Novo aumento da passagem de ônibus em Campinas causa indignação
O anúncio do ajuste foi feito pela Prefeitura de Campinas junto à Transurc (a entidade privada que reúne as empresas de ônibus da cidade), no penúltimo dia do ano, discretamente em meio às festas.

Terminal Central após ato do dia 14 de janeiro de 2026. Foto: Jornal O Futuro.
Por L. Lemos
No último dia 14 de janeiro, os trabalhadores e estudantes da região metropolitana de Campinas (SP) realizaram uma manifestação no Terminal Central de Campinas, a primeira de uma série de atos convocados em resposta ao aumento do valor da passagem de ônibus. Desde então, novos protestos se seguiram com o segundo do ano sobre o tema, no dia 29 de janeiro, mostrando que a revolta não foi um episódio isolado, mas o início de um processo contínuo de mobilização.
O anúncio do ajuste foi feito pela Prefeitura de Campinas junto à Transurc (a entidade privada que reúne as empresas de ônibus da cidade), no penúltimo dia do ano, discretamente em meio às festas.
O Bilhete Único Comum passou de R$5,70 para R$6, o Vale-Transporte foi de R$6,20 para R$6,50 e o Bilhete Universitário foi de R$2,85 para R$3. A tarifa está acima do preço de quase todas as capitais. Para quem pega o ônibus duas vezes por dia, cinco dias por semana, o gasto mensal chega a absurdos R$240,00 para o Bilhete Único Comum, R$260,00 para o Vale-Transporte e R$120,00 para o Bilhete Único Universitário mensal. Isso representa 15%, 16% e 7,5%, respectivamente, do salário mínimo anunciado para 2026.
Tudo isso para um serviço que sofre com superlotação, frotas reduzidas e estrutura precária. Cada aumento da passagem amplia os gastos que trabalhadores e estudantes têm para se locomover, dificultando o acesso à cidade e limitando o direito de ir e vir.
Mas afinal, para onde vai o dinheiro da passagem?
Em 2025, o valor destinado inicialmente ao transporte público de Campinas foi de R$139 milhões, porém acabou totalizando R$218 milhões, conforme matéria do Diário do Transporte, sendo uma parte destinada à Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas) e outra ao subsídio de empresas como as que fazem parte da Transurc. Sendo essas empresas privadas, a pergunta que fica é: por que empresas que dão lucro recebem milhões do município para funcionar e ainda cobram passagem?
Essa questão demonstra uma contradição central: enquanto o transporte público é essencial para o funcionamento da cidade, ele ainda se mantém subordinado a uma dinâmica de lucro, mesmo sendo sustentado por financiamento municipal.
Foi a partir dessa contradição que as demandas do povo organizado nos protestos não se limitaram apenas a se opor ao aumento da passagem, mas também a defender o passe livre para toda a região, até porque não existe justificativa para a população pagar duas vezes pelo mesmo serviço (pela tarifa e pelos impostos), que ainda falha em oferecer qualidade e disponibilidade para a região metropolitana.
Não é por acaso que a pauta do povo organizado não se limita à revogação do aumento. Entre os trabalhadores e estudantes e movimentos que constroem a mobilização, a defesa da Tarifa Zero aparece como resposta direta à realidade vivida na região. Em frente a um sistema caro, que já é subsidiado com recursos públicos e ainda assim incapaz de garantir acesso pleno à cidade, a gratuidade não é uma benevolência, mas sim uma necessidade da população.
Por que a Tarifa Zero?
O transporte público é um direito fundamental. Com isso em mente, a tarifa, mesmo antes do aumento, serve como um imposto aplicado duas vezes para a população que mais paga impostos proporcionalmente no Brasil: os trabalhadores. Se o transporte já é sustentado pelo contribuinte, não existe motivo para haver qualquer tarifa.
Mais do que somente aliviar o bolso, a Tarifa Zero redefine quem pode acessar a cidade. Essa mudança interfere diretamente no tempo de vida, na possibilidade de circular, estudar, trabalhar e ocupar os espaços urbanos. Em um sistema onde a tarifa funciona como barreira diária, a gratuidade rompe com a lógica que isola boa parte do povo.
