Falta de recursos nas universidades estimula parcerias privadas com empresas como a Boeing
Em meio ao cenário de subfinanciamento das universidades públicas, Boeing firma um novo ciclo de parcerias com universidades brasileiras, e reforça sua postura predatória com a produção científica nacional.

Protesto contra venda da Embraer para a Boeing, em 2018. Reprodução/Foto: Manuela Moraes/SindmetalSJC.
No mês de fevereiro de 2026, a Boeing anunciou mais uma etapa do ciclo de parcerias firmadas com universidades públicas brasileiras. A nova medida expande a influência da empresa aeronáutica estadunidense a partir da construção de laboratórios Universidade de São Paulo (Campus de São Carlos), Universidade Federal de Itajubá (UniFei) e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Um dos principais exemplos dessa aproximação é a parceria com o Departamento de Engenharia Aeronáutica da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da Universidade de São Paulo (USP), que levou a criação de um novo laboratório composto por três cabines de simuladores de voo.
Os interesses do grande capital internacional em relação à produção científica brasileira não são nenhuma novidade. São diversos os acordos firmados por universidades e departamentos, muitas vezes articulados por uma política dos governos federal ou estadual que beneficia as empresas privadas através dos recursos públicos, como foi o caso do Memorando de Entendimento firmado em 2023 entre a Boeing e o governo de São Paulo.
No que diz respeito às universidades, empresas dos centros imperialistas do capitalismo, como a Boeing, se aproveitam do cenário de subfinanciamento das universidades brasileiras para firmar acordos predatórios de “investimento”. Se por um lado essas empresas oferecem investimento e infraestrutura, por outro elas se aproveitam de toda estrutura das universidades públicas brasileiras para se apropriar da produção científica nacional e da mão de obra qualificada. Esse movimento reforça a posição dependente que o Brasil possui hoje no cenário internacional do capitalismo, e garante a impossibilidade de desenvolvimento de qualquer indústria nacional que se aproprie da produção científica e tecnológica desenvolvida no Brasil.
Em meio a esse cenário, tanto os governos quanto as reitorias escondem os verdadeiros problemas da universidade pública e da produção científica no Brasil. Ao invés de prezar por um investimento público, fortalecimento das universidades públicas e, consequentemente, o desenvolvimento científico, preferem firmar contratos em nome de um falso “investimento”, “inovação” ou até mesmo “integração entre o mercado privado e as universidades” enquanto sinônimos de modernização. O que isso mascara é que temos hoje um cenário de profundo subfinanciamento das universidades, que é reforçado pelo Novo Arcabouço Fiscal e o Regime de Recuperação Fiscal, medidas que efetivam uma política de austeridade tanto para as universidades federais quanto para as estaduais, enquanto transferimos a maior parte da produção científica e tecnológica desenvolvida no Brasil para os principais centros do capitalismo.
Os avanços da Boeing contra a indústria do Brasil
O avanço dos interesses econômicos da Boeing em relação ao Brasil não se restringem às universidades. Em 2018, a diretoria da Embraer (fabricante brasileira de aviões, uma das maiores do mundo neste setor, que tem sede em São José dos Campos) aprovou a venda da empresa para a Boeing US$ 5,26 bilhões. A venda foi feita a partir dos termos da criação de uma empresa conjunta, em que a Boeing teria o comando com 80% da empresa, e a Embraer ficaria em uma posição de submissão com os outros 20%.
Durante o processo de criação da empresa, dois anos depois da venda ter sido aprovada, a Boeing rompeu o contrato e voltou atrás na decisão de compra. Todo esse processo carregou inúmeras irregularidades, pois antes de voltar atrás na decisão, a Boeing teve acesso a informações confidenciais, como listas de engenheiros, arquiteturas de software e metodologias de integração digital. Posterior ao rompimento, a Boeing utilizou dessas informações para contratar mais de 500 engenheiros-chave da Embraer, o que afetou diretamente diversos setores de produção e desenvolvimento da empresa brasileira.
Grande parte das irregularidades ocorreram durante o governo Bolsonaro, em que a cúpula da Aeronáutica e o Ministério da Defesa demonstraram alinhamento com os Estados Unidos e os interesses da Boeing. Porém, com o decorrer dos processos, já no atual governo Lula-Alckmin, o Ministério da Defesa minimizou o episódio, afirmando que não se enquadrava como um ataque à soberania nacional do Brasil. Além disso, no ano de 2025, a Justiça Federal negou os pedidos que buscavam a proibição das contratações em massa de engenheiros da Embraer pela Boeing.
O papel da Boeing no genocídio do povo palestino
Para além da submissão da produção científica ao grande capital e do aprofundamento da dependência brasileira, ao firmar contratos com a Boeing, as universidades públicas brasileiras se colocam na posição de parceiras com uma das principais empresas que fornecem os meios tecnológicos e militares para a consolidação do genocídio do povo palestino.
As relações entre a Boeing e o estado de Israel datam desde a fundação do estado genocida, há 75 anos. Desde então a Boeing tem estreitas relações de desenvolvimento tecnológico e militar que vão desde as frotas comerciais da companhia nacional El Al, até os 9 modelos da empresa que fazem parte da frota operada pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). Mais recentemente, em 2018, foi firmado um acordo que pretende aprofundar ainda mais esses vínculos com uma compra de mais de US$8,6 bilhões, garantindo 50 novas aeronaves para a Força Aérea Israelense.
As relações entre as universidades brasileiras e as empresas e instituições ligadas diretamente ao genocidio do povo palestino são comuns. O lobby sionista é bastante presente nas universidades por todo o mundo, e tenta se apropriar desde a produção técnica e cientifica para manter sua máquina de guerra, quanto da produção ideológica com o objetivo de legitimar o extermínio em curso.
Em diversas universidades existem mobilizações para transformar essa realidade. Em outubro de 2025 na Unicamp, uma articulação dos estudantes foi responsável por romper o convênio firmado em 2023 entre Unicamp e Technion, um instituto responsável pelo financiamento e desenvolvimento de tecnologia que é diretamente utilizada para o genocídio palestino.
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