Agro ataca o Brasil em guerra química e informacional

Agricultura Empresarial mimetiza ataques químicos estrangeiros sobre Agricultura Familiar nacional enquanto envenena a população e destrói a educação.

30 de Abril de 2026 às 15h00

Trabalhador agrícola enche o tanque de um drone com spray de pesticida em Goiás. Reprodução/Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images.

Por Guilherme Soares

Durante a operação estadunidense Ranch Hand sobre o Vietnã, 1962, 72 milhões de litros de pesticida foram derrubados sobre as florestas vietnamitas, acabando com 20% das matas nativas. O agente laranja contaminado com dioxina, produzido pela estadunidense Monsanto, deixou estimados 3 milhões de pessoas afetadas pela operação e com severos problemas de saúde.

O glifosato, propriedade também da Monsanto, atualmente dominada pela Bayer, classificado pela Organização Mundial da Saúde como potencialmente cancerígeno e objeto de mais de 160 mil processos movidos por vítimas de câncer nos EUA, tem sido utilizado, como denuncia o governo do Líbano, por Israel como arma química em fevereiro de 2026, em uma quantidade entre 20 e 30 vezes acima do permitido em normas internacionais. O veneno já é considerado uma questão de segurança nacional pelo governo Trump desde 18 de fevereiro de 2026, o que torna o acesso e produção uma questão militar no país e garante continuidade do uso. Israel já vinha realizando ataques similares na fronteira de Gaza desde 2018, pulverizando plantações em território palestino, dizimando-as.

No Brasil, são observados ataques paralelos perpetrados pelo Agro, como é chamada a agricultura empresarial, sobre pequenos proprietários da agricultura familiar. Mais de 17 mil famílias brasileiras, dentre elas quilombolas, camponeses, assentados da reforma agrária e indígenas, foram alvo de pulverização de venenos por aviões, drones e até manualmente em 2024, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os relatos incluem incidentes em PA, PE, MG, MS e casos significativamente graves, como o da escola São José do Pontal, GO, que foi sobrevoada por um avião pulverizando o agrotóxico Engeo Pleno, da chinesa Syngenta, deixando 29 das 100 crianças internadas. Entre elas, várias permaneceram com sequelas e um aluno e o então diretor, hoje, sofrem de câncer.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do planeta, com 801 mil toneladas de pesticidas para uso agrícola, de acordo com os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Em 2025, o país registrou o maior número de intoxicações em dez anos, segundo dados do Ministério da Saúde. O equivalente a 27 brasileiros intoxicados com agrotóxicos por dia é representado em 25% por crianças e bebês de 1 a 4 anos. O número assusta, apesar da alta taxa de subnotificação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima uma média mundial de 50 casos não notificados para cada evento registrado. Ainda em 2025, tivemos 914 novos registros de agrotóxicos pelo governo, com recorde de aprovação e comercialização de pesticidas.

O Brasil é o país que mais utiliza glifosato em todo o mundo. Veneno que teve um grande estudo de referência, de 1999, concluindo sua segurança retratado pela revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology em dezembro do ano passado, 25 anos após a publicação. A Bayer, empresa que produz o agrotóxico, já teve que pagar mais de US$ 11 bilhões para encerrar em torno de 100 mil processos nos EUA, enquanto isso, a empresa é alvo de apenas 6 ações judiciais no Brasil, onde o veneno é o mais utilizado, o que demonstra a imensa barreira que os trabalhadores afetados enfrentam para conseguir justiça no país.

