A violência colonial contra os povos originários da Groenlândia

O derretimento acelerado das calotas polares na Groenlândia é o sinal de partida para uma nova corrida imperialista pelo Ártico, onde a violência colonial histórica contra o povo Inuit se renova. Enquanto potências globais cobiçam rotas marítimas e minerais estratégicos, os povos originários enfrentam a erosão de seu território, sua cultura e seu próprio corpo.

21 de Fevereiro de 2026 às 21h00

Reprodução/Foto: BBC.

Por Guilherme Sá

Em 2019, o primeiro mandato de Donald Trump na presidência dos EUA veio acompanhado de declarações, tratadas com surpresa até mesmo pela mídia burguesa, sobre a compra da Groenlândia, território autônomo do reino da Dinamarca. Na ocasião, Trump chegou a comparar a transação à aquisição da Louisiana, federação norte-americano incorporada ao país no século XIX após sua compra junto à Primeira República francesa. A proposta foi imediatamente rechaçada pelo governo dinamarquês como "absurda", mas revelou a visão do território não só como uma mercadoria, um ativo estratégico desprovido de povo, mas como um pilar da estratégia militar do país nas próximas décadas.

Com autonomia estendida desde 2009, quando da aprovação da Lei de Autogoverno, a Groenlândia tem garantido um espaço cada vez maior para os debates internos acerca da independência total do país. Após a declaração de Trump, contudo, e a emergência da atual corrida por minerais críticos, recursos e rotas para o comércio, os grupos políticos da ilha têm se movimentado com maior ênfase.

Na última década, o partido Siumut, de centro-esquerda, governou com maioria o parlamento da ilha, debatendo os limites e os meios para a independência com o partido Inuit Ataqatigiit, do mesmo espectro político. Nesses termos, a questão central no debate público groenlandês é a autonomia econômica da ilha e os meios para este fim. Enquanto a direita conservadora defende a independência aliada à venda de recursos naturais para alavancar a produção num processo gradual, que não lese a burguesia dinamarquesa, a histórica social-democracia advoga pela independência dentro do marco da urgência da crise climática, atentando-se aos riscos da extração.

Salienta-se, contudo, que não há, ao menos desde 1970, qualquer resquício de radicalidade no discurso autonomista tocado pelos partidos social-liberais hegemônicos, dado o nível de integração institucional e a domesticação dos movimentos independentistas, especialmente nos termos do não questionamento das estruturas militares da OTAN.

Foi nesse contexto que, ainda em 2013, o parlamento da Groenlândia suspendeu a proibição da mineração de urânio, abrindo espaço para a intervenção de capital estrangeiro no território. Na época, a empresa australiana Greenland Minerals and Energy projetou a ocorrência de cerca de 950 milhões de toneladas de minério, além da presença de terras raras – conjunto de 17 elementos críticos para a produção de bens tecnológicos – no chamado projeto multi-elemento Kvanefjeld, no sudoeste da ilha. A aproximação do capital chinês já nesta época e a cobiça de outras potências imperialistas pelo território jogou a fagulha no palheiro.

Mapa de recursos presentes na Groenlândia. Fonte: Fair Politik.

Longe de ser o único interesse do imperialismo, as terras raras compreendem apenas uma fração do potencial mineral da ilha, cuja exploração, por ora, enfrenta condições extremamente difíceis. A velocidade com que o degelo avança no Ártico revela, assim, não o potencial mineral, mas a abertura de novas rotas marítimas. Principal via do comércio global, o transporte oceânico pode ser encurtado em dias graças à rota marítima no centro do oceano Ártico, que encontra cada vez menos resistência do gelo.

Não apenas os EUA veem o território groenlandês com cobiça. A China, que há anos estrutura uma "Rota da Seda Polar", e a Rússia, que há décadas investe na militarização da região visando controlar pontos estratégicos de uma futura rota polar, também disputam influência na área.

Mapa das rotas marítimas no Oceano Ártico. A alternativa para a rota do norte e do sul vem do degelo, que abre a possibilidade da viagem ser feita sem o acompanhamento de navios quebra-gelo. Reprodução: Getty Images.

Os Inuit: Resistência e violência sistêmica

Diante das ameaças de Trump à soberania da Groenlândia e das rusgas comerciais entre a União Europeia e os EUA, manifestações dos povos originários do Ártico ocorreram em diferentes localidades. Com cerca de 90% da população da ilha composta pela etnia inuite, a agressão imperialista ganha outro significado, considerando a história de violência colonial perpetrada contra esses povos e o apagamento cultural decorrente da exploração mineral e da presença militar no território.

