Entre fábricas e fardas: a expansão das escolas cívico-militares em Maracanaú (CE)

Município da Região Metropolitana de Fortaleza concentra uma das maiores redes de escolas cívico-militares do país, consolidando um modelo que atende às necessidades do setor industrial da região.

7 de Julho de 2026 às 15h00

União da Juventude Comunista (UJC) no Encontro Nacional de Grêmios da União Brasileira de Estudantes Secundaristas, na cidade de Niterói (RJ). Foto: Jornal O Futuro.

Por João Lucas

Maracanaú tornou-se um dos municípios com maior número de escolas cívico-militares do Brasil. Nos últimos anos, a prefeitura ampliou a adoção desse modelo educacional na rede municipal, transformando a cidade em uma das principais referências nacionais da política de militarização das escolas públicas.

A expansão tem sido apresentada pelo Poder Público como uma estratégia para “melhorar indicadores educacionais, reduzir conflitos no ambiente escolar e fortalecer a disciplina entre os estudantes”. O modelo impõe uma gestão escolar dividida entre militares e profissionais da educação, gerando arbitrariedades nas decisões de cunho pedagógico e prejudicando o princípio da gestão democrática das escolas, disposto no artigo 3° da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

O avanço das escolas cívico-militares no Ceará ocorre em um contexto de crescimento desse modelo em diferentes regiões do país. Defensores da proposta afirmam que ela contribui para melhorar o rendimento dos alunos e reduzir problemas de indisciplina. Entretanto, diversos dados e relatos apontam para o crescimento da repressão e da violência no ambiente escolar, mascarados pelos supostos melhores resultados acadêmicos.

Sobre o papel da educação

A expansão das escolas cívico-militares tem alimentado um debate nacional sobre os rumos da educação pública brasileira. Para seus defensores, o modelo representa uma resposta aos desafios enfrentados pelas escolas, especialmente em regiões marcadas por vulnerabilidades sociais. A presença de uma estrutura disciplinar mais rígida supostamente seria um instrumento de garantia de melhores condições de ensino e aprendizagem.

A lógica que baseia o modelo é baseada na crença de que a disciplina forçada é fator determinante para o desempenho acadêmico. Na prática, são implementadas medidas ostensivas nas escolas que reprimem a liberdade de pensamento, a livre expressão dos estudantes, além de impedir seu desenvolvimento pleno enquanto ser humano.

Ao substituir processos participativos por cargos de direção ocupados por militares nomeados, a proposta concentra poder, reduz a autonomia das escolas e enfraquece a participação de estudantes, professores e trabalhadores da educação nos rumos da comunidade escolar. Soma-se a isso a proibição dos grêmios estudantis, uma afronta direta à Lei nº 7.398/1985 e à histórica luta do movimento estudantil brasileiro. Ao atacar os instrumentos de organização coletiva dos estudantes, busca-se transformar a escola em um espaço de disciplina e obediência, restringindo a formação crítica e a capacidade de mobilização da juventude.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que desafios como a evasão escolar, as dificuldades de aprendizagem e as desigualdades educacionais estão fortemente relacionados às condições socioeconômicas dos estudantes, ao financiamento da educação e à infraestrutura das escolas.

A militarização das escolas tenta mascarar problemas estruturais, resultados do subfinanciamento da educação produzido pelo Arcabouço Fiscal e pelas políticas de austeridade, direcionando a causa da crise na educação para uma “falta de disciplina”.

A política de subfinanciamento da educação, e a militarização das escolas como consequência dessa onda de ataques feitos sistematicamente ao ensino público no Brasil, ofuscam um debate sobre o verdadeiro papel da educação. Na sociedade capitalista, dividida em classes, existem dois projetos que estão em constante embate: a escola burguesa e a escola popular.

O papel da escola na sociedade capitalista é de formar trabalhadores para ser explorada e produzir lucro para o bolso da burguesia. Dessa forma, um modelo de educação baseado na disciplina imposta, no subfinanciamento do ensino público e no asfixiamento da liberdade de crítica e de pensamento é fundamental para formar engrenagens para o funcionamento do sistema capitalista, que opera para enriquecer cada vez mais poucos e empobrecer muitos.

