O governo Lula contra os trabalhadores: conciliação de classes e aprofundamento da precarização

Longe de representar os interesses históricos dos trabalhadores, a atual gestão se consolida como um governo da burguesia, comprometido com a manutenção dos lucros do grande capital e com a estabilidade de um regime que se sustenta sobre a exploração do trabalho.

28 de Abril de 2026 às 15h00

Manifestação em Brasília, realizada na Rodoviária do Plano Piloto, no dia 1° de maio de 2025. Foto: José Cruz/Agência Brasil.

O mês de maio é sempre iniciado com mobilizações e comemorações dos trabalhadores, com o Dia Internacional de Luta da Classe Trabalhadora, o 1º de Maio, sendo uma oportunidade para analisarmos nossa história, pretérita e presente, e tirar conclusões sobre os rumos da luta de classes no Brasil e no mundo.

O terceiro mandato de Lula confirma, de forma cada vez mais evidente, o caráter de classe de seu governo. Longe de representar os interesses históricos dos trabalhadores, a atual gestão se consolida como um governo da burguesia, comprometido com a manutenção dos lucros do grande capital e com a estabilidade de um regime que se sustenta sobre a exploração do trabalho. A retórica progressista, que ainda ecoa em setores da esquerda, serve apenas como cobertura ideológica para uma política que, na prática, preserva e aprofunda os ataques aos direitos trabalhistas.

A prova mais contundente dessa realidade é a completa capitulação do governo diante da reforma trabalhista de Michel Temer. A revogação, apresentada como compromisso de campanha, simplesmente desapareceu da agenda política. Ao contrário, o governo optou por normalizar a nova realidade de precarização, assumindo como dado aquilo que dizia combater, e inclusive escondendo que é com base nessa precarização que novos postos de trabalho estão sendo abertos no país. Trata-se de uma escolha consciente: não contrariar os interesses do empresariado, garantindo a continuidade de um modelo que amplia a superexploração da força de trabalho.

Os dados revelam a manutenção de todo o arcabouço estabelecido pela Reforma Trabalhista de 2017: dos 108 milhões de brasileiros com emprego, 38% são informais, ou seja, sem qualquer direito trabalhista. Se olharmos para os desempregados reais (ou seja, desempregados e “desalentados” – essa última categoria usada para mascarar o desemprego), temos 8,6 milhões de brasileiros que não encontram qualquer emprego. Mesmo entre 108 milhões de ocupados, temos 4,5 milhões de subocupados, trabalhadores que trabalham menos do que precisam para terem uma remuneração mínima para seu sustento. O dado que se esconde por trás das estatísticas é que temos uma população em idade e condições para o trabalho da ordem de 117 milhões, mas apenas metade goza de todos os direitos trabalhistas.

Em vez de revogar a Reforma de Temer, o governo aposta em medidas pontuais, cuidadosamente calibradas para não afetar os lucros do capital. As mudanças no vale-alimentação e no vale-refeição são exemplares nesse sentido. Ao extinguir a exclusividade das operadoras, o benefício se aproxima de uma forma de remuneração direta, circulando como dinheiro. No entanto, essa transformação não é acompanhada de seu reconhecimento como salário, para efeito do cálculo de férias, FGTS, 13º salário e aposentadoria. Na prática, o governo legitima uma forma de pagamento que substitui o salário sem garantir os direitos a ele associados. O resultado é claro: redução indireta da massa salarial e ampliação dos mecanismos de exploração.

A mesma lógica se expressa na questão da escala 6x1. Inicialmente rejeitada pelo ministro do Trabalho de Lula, Luiz Marinho, a pauta só ganhou espaço após intensa pressão dos trabalhadores. A posição original do governo era a de simplesmente rebaixar a grande luta política que tem movimentado o conjunto da classe trabalhadora a uma luta econômica de cada setor e categoria, através de cada sindicato, contra cada patrão, enfraquecendo o poder de barganha e negociação, assim como fragmentando a necessária unidade de classe nessa luta. Ainda assim, até agora o governo não assumiu qualquer compromisso efetivo com sua implementação. Sua adesão é hesitante, limitada ao discurso e condicionada a cálculos eleitorais. Não há enfrentamento com os setores empresariais que lucram com jornadas extenuantes; há apenas a tentativa de se posicionar ao lado de uma demanda popular quando ela já se impõe no cenário político. O próprio discurso de Lula em 30 de abril de 2025 falava não em impor a derrota dessa escala criminosa goela abaixo do grande capital, que é a posição que qualquer trabalhador sabe que é a única possível, mas de dialogar com as diferentes classes da sociedade.

Esse comportamento revela o verdadeiro papel do governo: atuar como mediador dos conflitos de classe em favor da burguesia. Quando pressionado, concede ajustes mínimos para conter a insatisfação social, mas impede qualquer transformação estrutural. Não se trata apenas de limites ou contradições internas — trata-se de uma função política bem definida dentro do capitalismo brasileiro.

É nesse sentido que a política trabalhista do governo Lula deve ser compreendida: não como um aliado imperfeito dos trabalhadores, mas como um governo que opera ativamente contra seus interesses históricos. Sua política econômica, sua recusa em enfrentar a reforma trabalhista e suas medidas de flexibilização evidenciam um compromisso sólido com o grande capital. A experiência recente reforça uma lição histórica: governos de conciliação de classes tendem a desarmar politicamente os trabalhadores enquanto preservam os fundamentos de sua exploração.

Comemorando o 1º de maio, cabe, portanto, à classe trabalhadora romper com as ilusões alimentadas pelo governo e retomar o caminho da organização independente. Somente a luta direta, enraizada nos locais de trabalho e articulada de forma coletiva, pode impor derrotas ao capital. Fora disso, restará apenas a repetição de promessas e a continuidade dos ataques sob novas formas.