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  • Boiler Room é comprada por gigante sionista que financia o genocídio do povo palestino

    O BDS apontou que festas como a Boiler Room, Flow Festival, Mighty Hoopla e Lost Village, são igualmente vítimas e que os protestos populares autônomos por seus músicos, DJs, produtores e público são legítimos.

    31 de Março de 2025 às 15h00

    Boiler Room em Ramallah, Palestina. Reprodução/Foto: Scene Noise.

    Por Mateus Filgueira

    A festa Boiler Room nasceu em 2010, em Londres. O projeto convida DJs e artistas não mainstream, independentes e undergrounds para tocarem em “festas surpresas e inesperadas” em diversas cidades pelo mundo. Os sets são disponibilizados em plataforma de áudio e vídeo ao vivo e seguem disponibilizados para consumo posterior. A ideia do projeto é ser uma vitrine para impulsionar carreiras e dar visibilidade a artistas nichados, conectando artistas e consumidores de música em todo o globo.

    Hoje, com 15 anos de existência, a Boiler Room também convida artistas com mais visibilidade, mas que possuem origens na cena underground e/ou que possuem sua arte com raízes culturais locais e de povos oprimidos. Apesar de ter nascido visando a música experimental, house, techno e eletrônica, a Boiler Room convidam artistas locais que trazem em seus repertórios referências culturais do país/cidade onde a festa ocorre, um exemplo foi a festa em Belém do Pará, em 2024, onde foi convidado a cantora Leona Vingativa e diversos DJs de tecnobrega, tecnomelody, aparelhagem e outras referências nortistas. A Boiler Room garante aos seus convidados plena liberdade artística, direito de expressão e posicionamentos políticos.

    Reprodução/Foto: Boiler Room (Site).

    Em fevereiro de 2025, a Boiler Room realizou a Boiler Room x Ballantine's True Music Studios: São Paulo”, convidando funkeiros e rappers como Caio Prince, DJ Dayeh, Mu540, Kenan e Kel, Kyan e tantos outros; MC Tha, um nome do mpb e da música umbandista; além de artistas underground como Jup do Bairro para expressarem a arte e musicalidade preta, travesti e periférica de São Paulo. A Boiler já realizou evento no Vietnã na Cidade Ho Chi Minh; e dá visibilidade para artistas indígenas como Soju Gang, na “Boiler Room: Sydney”. Não importa o país e o estilo, a Boiler se compromete em dar espaço, voz e estrutura à artistas de minorias oprimidas pelo mundo.

    Em 2018, já com certo renome, a Boiler Room anunciou a festa em Ramallah, na Palestina. No chamado, a Boiler apontou que era o momento de “voltar nossos olhos para um grupo de jovens que usam a arte como uma plataforma de expressão”, convidando o beatmaker Muqata'a, o coletivo de cultura e arte Jazar Crew, os rappers Al Nather e Julmud, o MC/produtor/DJ Dakn, o cantor e produtor Makimakkuk, o DJ ODDZ e a “rainha do techno” DJ de Ramallah, Sama’.

    Além dos sets, a Boiler produziu o “Palestine Underground”, onde documenta a resiliência da cena musical palestina e a resistência do coletivo Jazar Crew frente a cena noturna israelenses em Haifa. “Palestine Underground” acompanha uma semana na vida dos artistas convidados para tocar na Boiler Room na véspera do evento em Ramallah.

    Reprodução/Foto: Boiler Room (Youtube).

    A playlist da festa é uma das mais acessadas até hoje no canal do YouTube da Boiler Room. Para celebração dos 10 milhões de views no set da multiartista e ativista palestina Sama’ Abdulhadi, em 2022, a Boiler Room lançou uma camisa assinada por Mukta-feen e com lucros destinados ao Centro Cultural Khalil Sakakini, uma organização palestina que trabalha na pesquisa e produção cultural e artística em Ramallah.

    Reprodução/Foto: Boiler Room (Facebook).

