Greve de professores em BH escancara austeridade como projeto estrutural de precarização

Em greve durante todo mês de maio, trabalhadores da educação da rede municipal da terceira capital mais rica do país enfrentam a engrenagem de austeridade fiscal que, em todo o país, transfere recursos do serviço público para a iniciativa privada.

30 de Maio de 2026 às 21h00

Trabalhadores da educação votam pela continuidade da greve em assembleia o dia 26 de Maio, em frente à Prefeitura de Belo Horizonte. Foto: Jornal O Futuro

Por Alessandro Lima

Durante o mês de maio as salas de aula da rede municipal de Belo Horizonte estiveram vazias. Desde o dia 27 de abril, os profissionais concursados da educação, organizados pelo Sind-REDE, foram a vanguarda na construção de uma greve. O movimento, que já se estende por semanas e foi reafirmado em assembleias, denuncia uma crise que vai muito além da questão salarial, mas é expressão local e concreta de uma engrenagem de austeridade fiscal que, em todo o país, transfere recursos do serviço público para a iniciativa privada e precariza as condições de trabalho em geral.

Dentre as reivindicações da categoria estão o agravamento das más condições nas escolas, com cortes de recursos, ausência de quadro suficiente de profissionais, terceirizações e entrega atividades pedagógicas para Organizações da Sociedade Civil (OSCs), além da defasagem salarial. A administração municipal, refratária ao diálogo, respondeu às demandas com o que a categoria classifica como o simples silêncio e manobras para desmobilizar a luta. Enquanto isso, impõe uma portaria que estabelece uma jornada exaustiva para os professores da educação infantil, com meros 15 minutos de pausa, retirando o planejamento pedagógico do convívio coletivo da escola.

Belo Horizonte não é uma cidade pobre. Com um orçamento de R$20 bilhões, figura como a terceira capital mais rica do país. A administração municipal, contudo, insiste em justificar cortes e propostas salariais rebaixadas com o discurso do limite orçamentário. Essa retórica não se sustenta. Em 2023, a prefeitura fechou as contas com um superávit de R$ 204 milhões e quase R$1bilhão em caixa. Mesmo com as receitas crescendo 14% — bem acima da inflação de 4,62% —, a gestão municipal optou por destinar à valorização dos servidores um índice de gasto com pessoal de apenas 41% da Receita Corrente Líquida, muito aquém do limite de 54% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Essa política de compressão de salários e de desinvestimento nos serviços públicos é o desdobramento, na esfera municipal, das reformas da previdência, trabalhista e da lei das terceirizações que, nos últimos anos, forneceram o arcabouço jurídico para legitimar a precarização em todo o país.

O modelo de entrega das atribuições pedagógicas para OSCs, que o prefeito Álvaro Damião afirma que “veio para ficar”, opera sob um manto de opacidade. Denúncias do SindREDE apontam que tais contratos carecem de transparência na prestação de contas e podem servir como moeda de troca para beneficiar políticos ligados a essas entidades. A precarização se materializa na ponta. Para substituir profissionais de apoio, as OSCs utilizam um banco de talentos de mães e pais de crianças atípicas cadastradas para serem horistas. Esses trabalhadores, que chegam a quase 4,7 mil, recebem cerca de 1,5 salário mínimo para uma jornada de 44 horas semanais e, frequentemente, não possuem a formação específica exigida para lidar com as complexas demandas dos estudantes da educação especial. O resultado concreto desse processo é a consolidação de uma política de "desprofissionalização" do atendimento educacional, que substitui professores concursados por mão de obra precarizada e de baixo custo, aprofundando o desmonte da escola pública.

Em meio a atos e assembleias, o professor dos anos iniciais e membro do comando de greve Diego Miranda descreve um cenário de escassez que atinge o básico do cotidiano escolar. “Na minha escola faltou papel, toner, estava sem borracha até semana passada, coisas que são materiais de trabalho cotidiano que a gente precisa. Os uniformes atrasaram, parte dos alunos tem, outra parte não, e é um dever do município garantir isso”, relatou.

A fala ilustra uma das faces mais visíveis da política de cortes. O Sind-REDE aponta que as verbas de manutenção das escolas sofreram reduções drásticas, entre 25% e 50%, comprometendo o funcionamento básico das unidades. Contudo, a raiz do problema é mais profunda e está ligada a um modelo de gestão que, Miranda explica, desestrutura a carreira e a própria função social da escola. Ele cita a situação de colegas terceirizados como exemplo máximo da desorganização: “Alguns trabalhadores terceirizados de portaria e cantina não receberam o vale alimentação, vale transporte. [...] Na minha escola, a direção e a coordenação estavam tendo que ficar na portaria, porque o porteiro não recebeu vale transporte. Esse tipo de dinâmica afeta o funcionamento".

Essa lógica, que transforma a administração pública em um mosaico de contratos precários, é um dos carros-chefe da política municipal. A prefeitura de Álvaro Damião (União Brasil) não apenas mantém a terceirização como a aprofunda. Um dos pontos centrais do impasse é a transferência de uma atividade essencialmente pedagógica, o Atendimento Educacional Especializado (AEE) para estudantes com deficiência, para OSCs. Na prática, a Prefeitura de BH retira dos professores concursados uma atribuição que é sua por direito e formação, entregando-a a entidades privadas em um avançado processo de privatização indireta do ensino.

Seguindo a lógica vigente em todo o país, o arcabouço fiscal, aprovado para substituir o antigo teto de gastos de Temer, na realidade mantém e aprofunda a lógica da austeridade, comprimindo investimentos em áreas sociais estratégicas. Projeções indicam que a expansão do ensino integral pode perder R$42,3 bilhões nos próximos cinco anos, enquanto a execução orçamentária é manejada para inviabilizar o funcionamento contínuo das instituições, liberando recursos de forma asfixiante.

A luta da categoria expõe a contradição entre a necessidade de universalizar direitos e a prioridade política de remunerar o capital financeiro. Ao estrangular os orçamentos da educação, o Estado abre um flanco para que grupos privados ocupem o espaço dos serviços públicos, seja por meio de OSCs, como em BH, seja por outros mecanismos de privatização indireta.

Por isso, a greve em Belo Horizonte carrega um sentido que ultrapassa suas pautas específicas. A luta por papel, tinta, salários dignos e contra a jornada massacrante é a luta pela própria existência do serviço público. Se a política de austeridade estrangula os municípios, rompê-la exige a organização coletiva e direcionada. A generalização das lutas, conectando os profissionais da educação de BH aos demais servidores e trabalhadores do país que enfrentam a mesma lógica de cortes e privatizações, não é uma escolha tática, mas uma necessidade concreta para barrar o desmonte que transforma a Educação em mercadoria.