Ataque à Venezuela escancara a nova fase da disputa imperialista pela hegemonia global

A base factual da ofensiva imperialista revela, mais uma vez, a completa anulação do direito internacional pela força bruta do capital monopolista.

3 de Fevereiro de 2026 às 15h00

Protesto em frente ao Consulado Americano em Brasília, 5 de janeiro de 2026. Foto: Luciano Rocha / Jornal O Futuro.

A agressão militar direta dos Estados Unidos contra a República Bolivariana da Venezuela, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores, marca um ponto de inflexão na geopolítica mundial e expõe a face mais crua e desesperada do imperialismo em sua fase de crise e declínio hegemônico.

O ataque, deflagrado na madrugada de 3 de janeiro, com bombardeios criminosos sobre Caracas e outros pontos estratégicos do país, não é um evento isolado, mas o ápice de uma escalada belicista que vinha sendo gradualmente preparada e anunciada por Washington. Iniciou-se sob o pretexto de uma suposta “luta contra o narcotráfico” e da ‘clássica’ e cínica “defesa da democracia”; todavia, ao avançar das operações, sequestros de navios e embarcações e aumento no número de fatalidades, o presidente dos EUA, Donald Trump, e a vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2025, María Corina Machado, não esconderam o projeto de entrega total e irrestrita das reservas de petróleo e refinarias venezuelanas ao capital estadunidense.

A base factual da ofensiva imperialista revela, mais uma vez, a completa anulação do direito internacional pela força bruta do capital monopolista. A detenção violenta e ilegal de Maduro e Flores, com seu transporte e encarceramento nos Estados Unidos, foi precedida por uma série de ações de guerra não declarada que se estenderam por meses.

Desde o final de 2025, o Mar do Caribe se converteu em um palco de ameaças militares ostensivas, com o maior destacamento naval dos EUA em décadas, liderado pelo porta-aviões USS Gerald Ford. Sob o pretexto de combate ao tráfico de drogas, embarcações sob a bandeira venezuelana foram bombardeadas e, ainda em dezembro de 2025, petroleiros que transportavam o óleo venezuelano foram sequestrados, intensificando as sanções unilaterais e criminosas contra a indústria petrolífera do país.

O pretexto do narcotráfico, utilizado para indiciar e sequestrar Maduro, ecoa a tática imperialista empregada contra o Panamá em 1989, quando o líder militar Manuel Noriega foi deposto e capturado sob acusações semelhantes. A história do intervencionismo estadunidense na Venezuela se repete como tragédia anunciada, onde a acusação de envolvimento com cartéis de drogas serve como cortina de fumaça para o verdadeiro objetivo: a usurpação da maior reserva de petróleo do mundo e a imposição do controle econômico, político e militar sobre o continente.

A declaração de Donald Trump, que os Estados Unidos governarão a Venezuela até que se complete uma suposta “transição” de poder, escancara o projeto imperialista de dominação absoluta na região. A Venezuela é utilizada como um recado para ameaçar outras nações soberanas da América Latina, como Cuba e o México, e para reafirmar o domínio estadunidense em países da periferia do capitalismo.

A ofensiva militar contra a Venezuela não pode ser compreendida fora do contexto da Nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, que sinaliza uma intensificação da concorrência interimperialista e uma escalada das guerras em escala global. Esta nova fase do imperialismo estadunidense é marcada por uma transição da primazia do econômico para uma postura mais abertamente bélica e hostil, impulsionada pela crise de sua hegemonia e, sobretudo, pelo avanço incontestável do capital chinês em setores estratégicos da fronteira tecnológica.

O documento da Estratégia de Segurança Nacional é explícito ao reconhecer a ascensão da China como uma ameaça à supremacia global dos EUA, descrevendo a relação entre os dois países como a de “quase pares”. A China, que se tornou a segunda maior potência econômica mundial e parceiro comercial de primeira importância de nações estratégicas como Brasil, Peru e Chile, desafia o domínio estadunidense ao fortalecer blocos subimperialistas como o BRICS, que agora inclui potências do setor energético como Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes. A Venezuela, com sua prioridade de exportação de petróleo para a China, torna-se um alvo crucial nessa disputa, pois o controle de seus recursos energéticos e minerais estratégicos é vital para a manutenção da supremacia tecnológica e industrial dos EUA.