A história dos inuítes na Groenlândia é uma narrativa de resistência cultural mesclada ao apagamento em múltiplas ondas de colonização. Após séculos de adaptação a um dos ambientes mais hostis do planeta, o contato sistemático com os europeus, iniciado no século XVIII pelo missionário dinamarquês-norueguês Hans Egede, deu início a um processo de subjugação.

O colonialismo dinamarquês operou por meio do monopólio comercial, que tornou os inuítes dependentes de bens manufaturados em troca de recursos, da evangelização forçada, que suprimiu o xamanismo e as práticas culturais, e, no pós-Segunda Guerra Mundial, de uma política brutal de assimilação e "modernização".

“Verão na costa da Groenlândia por volta do ano 1000”. Carl Rasmussen, 1876.

O ápice dessa violência ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, dentro de um programa conhecido como "G-60". Para consolidar o controle e reduzir custos administrativos, o governo dinamarquês realocou à força famílias de pequenos assentamentos tradicionais para cidades modernas como Nuuk, desintegrando redes de contato e modos de vida ancestrais.

Paralelamente, em um dos capítulos mais sombrios e recentemente reconhecidos, centenas de mulheres e meninas inuítes foram submetidas à inserção de dispositivos intrauterinos (DIUs) sem seu conhecimento ou consentimento pleno. Este programa de contracepção forçada, que perdurou até meados dos anos 1970, visava explicitamente controlar o crescimento da população indígena, constituindo uma forma de violência genocida sobre os corpos das mulheres inuítes. O governo dinamarquês só iniciou uma investigação oficial sobre esses crimes em 2022, após décadas de luta das sobreviventes.

Hoje, diante de um cenário de ampla autonomia e de uma organização política cada vez mais desenraizada da luta popular, os povos inuítes vivem à mercê dos interesses da burguesia local, ligada aos mecanismos de poder dinamarqueses.

Além da histórica subjugação colonial, a imposição do modo de vida capitalista e o avanço da crise climática ameaçam diariamente os modos de vida tradicionais dos inuítes. A caça à foca e ao narval, pilares da identidade e da segurança alimentar inuíte, tornou-se perigosa e imprevisível. O gelo marinho, mais fino e instável, já causou mortes de caçadores experientes e a locomoção, feita através de caiaques e veículos de tração animal já não podem ser utilizados como antes. O conhecimento ancestral sobre padrões climáticos e comportamento animal está sendo rapidamente invalidado, criando uma crise na transmissão intergeracional.

A transformação acelerada da paisagem – fiordes sem gelo, neve que chega mais tarde – gera um profundo sofrimento psicológico. Há a identificação de um fenômeno crescente de "solastalgia" entre a população groenlandesa, isto é, a angústia gerada pela destruição ambiental do próprio lar. Essa dor, somada ao trauma histórico, alimenta índices elevados de depressão e ansiedade. Hoje, a Groenlândia está entre os países com as maiores taxas de suicídio do mundo, fenômeno ligado principalmente ao alcoolismo e a outros fatores sociológicos.

Enormes icebergs e gelo saindo do Isfjord (Kangia) em direção ao mar. Groenlândia Ocidental, 1999. Reprodução/Foto: Wikimédia Commons.

É assim que a Groenlândia se encontra na encruzilhada mais aguda do nosso tempo. O derretimento de seu gelo é o espelho da crise climática global, mas também o reflexo do aquecimento das ambições imperialistas.

Mudanças de cenário

A conjuntura política da Groenlândia sofreu uma inflexão decisiva em março de 2025, quando o partido Demokraatit (Democratas), de centro-direita, conquistou a maioria das cadeiras nas eleições com cerca de 30% dos votos, encerrando décadas de hegemonia do Siumut e do Inuit Ataqatigiit. A vitória, que chegou a surpreender até os próprios vencedores, ocorreu em um pleito marcado por dois fatores: a intensa pressão externa do governo Trump e a insatisfação popular com questões internas, sobretudo políticas governamentais que afetaram o setor pesqueiro, a espinha dorsal da economia local.

