Venezuela: da conciliação de classes para subordinação direta aos EUA

Desde antes da ofensiva estadunidense em janeiro de 2026, o PSUV, partido de Maduro, vinha adotando medidas antioperárias e antipopulares.

12 de Abril de 2026 às 15h00

Por Filgueira

A agressão militar dos EUA na Venezuela em 3 de janeiro culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores, intensificando a pressão que os EUA exerciam sobre a Venezuela com sanções econômicas e sequestro de ativos e contas no exterior. Uma das primeiras medidas adotadas pela gestão de Delcy Rodríguez, atual presidente e vice de Nicolás Maduro, foi a privatização do setor petrolífero venezuelano, alterando a “Lei dos Hidrocarbonetos”, permitindo maior controle privado sobre a produção e venda de petróleo venezuelano e deixando que tribunais independentes e internacionais, alheios ao Judiciário nacional, resolvessem os litígios.

A decisão de Rodriguez contou com participação massiva dos sindicatos ligados ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), partido de Maduro, de Delcy Rodríguez e do falecido Hugo Chávez, que realizaram uma grande marcha em apoio à alteração. Em 1990, Chávez expropriou ativos estrangeiros da PDVSA (petrolífera estatal venezuelana) e em 2006 exigiu que a estatal fosse a principal sócia em todos os projetos de petróleo e financiamentos energéticos.

Com o domínio estrangeiro sobre o petróleo venezuelano, a Venezuela enviou, recentemente, carregamento de petróleo à Israel e suspendeu o envio de petróleo para Cuba, seu aliado histórico, além de diminuir o envio de petróleo à China, sua principal parceira comercial. Com a guerra no Irã, os EUA foram obrigados a colocar no mercado mais de 100 milhões de barris de petróleo, o que pode reduzir sua reserva estratégica para menos da metade, e parece contar com a Venezuela — país com maior reserva de petróleo no mundo — para suprir o montante utilizado para consumo interno e manutenção da guerra.

Antes da ofensiva dos EUA na Venezuela nos primeiros dias de 2026, o PSUV já vinha tendo uma guinada à direita sob o pretexto falso de um problema real: os bloqueios econômicos.

A gestão de quase 13 anos de Maduro e mais de 27 anos do PSUV foi alvo de escândalos de corrupção envolvendo as principais empresas estatais do país, incluindo a PDVSA, e nomes importantes do gabinete presidencial e ministérios. Enquanto o povo venezuelano sofre com arrochos salariais e crise aguda na indústria de transformação, sobretudo alimentícia e de remédios, ainda sob a “ressaca” da grande crise mundial capitalista de 2008, o alto escalão governamental alinhado à burguesia nacional participava de um esquema que implodiu no primeiro mandato de Maduro, em 2014. Mas, diferentemente da retórica do reformismo, os laços com o imperialismo estadunidense já vinham se desenvolvendo: em setembro de 2025, o jornal Tribuna Popular (Órgão do Comitê Central do Partido Comunista da Venezuela) já havia denunciado os acordos secretos entre a cúpula do governo e a multinacional petroleira Chevron, para retomar as operações no país.

Como resposta, Maduro enrijeceu as liberdades democráticas e cassou diversos partidos e organizações que denunciaram os esquemas de corrupção, afirmando serem forças antirrevolucionárias que estariam a serviço do imperialismo. A retórica de Maduro incluiu abafar os escândalos afirmando que os casos seriam resolvidos internamente no seio do partido e que legitimar o discurso de corrupção criaria margem para que os EUA enfraquecessem a Venezuela e tomassem o país.

Dentre os opositores perseguidos, encontra-se o Partido Comunista da Venezuela (PCV) que, além de denunciar a decadência do governo Maduro com os escândalos de corrupção, elevou a crítica e denunciou a manutenção de uma burguesia interna que, mesmo no governo de Chávez, conseguiu exercer influência política e econômica às custas do povo venezuelano. Nos anos seguintes, denunciaram a lisura das eleições e a perda de direitos do povo venezuelano sob o pretexto de “enfraquecimento da economia venezuelana”.

As políticas antipovo do PSUV, mesmo antes da investida estadunidense, como a “reforma trabalhista” que abriu brecha para perseguição de trabalhadores que lutavam por melhores condições de trabalho e salário; e queda nos investimentos sociais no que tange saúde, alimentação, moradia e previdência, condenaram milhões de famílias à pobreza e desencadearam um êxodo em massa de venezuelanos. As sanções penais impostas pelo imperialismo — condenada veementemente pelos comunistas — foram utilizadas como pretexto para a corrupção administrativa, saque dos recursos da nação e a perseguição política de todas as forças que se opuseram às “políticas antioperárias e antipopulares”, incluindo um processo criminal fraudulento contra o Secretário de Relações Internacionais do PCV, Hector Rodríguez.

Por expor o alinhamento à burguesia do governo Maduro, o PSUV lançou uma perseguição brutal ao Partido Comunista da Venezuela, sequestrando e prendendo membros e lideranças políticas e impedindo candidaturas pelo PCV. Na última eleição venezuelana, em 2024, o PSUV, em conluio com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), sequestraram a legenda do PCV afirmando um suposto apoio do partido à reeleição de Maduro quando, na verdade, foram impedidos de apoiar o candidato à presidência Enrique Márquez, preso por tentativa de golpe de Estado.

Tentando conciliar a manutenção do poder do PSUV e os interesses da burguesia venezuelana, Maduro permitiu que a burguesia estivesse numa posição de poder capaz de intervir politicamente na Venezuela, seja tentando golpes institucionais (como o “autoproclamado presidente da Venezuela” Juan Guaidó), seja apoiando intervenções militares criminosas como o de 3 de janeiro de 2026; em ambos os casos, são os trabalhadores venezuelanos que ficam a mercê do jogo político burguês e são os primeiros que sofrem os impactos políticos e econômicos do capitalismo em crise.

A consequência disso está se provando na prática: Delcy Rodríguez tem publicamente feito diversos acenos e agradecimentos a Donald Trump, elogiando a nova colaboração e retomada das relações diplomáticas entre os países. A retórica anti-imperialista do período Chávez dá lugar a uma completa subordinação ao imperialismo estadunidense.

A guinada à direita do PSUV na Venezuela mostra que os interesses da burguesia são inconciliáveis com as necessidades da classe trabalhadora. As intervenções imperialistas na Venezuela são fruto da tentativa da burguesia internacional em retomar sua hegemonia nos países da América Latina e Caribe, contando com o apoio de suas sócias menores: a burguesia nacional e os governos “progressistas” que não buscam romper efetivamente com estes setores.