    O apoio à Palestina e a artistas árabes não foi pontual. Há cinco anos, a Boiler convidou o músico sírio Omar Souleyman para tocar no Festival Kosos Chemnitz.  Em 2022, a Boiler realizou, em Londres, a festa “Boiler Room London: Middle of Nowhere” que contou com o set da DJ e produtora libanesa Saliah (Saal-Ya) e da DJ saudita Nooriyah que convidou seu pai a abrir seu set tocando Oud, um alaúde tradicional do Oriente Médio. Em dezembro de 2024, na “Boiler Room: DC”, o cantor palestino Saint Levant tocou suas músicas e outras junto ao seu pai, também DJ e produtor.

    Como os eventos são gratuitos ao público, o que inviabiliza o retorno financeiro, no começo do projeto os artistas faziam “trocas” com a Boiler que pagava hospedagem, passagem e estrutura para o artista tocar gratuitamente. Com o crescimento do projeto, a Boiler sentiu-se na necessidade de pagar cachê aos artistas que tocam nas festas. Hoje opera com um valor fixo universal a ser pago independente do tamanho do artista, para isso, a Boiler Room precisou criar meios de se autofinanciar e além de patrocinadores, investidores e merchandising, por vezes, a depender do evento, dispõe de uma pequena quantia de ingressos a serem adquiridos por meio de pagamento eletrônico. Em 2021 a Boiler Room foi adquirida pela DICE que renovou o grupo de investidores e criou um novo conselho diretor.

    Em 06 de março de 2025, em post no Instagram, a Boiler Room anunciou sua colaboração ao FC Palestina (time de futebol da Palestina), onde todo o lucro na venda seria revertido “ao povo de Gaza neste Ramadan”. Na legenda do post, a Boiler se posicionou: “Por muitos anos, a Boiler Room tem demonstrado solidariedade com os palestinos que vivem sob ocupação, por meio de projetos editoriais dedicados e da arrecadação de fundos para apoiar causas essenciais. A luta dos palestinos está conectada às lutas dos povos indígenas e oprimidos ao redor do mundo. A Boiler Room se junta às milhões de vozes que clamam por uma Palestina livre e pela libertação coletiva.”

    Reprodução/Foto: Boiler Room (Instagram).

    Antes disso, em janeiro de 2025, uma denúncia feita pelo “Toronto Writers Against the War on Gaza”, “Ravers for Palestine” e “DJs Against Apartheid” expuseram a então compradora da Boiler. Na denúncia os ativistas apontam que a “Superstruct Entertainment” faz parte da empresa KKR, uma multinacional que financia projetos bélicos para o genocídio na Palestina e atua diretamente no projeto colonialista de Israel.

    “A KKR está envolvida na venda de terras palestinas por meio da Axel Springer, uma empresa alemã que promove os assentamentos ilegais de Israel na Cisjordânia. A KKR investe na empresa israelense de software imobiliário Guesty, que aluga propriedades em terras ocupadas, e na Global Technical Realty, atualmente construindo uma instalação subterrânea de dados de US$ 10,5 milhões e investindo em análises de dados de consumidores por meio da empresa israelense Clicktale”.

    Reprodução/Foto: Writers Against the War on Gaza - Toronto (Instagram).

    O grupo de ativistas conclamou boicote às festas promovidas pela Boiler Room e convidou o BDS a promover o boicote e desinvestimento aos eventos promovidos pela Superstruct.

    No dia 24 de março de 2025, em nota no Instagram e em seu site a Boiler Room confirmou que a DICE (empresa que detinha 100% dos direitos sobre a marca) vendeu a Boiler Room para a Superstruct, e que os investimentos da KKR não refletem aos valores da Boiler. Na nota, apontou que os trabalhadores da Boiler não tiveram qualquer poder de voto ou consultivo para a decisão da DICE e afirmou que possui independência editorial para continuar apoiando a Palestina e outros povos oprimidos, e que isso nunca mudará.

