Novo aumento da passagem de ônibus em Campinas causa indignação

O anúncio do ajuste foi feito pela Prefeitura de Campinas junto à Transurc (a entidade privada que reúne as empresas de ônibus da cidade), no penúltimo dia do ano, discretamente em meio às festas.

4 de Fevereiro de 2026 às 15h00

Terminal Central após ato do dia 14 de janeiro de 2026. Foto: Jornal O Futuro.

Por L. Lemos

No último dia 14 de janeiro, os trabalhadores e estudantes da região metropolitana de Campinas (SP) realizaram uma manifestação no Terminal Central de Campinas, a primeira de uma série de atos convocados em resposta ao aumento do valor da passagem de ônibus. Desde então, novos protestos se seguiram com o segundo do ano sobre o tema, no dia 29 de janeiro, mostrando que a revolta não foi um episódio isolado, mas o início de um processo contínuo de mobilização.

O anúncio do ajuste foi feito pela Prefeitura de Campinas junto à Transurc (a entidade privada que reúne as empresas de ônibus da cidade), no penúltimo dia do ano, discretamente em meio às festas.

O Bilhete Único Comum passou de R$5,70 para R$6, o Vale-Transporte foi de R$6,20 para R$6,50 e o Bilhete Universitário foi de R$2,85 para R$3. A tarifa está acima do preço de quase todas as capitais. Para quem pega o ônibus duas vezes por dia, cinco dias por semana, o gasto mensal chega a absurdos R$240,00 para o Bilhete Único Comum, R$260,00 para o Vale-Transporte e R$120,00 para o Bilhete Único Universitário mensal. Isso representa 15%, 16% e 7,5%, respectivamente, do salário mínimo anunciado para 2026.

Tudo isso para um serviço que sofre com superlotação, frotas reduzidas e estrutura precária. Cada aumento da passagem amplia os gastos que trabalhadores e estudantes têm para se locomover, dificultando o acesso à cidade e limitando o direito de ir e vir.

Mas afinal, para onde vai o dinheiro da passagem?

Em 2025, o valor destinado inicialmente ao transporte público de Campinas foi de R$139 milhões, porém acabou totalizando R$218 milhões, conforme matéria do Diário do Transporte, sendo uma parte destinada à Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas) e outra ao subsídio de empresas como as que fazem parte da Transurc. Sendo essas empresas privadas, a pergunta que fica é: por que empresas que dão lucro recebem milhões do município para funcionar e ainda cobram passagem?

Essa questão demonstra uma contradição central: enquanto o transporte público é essencial para o funcionamento da cidade, ele ainda se mantém subordinado a uma dinâmica de lucro, mesmo sendo sustentado por financiamento municipal.

Foi a partir dessa contradição que as demandas do povo organizado nos protestos não se limitaram apenas a se opor ao aumento da passagem, mas também a defender o passe livre para toda a região, até porque não existe justificativa para a população pagar duas vezes pelo mesmo serviço (pela tarifa e pelos impostos), que ainda falha em oferecer qualidade e disponibilidade para a região metropolitana.

Não é por acaso que a pauta do povo organizado não se limita à revogação do aumento. Entre os trabalhadores e estudantes e movimentos que constroem a mobilização, a defesa da Tarifa Zero aparece como resposta direta à realidade vivida na região. Em frente a um sistema caro, que já é subsidiado com recursos públicos e ainda assim incapaz de garantir acesso pleno à cidade, a gratuidade não é uma benevolência, mas sim uma necessidade da população.

Por que a Tarifa Zero?

O transporte público é um direito fundamental. Com isso em mente, a tarifa, mesmo antes do aumento, serve como um imposto aplicado duas vezes para a população que mais paga impostos proporcionalmente no Brasil: os trabalhadores. Se o transporte já é sustentado pelo contribuinte, não existe motivo para haver qualquer tarifa.

Mais do que somente aliviar o bolso, a Tarifa Zero redefine quem pode acessar a cidade. Essa mudança interfere diretamente no tempo de vida, na possibilidade de circular, estudar, trabalhar e ocupar os espaços urbanos. Em um sistema onde a tarifa funciona como barreira diária, a gratuidade rompe com a lógica que isola boa parte do povo.