Porém, a defesa da tarifa zero não resolve a principal contradição do transporte público enquanto ele continuar sob o controle de empresas privadas. Sem a estatização do sistema de transportes, a tarifa zero só mantém uma transferência direta de recursos públicos para o bolso de investidores privados, mantendo inalterada a lógica do lucro que historicamente precariza o serviço.
Por que a estatização?
A estatização vem como uma resposta imediata às contradições apresentadas. Enquanto o sistema continuar sob o controle do setor privado, mesmo sustentado pelo financiamento público, continuará guiado para dar lucro a seus donos, e não pela necessidade da população trabalhadora.
Nessa situação, o município arca com os custos, mas não tem controle total sobre a operação, o planejamento das linhas, a renovação da frota e a qualidade geral do serviço. Dessa forma, o transporte público continua precarizado e sem atender às necessidades dos trabalhadores.
Porém a estatização não se coloca apenas como medida administrativa, mas como uma mudança necessária para que o transporte pare de servir aos interesses privados e passe a ser planejado conforme as necessidades do povo. Sem o controle público, o sistema segue não servindo a quem deveria, a população da região metropolitana de Campinas.
A quem esse sistema serve?
Analisando a forma como o transporte público funciona na Região Metropolitana de Campinas, fica claro que ele não foi desenvolvido para atender às necessidades da população. A organização do sistema faz com que as linhas, horários e investimentos sigam condicionados à rentabilidade das empresas, e não à demanda da população que depende diretamente do serviço para trabalhar, estudar, ter seu tempo de lazer ou mesmo exercer seu direito de ir e vir.
Nesse sistema, o deslocamento do povo é tratado como custo, não como direito. Linhas superlotadas, intervalos longos e cortes em trajetos vistos como menos lucrativos se tornam projeto, e não erros ocasionais. Quanto mais se gasta com manutenção, renovação de frota ou com remuneração e condições dignas para os motoristas, menos os empresários lucram. Assim, a população segue sofrendo com a precarização e a queda da qualidade de vida, enquanto os empresários mantêm seus lucros assegurados por contratos, subsídios e reajustes tarifários.
Por que a região metropolitana de Campinas se revolta?
Para a população da região metropolitana de Campinas, o aumento passa a ser ainda mais absurdo quando comparado a outras grandes cidades do país. Mesmo antes do aumento, o valor cobrado na região já era maior do que o praticado em diversas capitais do Brasil, cidades com malhas de transporte mais amplas, mais território e custos operacionais superiores. Na prática, a população paga mais para utilizar um sistema fragmentado, com longos tempos de espera e integração limitada. Isso escancara que o problema não é apenas o aumento, mas a discrepância proposital entre o que se cobra e o que é oferecido, por conta do lucro de quem enriquece explorando um serviço público.
Diante desse cenário, o ato realizado em Campinas não aparece como reação isolada, e sim como resultado de uma revolta acumulada e justificada. O povo sente diariamente o peso da tarifa e a falta de qualidade do transporte público. A manifestação no Terminal Central expressa essa insatisfação em sua forma organizada: o ódio da população, não como selvageria, mas como uma luta por mudança.
Por que se organizar?
O aumento da passagem não gera apenas uma indignação abstrata; ele é sintoma de um sistema que não serve àqueles que o sustentam, o povo. A raiva de esperar longamente em pontos cheios, de perder tempo de vida em ônibus lotados e sem manutenção e de pagar caro por um serviço que os deixa na mão todos os dias não nasce do nada e tampouco é irracional; ela é fruto de uma realidade a ser transformada.
Nesse contexto, a organização da população é o que transforma o ódio em mudança real. Sem isso, a revolta se dispersa ou é reduzida a picos isolados. Com trabalhadores e estudantes se organizando para atos como o do dia 14, a indignação passa a ter direção, continuidade e objetivo. Apenas com a pressão da população é possível mudar esse sistema no qual estamos inseridos.