    “A Boiler Room passou por várias mudanças de controle, investidores, conselho e propriedade, e por meio disso nosso compromisso com a independência editorial nunca vacilou. Nenhum investidor, passado ou presente, jamais influenciou nossa produção, isso nunca mudará. Sempre permaneceremos assumidamente pró-Palestina

    Sempre permaneceremos inabalavelmente pró-Palestina. Continuamos a aderir às diretrizes do BDS e do PACBI em relação à programação de artistas e parcerias com marcas, além de nos engajarmos com artistas e organizadores palestinos para formalizar nossas políticas internas de acordo com esse compromisso. Defendemos o direito internacional e os direitos humanos para todos, independentemente da identidade”

    Reprodução/Foto: Boiler Room (Instagram).

    Na mesma nota, a Boiler Room anunciou seu apoio à Campanha Palestina pelo Boicote Acadêmico e Cultural a Israel (PACBI) e ao Movimento BDS. Apesar da declaração, a camisa “Boiler Room x FC Palestina Football Jersey” não está mais disponível na loja online da marca. A Boiler não se pronunciou quanto a isso e nem quanto aos pedidos já realizados e pagos.

    A PACBI, fundadora do BDS, por sua vez, divulgou em seu site as boas-vindas a Boiler Room e endossando o boicote à Superstruct Entertainment e sua “empresa-mãe” KKR. O BDS apontou que festas como a Boiler Room, Flow Festival, Mighty Hoopla e Lost Village, são igualmente vítimas e que os protestos populares autônomos por seus músicos, DJs, produtores e público são legítimos.

    Esse movimento de boicote às investidoras culturais sionistas vem crescendo nos últimos anos. Em 2023 mais de cem artistas boicotaram o SXSW Music Festival em Austin, Texas, forçando o evento a abandonar suas parcerias; outra vitória do BDS foi o encerramento da parceria da Live Nation com a fabricante de armas sionistas Barclays. Na nota, o BDS compartilhou outras dezenas de casos em que artistas se recusaram a aderir ao “artwash” sionista.

    Ao mesmo tempo, a PACBI reconhece que artistas independentes, ou presos à gravadoras, bem como produtores menores (como a Boiler Room) requerem um olhar especial pois o boicote não pode atingir profissionais que estão reféns às decisões de seus investidores e patrões: “A estrutura corporativa do capital global faz com que essa questão seja quase inevitável em muitos contextos [...]. não rejeitaríamos o apoio de, por exemplo, um artista assinado com uma grande gravadora que, por sua vez, está indiretamente implicada no genocídio de Israel. Um dos princípios centrais do BDS é diferenciar entre cumplicidade voluntária e involuntária. A postura mais ética que um artista ou organização, que tem pouca ou nenhuma influência sobre seus vínculos indiretos de cumplicidade pode adotar é compensar essa cumplicidade involuntária respeitando as diretrizes do BDS e se manifestando pela libertação da Palestina e por nossos direitos estipulados pela ONU.”

    Com isso, o PACBI trouxe estratégias que consistem basicamente em não investir diretamente na KKR e Superstruct Entertainment e em eventos grandes realizados por essas empresas, além disso orientou que festas, artistas e produtores menores (como a Boiler Room) adote as diretrizes e posições do BDS, demarcando suas divergências políticas em relação a seus investidores e interaja com artistas que igualmente se manifestam contra agentes do sionismo.

    O que está acontecendo com a Boiler Room é um sintoma do imperialismo e do desenvolvimento capitalista. Fundado em 1948, o Estado colonialista de Israel com apenas 76 anos de existência, com apoio massivo dos EUA, União Europeia, Reino Unido e da burguesia árabe possui um número de empresas multinacionais e um enraizamento no oriente e ocidente muito maior que a Palestina, que seus primeiros mapas remontam o ano de 1475.

    Com o apoio das grandes potências imperialistas e da mídia burguesa, o lobby e propaganda sionista estão naturalizados no cotidiano de milhares de pessoas, sem que estes deem conta. Para além do colonialismo e avanço armado, a expansão cultural israelense, é também parte do sionismo que, por sua vez, é fruto do avanço imperialista; a disputa pela hegemonia da cultura burguesa entra em conflito direto com eventos e produções culturais que enaltecem a periferia e povos oprimidos.