Porém, a defesa da tarifa zero não resolve a principal contradição do transporte público enquanto ele continuar sob o controle de empresas privadas. Sem a estatização do sistema de transportes, a tarifa zero só mantém uma transferência direta de recursos públicos para o bolso de investidores privados, mantendo inalterada a lógica do lucro que historicamente precariza o serviço.

Por que a estatização?

A estatização vem como uma resposta imediata às contradições apresentadas. Enquanto o sistema continuar sob o controle do setor privado, mesmo sustentado pelo financiamento público, continuará guiado para dar lucro a seus donos, e não pela necessidade da população trabalhadora.

Nessa situação, o município arca com os custos, mas não tem controle total sobre a operação, o planejamento das linhas, a renovação da frota e a qualidade geral do serviço. Dessa forma, o transporte público continua precarizado e sem atender às necessidades dos trabalhadores.

Porém a estatização não se coloca apenas como medida administrativa, mas como uma mudança necessária para que o transporte pare de servir aos interesses privados e passe a ser planejado conforme as necessidades do povo. Sem o controle público, o sistema segue não servindo a quem deveria, a população da região metropolitana de Campinas.

A quem esse sistema serve?

Analisando a forma como o transporte público funciona na Região Metropolitana de Campinas, fica claro que ele não foi desenvolvido para atender às necessidades da população. A organização do sistema faz com que as linhas, horários e investimentos sigam condicionados à rentabilidade das empresas, e não à demanda da população que depende diretamente do serviço para trabalhar, estudar, ter seu tempo de lazer ou mesmo exercer seu direito de ir e vir.

Nesse sistema, o deslocamento do povo é tratado como custo, não como direito. Linhas superlotadas, intervalos longos e cortes em trajetos vistos como menos lucrativos se tornam projeto, e não erros ocasionais. Quanto mais se gasta com manutenção, renovação de frota ou com remuneração e condições dignas para os motoristas, menos os empresários lucram. Assim, a população segue sofrendo com a precarização e a queda da qualidade de vida, enquanto os empresários mantêm seus lucros assegurados por contratos, subsídios e reajustes tarifários.

Por que a região metropolitana de Campinas se revolta?

Para a população da região metropolitana de Campinas, o aumento passa a ser ainda mais absurdo quando comparado a outras grandes cidades do país. Mesmo antes do aumento, o valor cobrado na região já era maior do que o praticado em diversas capitais do Brasil, cidades com malhas de transporte mais amplas, mais território e custos operacionais superiores. Na prática, a população paga mais para utilizar um sistema fragmentado, com longos tempos de espera e integração limitada. Isso escancara que o problema não é apenas o aumento, mas a discrepância proposital entre o que se cobra e o que é oferecido, por conta do lucro de quem enriquece explorando um serviço público.

Diante desse cenário, o ato realizado em Campinas não aparece como reação isolada, e sim como resultado de uma revolta acumulada e justificada. O povo sente diariamente o peso da tarifa e a falta de qualidade do transporte público. A manifestação no Terminal Central expressa essa insatisfação em sua forma organizada: o ódio da população, não como selvageria, mas como uma luta por mudança.

Por que se organizar?

O aumento da passagem não gera apenas uma indignação abstrata; ele é sintoma de um sistema que não serve àqueles que o sustentam, o povo. A raiva de esperar longamente em pontos cheios, de perder tempo de vida em ônibus lotados e sem manutenção e de pagar caro por um serviço que os deixa na mão todos os dias não nasce do nada e tampouco é irracional; ela é fruto de uma realidade a ser transformada.

Nesse contexto, a organização da população é o que transforma o ódio em mudança real. Sem isso, a revolta se dispersa ou é reduzida a picos isolados. Com trabalhadores e estudantes se organizando para atos como o do dia 14, a indignação passa a ter direção, continuidade e objetivo. Apenas com a pressão da população é possível mudar esse sistema no qual estamos inseridos.