulação do capital.

Não está colocada qualquer proposta de reforma nas Forças Armadas que reforce mecanismos de controle popular e operário sobre as armas nacionais e a missão auto imposta por seu comando. Seguem também intocadas todas as instituições militares que afastam as tropas do interesse comum junto ao proletariado e alinham seu comando à defesa da hegemonia burguesa no país, que necessita que os militares estejam bem armados apenas para garantia da preservação da ordem através do controle e repressão à luta dos trabalhadores.