A Estratégia de Segurança Nacional visa manter ou alcançar a supremacia global em áreas como armas nucleares, economia, base industrial, setor energético, ciência e tecnologia. O foco no Indo-Pacífico e a busca pela “superioridade militar” sobre a China, juntamente com a garantia de “cadeias de suprimento seguras e confiáveis e acesso a materiais críticos”, demonstram que a disputa não é mais apenas por mercados, mas pelo aquecimento da disputa por controle direto das fontes de energia e das matérias-primas essenciais para a produção de alta tecnologia, como as terras raras, concentradas em grande parte na América do Sul.

O imperialismo estadunidense, incapaz de persuadir por meio do ferramental econômico que dispõe e dos ativos de sua própria indústria, recorre à força militar para impor seus interesses e conter a mudança no equilíbrio de poder global. A agressão à Venezuela é, acima de tudo, uma agressão ao povo venezuelano, uma violação flagrante de sua soberania, manifestando a fase brutal das disputas imperialistas, onde a guerra se torna o instrumento preferencial para a defesa da hegemonia em declínio.

Essa conjuntura de crise na disputa entre as potências imperialistas escancara o cenário de turbulência e contradições que expõe com mais veemência a decadência do sistema capitalista. A incapacidade do mundo de impedir concretamente uma intervenção militar norte-americana expõe a fragilidade da chamada “multipolaridade” e a ineficácia dos organismos internacionais e, sobretudo, dos blocos russo e chinês diante do militarismo estadunidense.

Diante da escalada belicista dos EUA, a resposta dos partidos comunistas e operários de todo o mundo é categórica: a condenação enérgica da agressão militar e do sequestro de Maduro, a exigência de sua liberdade imediata e o fim do ataque. A solidariedade ativa com o povo venezuelano é uma necessidade imperiosa e uma resposta contundente à agressão imperialista é crucial para a defesa da soberania e da paz não somente na América Latina e no Caribe, mas no mundo.

Nos dias seguintes à agressão militar, trabalhadores do mundo todo, inclusive no Brasil, prestaram solidariedade junto ao povo venezuelano, que encheram as ruas de Caracas, com faixas e cartazes com os dizeres “os mísseis de Gaza são os mesmos no Caribe”, ”morte ao imperialismo yankee” e “não à intervenção na América Latina e Caribe”.

Contando com o apoio dos venezuelanos, Delcy Rodríguez, a atual presidente da Venezuela, e vice de Nicolás Maduro, anunciou ações diplomáticas e concessões frente às exigências estadunidenses; além disso, a presidenta interina anunciou uma “reforma administrativa” fundindo pastas, anunciando novas chefias e deslocamentos internos no governo, inclusive no comando das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB).

Conscientes de que a intervenção estadunidense não é, nem de longe, a resolução das crises internas envolvendo, inclusive, a perseguição de Maduro ao Partido Comunista da Venezuela, os trabalhadores venezuelanos rechaçaram por completo a investida imperialista na soberania da Venezuela e conclamaram o movimento comunista e operário internacional, as forças populares, democráticas e anti-imperialistas do mundo a se mobilizarem imediatamente em rejeição a esta nova e perigosa ofensiva militar e a expressarem sua solidariedade ativa com o povo venezuelano.

A luta contra a agressão imperialista na Venezuela é, em última instância, a luta pela derrubada do capitalismo em decadência. A unidade da classe trabalhadora mundial contra a barbárie imperialista, sob a bandeira da autodeterminação dos povos, é o único caminho para garantir a construção de um futuro socialista para os povos oprimidos, livre da exploração e da guerra.