Pedral do Lourenço vira alvo e a resposta é a ocupação DNIT

Ribeirinhos, indígenas e movimentos sociais ocuparam a sede do DNIT em Marabá contra projeto de explosão de rochas no rio Tocantins, obra ligada à expansão hidroviária do Arco Norte e ao escoamento de commodities.

21 de Março de 2026 às 21h00

Pedral do Lourenço. Reprodução/Foto: Eva Moraes/Amazônia Latitude.

A ocupação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT) em Marabá por ribeirinhos, indígenas e movimentos sociais reacendeu o conflito em torno do Pedral do Lourenço, no rio Tocantins. O projeto de explosão das rochas, defendido pelo governo federal, faz parte da expansão da hidrovia do Arco Norte, um corredor logístico voltado à exportação de commodities que ameaça destruir um dos trechos mais importantes do rio para a pesca e para a vida das comunidades da região.

Na manhã de 24 de fevereiro, cerca de 300 manifestantes ocuparam a sede do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) em Marabá, no sudeste do Pará. Vindos de comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas e assentamentos da região, os manifestantes denunciaram o avanço da obra sem consulta adequada às populações afetadas e exigiram a suspensão imediata do projeto.

O Pedral do Lourenço é uma extensa formação rochosa que aflora durante a estiagem no trecho do rio Tocantins entre Marabá e Tucuruí. Há mais de uma década, o governo federal  planeja remover essas rochas por meio de dragagens e explosões para permitir a passagem de grandes comboios de carga ao longo de todo o ano. O projeto prevê dinamitar cerca de 35 quilômetros de corredeiras, abrindo um canal de navegação que pode chegar a 160 metros de largura para permitir a circulação permanente de grandes barcaças. Na prática, trata-se de reconfigurar um trecho inteiro do rio para adaptá-lo às necessidades logísticas do agronegócio.

Manifestantes na frente do DNIT. Reprodução/Foto: Evangelista Rocha/Correio.

O pedral como berçário da vida do rio

Para as comunidades que vivem às margens do Tocantins, porém, o pedral está longe de ser um simples obstáculo à navegação. A região funciona como um importante berçário de peixes e sustenta a pesca artesanal que garante renda e alimentação para dezenas de comunidades ribeirinhas. Pescadores da região resumem a importância do pedral de forma direta: “se não tem pedral, não tem peixe.” As rochas funcionam como abrigo, área de reprodução e base da cadeia alimentar de diversas espécies do Tocantins.

A destruição dessa formação rochosa ameaça alterar correntes do rio, destruir habitats e comprometer ciclos reprodutivos da fauna aquática. Espécies emblemáticas da região, como  grandes cascudos que vivem nas fendas profundas entre as pedras, dependem diretamente dessas estruturas para sobreviver. Sem o pedral, essas espécies simplesmente deixam de existir nesse trecho do rio. Nesse conflito entre planejamento logístico e vida no território, o rio deixa de ser território e passa a ser tratado como infraestrutura. A pedra vira obstáculo, a corrente vira rota e o território vira corredor de exportação.

A transformação do rio em rota da soja

Além dos impactos ambientais, o conflito em torno do Pedral do Lourenço expõe um processo mais amplo de reorganização logística da Amazônia para atender às cadeias globais de exportação de matérias-primas.

Como já analisamos no jornal O Futuro, a expansão das hidrovias no chamado Arco Norte busca consolidar uma nova rota para escoar soja e outras commodities produzidas no Centro-Oeste, conectando rodovias, portos e hidrovias em um grande corredor de exportação voltado ao mercado internacional. Mesmo antes do planejamento de destruição do pedral, esse corredor logístico já opera. Durante o período de cheia, quando o nível do rio permite maior navegação, comboios carregados de soja já utilizam o Tocantins para transportar grãos até os portos do Norte.

O derrocamento do Pedral do Lourenço surge justamente como a etapa que permitiria eliminar o último grande obstáculo natural à navegação permanente de grandes barcaças. Ou seja, o projeto não tem como objetivo atender as populações da região, mas sim transformar o rio Tocantins em uma rota estável de exportação para o agronegócio. Essa disputa também se conecta ao debate nacional sobre o futuro dos rios amazônicos. Recentemente, o Baixo Tapajós junto com movimentos de indígenas conseguiram derrotar propostas que buscavam entregar hidrovias estratégicas da Amazônia à iniciativa privada.

A resistência em defesa do Pedral do Lourenço expressa, portanto, uma disputa mais profunda sobre o futuro da Amazônia. De um lado, o avanço de um modelo de desenvolvimento subordinado à exportação de matérias-primas, de outro, a defesa do território e da vida dos povos que dependem diretamente dos rios.

A luta de classes no Brasil passa necessariamente pelo enfrentamento aos projetos de saque do território e pela defesa da soberania popular sobre os bens naturais do país. Nesse sentido, impedir a destruição do Pedral do Lourenço significa barrar mais um passo na transformação dos rios amazônicos em infraestrutura do agronegócio.

A mobilização em Marabá mostra que essa disputa está aberta. E deixa uma lição política evidente que defender o Pedral do Lourenço é defender o direito dos povos da Amazônia de decidir sobre seus rios e impedir que o Tocantins seja reduzido a mais um canal de escoamento da soja. Apontamos que a luta da classe trabalhadora no Brasil passa necessariamente pelo enfrentamento aos projetos de saque do território e pela defesa da soberania popular sobre os bens naturais do país.