Segundo dados da própria Associação Brasileira das Indústrias de Milho (Abimilho), 88 milhões de toneladas de milho foram produzidas no Brasil durante a safra 2020/2021. Delas, apenas 2 milhões foram diretamente para o consumo humano, 55 milhões viraram ração animal e 22 milhões foram exportadas. Se considerarmos as 75,3 milhões de toneladas de milho consumidas internamente em 2022/23, 62,8 milhões de toneladas (83,4%) foram destinados à produção de rações. Conforme registros da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de soja em 2020 foi de 135 milhões de toneladas. De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações) e o ComexStat, 17 milhões viraram ração, ao passo que outras 82 milhões de toneladas foram exportadas. Já entre os 56,8 milhões de toneladas de soja consumidas internamente em 2022/23, 24,1 milhões de toneladas (42,4%) tornaram-se rações. Observando as maiores culturas vegetais produzidas pelo Agro no país, percebe-se que a maior parte dos agrotóxicos é utilizada para produção de ração para a pecuária, não para alimentação humana.

Contudo, ao contrário do disseminado no senso comum, os venenos não estão presentes apenas nos vegetais in natura, mas também em grandes quantidades em produtos da pecuária e ultraprocessados. A pesquisa Tem Veneno Nesse Pacote - ultraprocessados de origem animal realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) encontrou agrotóxicos em 58% das amostras testadas de produtos que os brasileiros mais consomem (14 dos 24). O glifosato e seu metabólito AMPA foram os que mais apareceram nas amostras, cada um deles em nove dos 24 produtos avaliados. Em três categorias de produtos de carne - como empanado de frango, hambúrguer de carne bovina e salsicha - todos os produtos analisados apresentaram resíduos de agrotóxicos.

Isso sem mencionar a presença dos agrotóxicos na água consumida pela população, uma vez que no site do próprio governo brasileiro encontra-se que não são estabelecidos limites máximos de resíduos (LMR) para exposição pela pele e ingestão de alimentos como água potável, carnes, leite e ovos. Soma-se a isso o fato de agrotóxicos em água, leite, ovos ou carnes não serem monitorados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Apenas atrás de São Paulo, o Paraná é o segundo estado brasileiro com maior nível de contaminação de sua água por agrotóxicos.

Além da presença na água que bebemos e até na água da chuva, como demonstrou um estudo do Instituto de Química da Unicamp, os venenos agrícolas também são constatados em níveis consideráveis no ar de áreas rurais. Algumas das substâncias encontradas pelo Instituto de Química da USP foram a atrazina (proibida na UE há mais de 20 anos) e o heptacloro (proibido há décadas no Brasil), que foi encontrado em todos os locais testados. Dessa forma, o coquetel de venenos encontrados em algumas regiões rurais torna o ar ainda mais tóxico que o ar de centros urbanos.

O lobby dos agrotóxicos não age apenas através do Instituto Pensar Agro, dentro da bancada ruralista, ou grupos como a ABIEC, mas também através dos materiais didáticos. O professor da USP Daniel Cara denuncia a pressão empresarial nas editorias responsáveis por livros didáticos para diminuir a gravidade da destruição imposta pelo Agro. Os trabalhadores do mercado editorial sofrem pressão para omitir conteúdo verdadeiro, utilizar eufemismos - como defensivos agrícolas - e suprimir fatos relacionados a queimadas, desmatamento, mudanças climáticas, conflitos agrários e escravidão contemporânea. Depoimentos citam a Somos Educação, FTD, Poliedro e Santillana. A pressão tem sido encabeçada pela Donme (De Olho No Material Escolar), instituição financiada por grandes empresas e empresários do Agro brasileiro. Além de parcerias com órgãos públicos e ações junto a parlamentares, a ONG promove visitas de estudantes e fazendas modelo. Na mesma linha do movimento Escola Sem Partido, a associação produz eventos e relatórios desqualificando livros didáticos que não seguem a linha imposta por ela.

Portanto, nota-se a clara destruição que a Agricultura Empresarial deflagra sobre a população e o território brasileiro. Enquanto investe em uma guerra química contra a Agricultura Familiar e distorce a educação dos jovens e adultos, deixa uma trilha de corpos trabalhadores afetados profundamente pelo setor e sem perspectiva de justiça.