Trabalhadores brasileiros preferem a CLT, aponta pesquisa
Pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforça uma tendência persistente no mercado de trabalho brasileiro: a preferência pela estabilidade e pelos direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Reprodução/Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles.
Por João Oliveira
Uma nova pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforça uma tendência persistente no mercado de trabalho brasileiro: a preferência pela estabilidade e pelos direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Segundo o levantamento, 36,3% das trabalhadoras e dos trabalhadores que buscaram emprego recentemente apontaram a contratação com carteira assinada, regida pela CLT, como a opção mais atrativa, à frente de modalidades como trabalho autônomo, informal ou contratação como pessoa jurídica (PJ).
O dado ganha ainda mais relevância quando comparado com outras formas de inserção no mercado de trabalho: o trabalho autônomo aparece com 18,7% de preferência, enquanto o emprego informal soma apenas 12,3% e o regime PJ tendo um dos menores índices, com 6,6%.
Apesar da crescente propaganda em torno da “flexibilização” e do empreendedorismo individual, a pesquisa evidencia que a maioria das trabalhadoras e dos trabalhadores valoriza elementos como estabilidade, acesso a direitos trabalhistas e proteção social, fatores associados principalmente ao regime da CLT.
Esse cenário não é isolado. Levantamentos anteriores já indicavam uma preferência ainda mais ampla: em 2025, uma pesquisa do DataFolha mostrou que 67% das trabalhadoras e dos trabalhadores optariam pelo emprego com carteira assinada, mesmo com remuneração menor.
Preferência pela CLT convive com alta informalidade
Os dados revelam uma contradição estrutural do mercado de trabalho brasileiro. Enquanto a maioria das trabalhadoras e dos trabalhadores expressa preferência pelo vínculo formal, milhões seguem submetidos a formas precárias de contratação.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país ainda conta com mais de 32 milhões de trabalhadoras e trabalhadores em situação de informalidade ou sem carteira assinada, o que representa cerca de 31,7% da população ocupada. Ao mesmo tempo, ainda com dados do IBGE, o número de trabalhadoras e trabalhadores com carteira assinada atingiu um recorde histórico recente, ultrapassando 39 milhões de pessoas no setor privado.
Essa coexistência entre a expansão do emprego formal e a manutenção de um enorme contingente de trabalhadoras e trabalhadores informais evidencia os limites do atual modelo, marcado pela fragmentação das formas de contratação no mercado de trabalho brasileiro.
Pejotização e novas formas precárias
Nos últimos anos, avançaram modalidades como a pejotização, o trabalho por aplicativos, os contratos intermitentes, estágios precarizados e bolsas sem direitos trabalhistas plenos.
Embora apresentadas como alternativas modernas, essas formas de contratação frequentemente significam a retirada de direitos históricos e a transferência de riscos à trabalhadora e ao trabalhador.
Os próprios dados da CNI mostram que essas modalidades não são as preferidas da maioria do povo trabalhador brasileiro, revelando que sua expansão não responde a uma escolha livre das trabalhadoras e dos trabalhadores, mas sim às condições impostas pelo mercado de trabalho no Brasil.
Nesse cenário de avanço da pejotização, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, proferiu uma decisão suspendendo todos os processos que tratam da contratação de trabalhadoras e trabalhadores na modalidade PJ, conforme noticiado em O Futuro.
Ademais, Gilmar Mendes é sócio do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), uma faculdade patrocinada por grandes grupos empresariais como a JBS, além de ter um histórico de votos contrários aos direitos trabalhistas, como no Tema 1022, quando se posicionou favoravelmente à dispensa imotivada de empregados públicos em empresas estatais.
Unificação sob a CLT: proposta em debate
Diante desse cenário, organizações políticas como o Partido Comunista Brasieiro Revolucionário (PCBR) defendem a unificação de todas as formas de contratação no setor privado sob o regime da CLT.
A proposta inclui a incorporação de trabalhadoras e trabalhadores hoje enquadrados como PJs, intermitentes, estagiários e bolsistas ao regime formal, garantindo direitos trabalhistas integrais.
A defesa dessa medida se ancora justamente no diagnóstico apontado pelas pesquisas: a classe trabalhadora brasileira não apenas reconhece a importância da proteção social, como a reivindica concretamente.
A unificação das formas de contratação aparece, nesse sentido, como uma resposta à fragmentação do mercado de trabalho e à precarização crescente, buscando estabelecer um patamar mínimo universal de direitos.
Entre a preferência e a realidade
Os dados recentes reforçam uma conclusão central: há um descompasso entre o que as trabalhadoras e os trabalhadores desejam e o que o mercado de trabalho brasileiro oferece.
Enquanto a maioria prefere empregos com direitos garantidos - como 13º salário, férias, proteção social, entre outros -, uma parcela significativa segue empurrada para vínculos instáveis e desprotegidos.
Nesse contexto, o debate sobre o futuro do trabalho no Brasil tende a se intensificar, colocando no centro a disputa entre a ampliação de direitos e a continuidade da precarização das relações de trabalho.