A classe trabalhadora, por sua vez, tem interesses completamente opostos ao dos capitalistas. O formato de escola que existe dentro dessa sociedade, dominada pelo capital, não serve para os trabalhadores, que querem uma escola que consiga atender as necessidades de formação humana na sua completude, ou seja, que desenvolva não só o conhecimento acadêmico, mas que dê bases para o desenvolvimento social, psicológico, artístico e todas as variadas formas de conhecimento. Esse modelo de escola, a escola popular, só pode existir com o mais amplo financiamento público que garanta estrutura e permanência, acesso a materiais didáticos, equipamentos de cultura e esporte nas escolas, etc.

Educação, disciplina e desigualdade

O crescimento das escolas cívico-militares em Maracanaú também levanta questões sobre o papel da educação pública em um município marcado por profundas desigualdades.

Maracanaú é o maior polo industrial do Ceará. O município possui mais de 93 indústrias ativas, com o setor representando cerca de 41% do Produto Interno Bruto (PIB) e ocupa a 4° posição no ranking de exportações. Toda essa riqueza produzida pelas mãos dos trabalhadores do município contrasta com os indicadores sociais de violência e pobreza. Quem produz a riqueza são os operários, mas são os capitalistas que ficam com ela.

Para atender às demandas da burguesia industrial, produzir escolas que sejam verdadeiras fábricas de “soldados” para uma linha de produção, que não questionem e acatem as ordens calados é totalmente conveniente. A expansão das escolas cívico-militares em Maracanaú acompanha as necessidades do principal setor econômico do município, deixando claro como a educação no capitalismo está subordinada às necessidades da classe dos exploradores.

A importância da disciplina, nesse contexto, é fundamental. Não é de interesse formar trabalhadores que refletem criticamente sobre a situação de vulnerabilidade em que vivem e a contradição do volume de riqueza que produzem com suas próprias mãos e os salários de miséria que lhes são pagos.

A narrativa de que a gestão cívico-militar das escolas produz melhores resultados cai por terra quando as situações de precariedade do ensino se mantêm. Quando questionada pelo Jornal O Futuro, a mãe de um estudante da Escola Cívico-Militar (ECIM) Coronel Adauto Bezerra, localizada no Conjunto Industrial (bairro de Maracanaú), sobre as mudanças trazidas pela conversão do modelo de gestão da escola, apontou que “os problemas continuaram (...) Quando chove a gente sempre tem que ir buscar mais cedo porque não tem recreio para as crianças, a escola sempre alaga”.

De maneira independente, os estudantes se organizam para enfrentar a militarização e os ataques à educação. Em Abril de 2026 ocorreu o 46° Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), onde a luta contra a militarização das escolas foi ponto de consenso geral do movimento estudantil. A União da Juventude Comunista (UJC) apresentou em suas teses ao congresso a defesa de uma escola popular, defendendo que o papel da UBES é de direcionar a luta dos estudantes contra os interesses de classe da burguesia e construir um modelo de escola que esteja subordinado a emancipação humana, e não a reprodução da lógica do lucro.

A UJC aponta em suas teses que a militarização de escolas, no contexto nacional aliado a outras medidas como o Novo Ensino Médio e o próprio Arcabouço Fiscal, fazem parte de um conjunto de ações que compõem um único programa político da burguesia: o programa neoliberal. Ainda reforça que esse modelo de gestão escolar tem, como um de seus objetivos, impedir a organização estudantil por meio dos grêmios para lutar contra esse mesmo programa.

A expansão das escolas cívico-militares, em Maracanaú, portanto, não é uma resposta aos problemas da educação pública, mas uma expressão dos interesses da burguesia local em moldar a formação da juventude segundo os valores da disciplina, da obediência e da submissão à ordem estabelecida, em oposição a uma educação verdadeiramente voltada aos interesses da classe trabalhadora.