Este resultado ilustra o mecanismo pelo qual a direita pode capturar o sentimento popular de negação da intervenção. O Demokraatit canalizou o descontentamento concreto dos eleitores, em particular dos pescadores, cujo sustento é ameaçado por políticas mal recebidas e pela transformação climática com um parco discurso nacionalista. Ao priorizar o pragmatismo econômico e uma abordagem mais conciliatória em suas relações com Copenhague, contudo, o novo governo abre flancos para que a influência de potências estrangeiras se infiltre sob o manto da "parceria" e da "segurança regional".

Mais preocupante, porém, foi o resultado que colocou o partido Naleraq em segundo lugar. Surgido há mais de uma década de uma cisão no Siumut, o partido de direita defende uma autonomia groenlandesa baseada na cooperação ampliada com os Estados Unidos, abrindo o capital estrangeiro para a exploração irrestrita dos recursos da ilha. O partido ganha força justamente onde a esquerda liberal vacilou, não sabendo trabalhar politicamente as contradições do imperialismo e a ameaça concreta de uma guerra interimperialista.

Reprodução: Diplomatique Brasil.

Apesar das táticas políticas divergentes entre os partidos, a rejeição à ideia de se tornar parte dos Estados Unidos é consenso. Pesquisas indicam que 85% dos groenlandeses não desejam essa união, e quase metade vê o interesse de Trump como uma ameaça direta. A soberania almejada é plena e irrestrita, não uma troca de metrópole. Este sentimento colide frontalmente com os interesses de Copenhague. Para a burguesia dinamarquesa, perder a Groenlândia significa mais do que abrir mão de um símbolo de status histórico. Representa a renúncia a um território estratégico com recursos minerais imensos e potencial geopolítico crescente no Ártico, além de ceder influência direta para Washington em sua esfera de domínio tradicional. A crise desencadeada por Trump, assim, expõe a fragilidade de uma potência colonial média diante do imperialismo hegemônico.

O "Domo de Ouro" e o apagamento em marcha

Enquanto os partidos negociam e a Dinamarca tenta manter sua posição, a administração Trump avança com seus próprios termos. A retórica passou da "compra" para ameaças veladas ou explícitas de uso da força, com o presidente justificando a necessidade de controle por "razões de segurança nacional". Em janeiro de 2026, o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, já precisou demarcar publicamente "linhas vermelhas" inegociáveis, como a soberania e a integridade territorial, ao comentar possíveis acordos com os EUA, e fez referência à necessidade de discutir respeitosamente "o Domo de Ouro e planos semelhantes".

A menção a um "Domo de Ouro", referência ao “Domo de Ferro”, sistema de defesa sionista, revela a natureza da oferta, uma tentativa de forjar uma nova dependência, desta vez econômica e militar, sob uma cúpula brilhante que ofusca a autodeterminação. Em Davos, durante reunião do Fórum Econômico Mundial (WEF), ainda, Trump discutiu sobre a atualização do acordo firmado com a Dinamarca sobre a presença militar na ilha, materializada na base militar Pituffik, que faz a vigilância do espaço aéreo ao norte do continente americano.

Reprodução: BBC.

Nesse processo, a identidade e a agência inuíte são o principal obstáculo a ser removido. O discurso colonial repete-se. Trump já declarou, sem consulta, que os groenlandeses "querem estar conosco", um apagamento discursivo que ecoa séculos de imposição da vontade europeia. O avanço do capitalismo na ilha, seja pela mineração predatória, pela pesca industrializada ou pela militarização do território, atua como uma força assimilacionista tão poderosa quanto às políticas passadas de realocação. Ele corrói os modos de vida tradicionais, desestrutura as comunidades e aprofunda a crise social, substituindo uma relação orgânica com o território por uma lógica de extração e controle estratégico.

O paradoxo groenlandês no limiar da década de 2020 é trágico. A busca por independência pode, nas condições atuais de assédio imperialista, levar a uma nova e mais profunda subjugação. A direita local, ao tentar navegar pragmaticamente entre esses interesses, arrisca-se a pavimentar o caminho para que o "Domo de Ouro" se erga sobre as ruínas da soberania que prometeu construir. A história parece se repetir, não como farsa, mas como uma tragédia acelerada pela crise climática e pela voracidade do capital em sua fase de disputa interimperialista aguda. A grande interrogação que paira sobre o Ártico é se os povos inuítes, sobreviventes de séculos de adversidade, conseguirão resistir a este novo e totalizante capítulo de apagamento.