Três indígenas Guarani-Kaiowá foram mortas em incêndio criminoso no Mato Grosso do Sul
Uma idosa, uma mulher e sua filha, um bebê de um ano, morreram quando sua casa pegou fogo na tekoha Avaeté, em Dourados (MS), área de frequentes ataques por parte de pistoleiros.

Guarani-Kaiowá residentes da tekoha Avaeté, em Dourados (MS) | Reprodução/Foto: Polícia Civil.
Um incêndio potencialmente criminoso atingiu uma casa na tekoha (“lugar onde se é”, em guarani) Avaeté, área de retomada indígena na cidade de Dourados (MS). Nela viviam Liria Isnarde Batista, de 76 anos, além de Janaina Benitez Amarilha, de 37 anos, e o bebê dela, Mariana Amarilha Paula, de 1 ano de idade.
O incêndio teria começado por volta das 22h30 da noite de domingo (30). As polícias Civil e Militar investigam a ocorrência, e peritos criminais trabalharam na região durante toda a manhã de segunda (31), onde vivem cerca de 20 famílias. O barraco em que as vítimas moravam foi totalmente destruído pelas chamas.
Em nota, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS) informou que três testemunhas já foram ouvidas, e uma mulher suspeita foi detida. Os corpos das vítimas foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) da cidade. O caso será investigado pelo Setor de Investigações Gerais (SIG) do 1° Distrito Policial, além do acompanhamento pelo Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS).
Em uma segunda nota enviada ao jornal Brasil de Fato, o SIG alterou a versão inicial apresentada pela Polícia Civil e declarou que já “elucidou o crime de triplo homicídio”. A mulher detida supostamente apresentava lesões de queimadura no braço que já teriam sido “analisadas pela perícia médico legista” e seriam “compatíveis com o lapso temporal em que o crime teria ocorrido”. A nota ainda apresenta, em detalhes, uma reconstituição de como os fatos teriam ocorrido. Não há, contudo, qualquer informação no documento sobre a motivação do crime.
A ministra dos Povos Indígenas Sônia Guajajara (PSOL) disse que o Ministério acompanha o caso e “uma equipe do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas se desloca até o local hoje para articular medidas entre comunidade e órgãos responsáveis”. Já a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) destacou que o crime ocorreu “em um território onde a violência contra os povos indígenas tem sido constante e brutal. A região sofre ataques recorrentes de latifundiários, que incluem o uso de produtos químicos contra as comunidades, queima de casas, a destruição de roças e a criminalização de lideranças indígenas.”
Histórico de violência contra indígenas
A violência de pistoleiros contra o tekoha Avaeté acontece há pelo menos sete anos. Segundo denúncias do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ligado à CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), capangas de fazendeiros locais, contratados a partir de empresas de segurança privadas, frequentemente invadem as retomadas, destroem os barracos com tratores ou incêndios criminosos, e tentam alvejar os Guarani-Kaiowá com balas de borracha ou mesmo munições letais.
Até mesmo a Polícia Federal tem perpetrado violências contra os povos originários da região. Em 2023, agentes da força de segurança invadiram a retomada em 16 viaturas sob a justificativa de execução de um mandado de busca e apreensão, atiraram contra as casas, arremessaram bombas de gás lacrimogêneo e tomaram celulares e documentos de moradores. A operação não contou com a presença obrigatória da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e chegou a ferir a nhandesy (rezadora, em guarani) Kuña Poty, de 74 anos.
O tekoha Avaeté está sobreposto à Fazenda Boa União, do empresário Allan Christian Kruger, onde se produzem monoculturas de soja e milho. Kruger também é dono de três empresas no Mato Grosso do Sul: Irmãos Kruger Ltda, Agrícola Videira Ltda e Coopasol Cooperativa Agropecuária Sulmatogrossense. Segundo os Guarani Kaiowá, é de sua fazenda que partem os pistoleiros em tratores que derrubam e incendeiam as casas.
Em 2021 o MPF-MS ingressou na justiça com um pedido de medidas cautelares contra Kruger e de prisão preventiva contra Giovanni Jolando Marques, citado no pedido como seu arrendatário, e apontado pelos indígenas como um de seus pistoleiros. A 1ª Vara Federal de Dourados do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, contudo, não acatou a solicitação na íntegra, decretando apenas a prisão preventiva de Jolando Marques, cuja “suspeita de atuação”, segundo a decisão, “é muito mais como ‘miliciano’ do que como sitiante”. Giovanni está, atualmente, em liberdade.