Programa Olho Vivo, articulado por Guto Silva, opera na ilegalidade no Paraná

A Câmara de Vereadores de Maringá se mostra, mais uma vez, interessada apenas em agradar os interesses das elites locais e dos seus aliados políticos, enquanto age de maneira repressiva contra estudantes exercendo seu direito à crítica.

19 de Abril de 2026 às 15h00

Na esquerda, o atual Secretário das Cidades, Guto Silva, e a direita o atual Governador do Paraná Ratinho Júnior. Reprodução/Foto: O Diário de Maringá.

Por Edson Cizeski

O Programa Olho Vivo do Governo do Paraná operou na ilegalidade sem licitação por meses, como exposto em reportagem da Gazeta do Paraná veiculada no dia 15 de março. O Pregão 203/2026, registrado no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), tem valor estimado de R$ 580.951.440,00, com fim do recebimento de propostas em 8 de abril de 2026, mas documentos oficiais mostram que câmeras de vigilância já estavam sendo instaladas em dez municípios desde 15 de dezembro de 2025.

A divulgação do governo do estado através da Agência Estadual de Notícias cita que 1,5 mil câmeras da nova fase do Olho Vivo foram instaladas em parcerias com municípios e que o governo disponibilizaria R$400 milhões para as cidades que fossem adquirir os equipamentos a partir de 2026. A questão que fica é: se um número significativo de câmeras já foi instalado e o governo possui uma verba separada para o projeto, o que está sendo licitado?

A tecnologia permite reconhecimento facial, leitura automática de placas e cruzamento de dados em tempo real. Em maio do ano passado, Ratinho Jr anunciou outra face do projeto em parceria com o Google, para implementar o uso de inteligência artificial em várias áreas - questão que gera alertas sobre privacidade de dados, soberania digital e precisão dos algoritmos de IA preditivos que, alimentados com uma base de dados racista, capacitista e opressiva aprofundam as formas de repressão do Estado.

Em janeiro de 2026, a cidade de Londrina recebeu cerca de 150 câmeras inteligentes, parte do projeto. Os dados divulgados indicavam que aproximadamente 430 equipamentos já estavam em funcionamento no Paraná. Ou seja, o projeto iniciou-se antes do processo de licitação, com acordos pré-estabelecidos com big techs e a fornecedora de câmeras de vigilância. O que está então em disputa real agora com o Pregão? E por que a diferença de mais de R$100 milhões entre o primeiro valor anunciado do projeto e a estimativa atual?

Idealizado e administrado pela SESP (Secretaria da Segurança Pública),  Secretaria das Cidades e a própria SGSD (Superintendência-Geral de Governança de Serviços e Dados), a redação da Gazeta do Paraná denunciou a falta de transparência do projeto - marca do governo de Ratinho Jr, como já exposto anteriormente em nosso jornal - devido a não publicação da ata de registro de preços e suspeita de propina de cerca de R$100 milhões.

Guto Silva homenageado em Maringá

Guto Silva recebendo título de Cidadão Honorário de Maringá. Reprodução/Foto: PingaFogo.

No meio desse cenário de denúncias de corrupção e irregularidades, o atual Secretário das Cidades esteve em Maringá, na terça-feira (dia 17 de março), para receber o título de cidadão honorário. A homenagem foi proposta pelos vereadores Angelo Salgueiro (PODEMOS), Cristian Maninho (Republicanos), Junior Bravin (PP), Odair Fogueteiro (PP) e entregue pelo atual prefeito Silvio Barros (PP).

Condenando a homenagem alegando que não há motivos plausíveis para a condecoração, a União Maringaense dos Estudantes Secundaristas (UMES) convocou ato de repúdio e esteve presente na frente da Câmara de Vereadores durante a sessão. Impedidos de acessar o espaço devido à forte repressão policial, que contou com oito viaturas da GCM e PM, os estudantes denunciaram o caráter antipopular do secretário “cúmplice direto do projeto de sucateamento e destruição da educação pública no Paraná”.

Estudantes secundaristas mobilizados em ato pacífico. Reprodução/Foto: @maringa.umes (instagram).

Enquanto os estudantes posicionavam-se contra a homenagem do lado de fora, a sessão aconteceu normalmente de maneira fechada, autoritária e antidemocrática. Guto Silva ainda debochou dos estudantes em suas redes sociais: “[...] que bom ver que o sindicato está acompanhando cada passo nosso e garantindo o marketing gratuito do evento!”.

A Câmara de Vereadores de Maringá se mostra, mais uma vez, interessada apenas em agradar os interesses das elites locais e dos seus aliados políticos, enquanto age de maneira repressiva contra estudantes exercendo seu direito à crítica.