Crise e risco de recessão se desenham a partir da guerra imperialista

Enquanto a população em geral enfrenta inflação, risco de escassez e até mesmo a morte, alguns poucos encontram espaço para ampliar seus ganhos.

4 de Junho de 2026 às 15h00

Lancha da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) patrulha o Estreito de Ormuz. Reprodução/Foto:/West Asia News Agency (WANA).

Com a agressão dos EUA e Israel contra o Irã e o consequente fechamento do Estreito de Ormuz, iniciou-se uma crise com impactos globais. O estreito concentra parcela decisiva do transporte mundial de petróleo e fertilizantes. Mesmo conflitos localizados produzem hoje efeitos que se espalham rapidamente pela economia mundial.

Antes da escalada militar, o barril de petróleo girava em torno de US$ 72. Após o início dos ataques, chegou a ultrapassar US$ 120. O preço divulgado diariamente refere-se principalmente ao mercado futuro de petróleo, altamente especulativo e baseado em expectativas sobre o comportamento da economia e da guerra nos meses seguintes.

Desde o início do conflito, a mídia e os grandes agentes financeiros vêm difundindo previsões alarmistas sobre risco de recessão global, inflação e desabastecimento. Nos EUA, a inflação acelerou e os combustíveis tiveram forte alta. O banco Goldman Sachs divulgou relatório indicando redução dos estoques globais de petróleo para níveis próximos de 100 dias da demanda mundial. Esses estoques incluem reservas estratégicas dos governos, petróleo armazenado por empresas e volumes mantidos em refinarias e transporte.

Países dependentes de importação de energia sofrem mais os impactos. Embora haja petróleo disponível, sua distribuição é desigual. As maiores reservas concentram-se sobretudo nos EUA e na China, colocando países mais dependentes de importações em situação vulnerável. A União Européia é uma das regiões mais afetadas, já que depende fortemente do petróleo externo e compete com outros países pelas fontes de energia disponíveis.

Na Europa, governos passaram a adotar medidas emergenciais para evitar desabastecimento e proteger estoques de energia para o inverno. A França mobilizou caminhões-tanque para garantir o abastecimento. A Grécia criou subsídios para combustíveis e a Itália restringiu o fornecimento de querosene em alguns aeroportos. Ao mesmo tempo, os custos adicionais com importações energéticas cresceram rapidamente.

O aumento dos preços também atinge fertilizantes, insumo agrícola que passa pela rota de Ormuz. Com isso, cresce o risco de encarecimento da produção de alimentos em escala global. Países mais pobres e dependentes das importações tendem a sofrer mais intensamente os efeitos da crise.

Ainda que o discurso sobre risco de recessão possa servir também como pressão política contra o Irã para forçar a reabertura do estreito, os efeitos econômicos do conflito são concretos e já atingem trabalhadores em todo o mundo. O aumento dos combustíveis encarece transportes, alimentos e toda a cadeia produtiva ligada ao petróleo, evidenciando os problemas de uma matriz energética ainda muito dependente de combustíveis fósseis.

A guerra também vem produzindo ganhos extraordinários para setores estratégicos do capitalismo internacional: Gigantes do petróleo como BP, Shell e TotalEnergies ampliaram fortemente seus lucros graças às oscilações do mercado de energia e às operações de trading. Grandes bancos de Wall Street, como JPMorgan Chase e Goldman Sachs, também registraram receitas recordes impulsionadas pela volatilidade financeira e pela corrida especulativa em torno do petróleo e dos ativos considerados seguros.

Além disso, empresas da indústria bélica, como Lockheed Martin e BAE Systems, passaram a se beneficiar do aumento dos gastos militares e da necessidade de reposição de estoques de armas pelos governos ocidentais. Enquanto trabalhadores enfrentam inflação, encarecimento dos combustíveis e insegurança econômica, setores do capital financeiro, energético e militar transformam a própria guerra em fonte de acumulação.

Os mercados de ações dos EUA, impulsionados pelos setores financeiro, tecnológico e energético, mesmo diante da guerra, chegaram a registrar altas. Isso revela como, no capitalismo contemporâneo, crises e conflitos não afetam igualmente todas as classes sociais. Enquanto trabalhadores arcam com inflação e perda do poder de compra, setores ligados às finanças, energia e indústria militar frequentemente conseguem ampliar seus ganhos.

No Brasil, os efeitos também já são percebidos. Apesar das tentativas do governo Lula de conter reajustes, o país permanece vulnerável às oscilações internacionais por depender da importação de derivados de petróleo e manter preços vinculados ao mercado global. Em um país fortemente dependente do transporte rodoviário, o aumento do diesel e da gasolina afeta diretamente alimentos, fretes e o custo de vida da população.

Essa vulnerabilidade também se relaciona às privatizações e à redução da capacidade estatal de refino nos últimos anos. A crise atual evidencia a contradição de um país produtor de petróleo que continua exposto à inflação energética internacional e às consequências das disputas geopolíticas conduzidas pelas grandes potências.