"Não negociamos a vida dos nossos filhos”: Após mobilização indígena, uma das privatizações em curso é derrotada

Após a experiência vitoriosa, movimentos indígenas convidam toda a sociedade a se manter vigilante na proteção dos territórios.

27 de Fevereiro de 2026 às 15h00

A militância local do PCBR esteve durante os dias de ocupação somando forças e estreitando laços com os movimentos indígenas. Reprodução/Foto: Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA).

Após 33 dias de ocupação dos movimentos indígenas e sociais às portas da Cargill, gigante do agronegócio estadunidense, o decreto n° 12.600/2025, que previa a privatização dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, foi revogado.

A medida, assinada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 24 de fevereiro, ocorreu após reunião, um dia antes, entre representantes do governo como o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos (PSOL), e a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara (PSOL), em negociação com uma comitiva enviada a Brasília de líderes do movimento.

Anteriormente ao decreto, o clima era de tensão. Além de descumprir a promessa de consulta prévia às populações dos rios, ocorrida tanto em meio ao cumprimento do decreto em agosto de 2025, quanto na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o governo federal respondia com silêncio às reivindicações, enviando representantes para falsear um diálogo e frear a mobilização.

Além disso, na semana da revogação, a Justiça Federal emitiu ordem de desocupação do porto, com um avião da Força Nacional pousando no aeroporto de Santarém sem esclarecimentos.

Nem mesmo a suspensão do edital de cumprimento da dragagem do Rio Tapajós, ocorrida em 22 de fevereiro, foi diretamente informada aos ocupantes, que tiveram conhecimento através das redes sociais. Até hoje o presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não deu qualquer declaração sobre a ocupação.

Depois da decisão o momento foi de celebração. Com muita emoção, os suraras (termo do Nheengatu para guerreiros/guerreiras) entoavam cantos de guerra e ritos de agradecimento aos encantados pelo resultado do esforço coletivo.

“Essa força, essa coragem, dessa juventude, dessas mulheres, dessas crianças, dos coordenadores (…) Vem do rio. Vem dele. Eles não sabem, mas nós sabemos", afirmou na ocasião Alessandra Korap, uma das principais lideranças.

Resiliência e Estratégia

Ao longo dos 33 dias os ocupantes demonstraram alto nível de articulação. O movimento composto principalmente pelos povos do baixo Tapajós (Tapajó, Tupaiu, Tapuia, Munduruku, Munduruku-Cara Preta, Maytapu, Tupinambá, Arapium, Arara Vermelha, Jaraqui, Apiaká, Kumaruara e Borari) e coordenados pelo CITA (Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns), com o apoio de organizações como a militância local do PCBR, realizaram espaços de formação e expressão cultural.

Com medidas que foram desde reuniões à ações diretas como a ocupação dos prédios portuários, ocupação de barcaças no rio Tapajós e atos na sede da Cargill em São Paulo (SP), os movimentos demonstraram força e qualidade estratégica contra os agentes neoliberais do agronegócio brasileiro em uma conjuntura de sucessivas privatizações e retirada de direitos.

Apoio e cobertura partidária

A militância do PCBR somou forças na mobilização presencialmente junto aos ocupantes e com a publicação de um boletim diário que somou 22 edições, composto por informações de rápido acesso à militâcia e qualquer leitor do veículo “Em Defesa do Comunismo”, ação aos moldes do importante trabalho feito com o Boletim “Tempestade Al-Aqsa”, que aborda o Apartheid Palestino.

Em vídeo publicado no perfil de instagram do PCBR em Tapajós (@pcbr_tapajos), o militante local Maurício, que se encontrava na festa indígena, afirmou: “Revogar esse decreto é só o primeiro passo, nós temos que avançar, rumo a uma transformação radical da sociedade.”

Movimento que não fecha os olhos

Mesmo com a aguardada decisão, atos marcados pelo Brasil foram mantidos em cidades como Belém, Manaus, Brasília, Porto Velho e São Paulo.

“Mostramos que não negociamos a vida dos nossos filhos, o nosso rio Tapajós é a vida dos nossos filhos…Não vamos recuar, sempre vamos estar nessa luta”, declarou uma surara, não identificada, que também relembrou a derrota do movimento na construção do porto em cemitério indígena e sítio arqueológico.

“Nós continuamos em vigilância (...) porque a gente continua principalmente com o (rios) Madeira e Tocantins muito ameaçados, também está sob ameaça de explosão o Pedral do Lourenço no Tocantins”, declarou em um dos atos marcados para o dia 24 de fevereiro, Auricelia Arapiun, liderança que esteve nas reuniões em Brasília.

A liderança menciona o caso do Pedral do Lourenço. Mesmo com a derrubada do decreto de privatização, a hidrovia do Rio Tocantins segue ameaçada, devido à um processo de dragagem do Rio e remoção do Pedral do Lourenço. Após o IBAMA conceder a licença para a dragagem em maio de 2025, o Ministério Público Federal solicitou à Justiça Federal a suspensão da obra, alegando riscos ambientais e impactos às comunidades de pescadores. Segundo o governo Federal, a dragagem e o derrocamento do Pedral do Lourenço poderiam permitir o transporte de mais de 20 milhões de toneladas de grãos por ano - cerca de 500 mil caminhões - reduzindo custos logísticos em até 30% e beneficiando especialmente a região agrícola do MATOPIBA (MA, TO, PI, BA)

Auricelia Arapiun aproveitou a ocasião também para agradecer o apoio recebido durante os dias de ocupação e garantiu que a mobilização deve avançar na proteção dos territórios.

Após uma noite de celebrações, os movimentos iniciaram o processo de desocupação com alianças fortalecidas, experiências acumuladas e a certeza de que mais ações devem vir, pois o capital somente recua com a luta coletiva.