Operários, camponeses e indígenas unificam luta política contra o Governo Paz na Bolívia

A resposta do governo boliviano, que apostou na violência para reprimir os movimentos, rapidamente fez com que a luta política unificasse todos os movimentos sob a demanda pela renúncia de Rodrigo Paz.

28 de Maio de 2026 às 15h00

Manifestação dos trabalhadores bolivianos é reprimida pelo Governo Paz. Movimentos pedem a renúncia do presidente. Reprodução/Foto: AFP/Diario Hoy.

Por Konrado

Uma nova onda de protestos contra o governo neoliberal de Rodrigo Paz (do Partido Democrata Cristão) vem se espalhando, desde o 1º de maio, por praticamente todas as regiões da Bolívia. Iniciadas como resposta à promulgação da Lei 1720/2026, que mudou a caracterização de pequenas propriedades rurais buscando transformá-las em ativos financeiros e direcionando terras coletivas ao assédio da especulação imobiliária, rapidamente as mobilizações passaram a aglutinar demandas econômicas de trabalhadores, particularmente no caso dos mineiros e professores, que reforçam uma luta unitária junto aos camponeses e ao movimento indígena.

Apesar do recuo do governo e a revogação completa da Lei 1720, os protestos cresceram, especialmente com o envolvimento da Central Obrera Boliviana (COB) e da intensa repressão operada pelo governo Paz. A resposta do governo boliviano, que apostou na violência para reprimir os movimentos, rapidamente fez com que a luta política unificasse as mobilizações sob a demanda pela renúncia de Rodrigo Paz. A COB, que vem convocando marchas e bloqueios pela concretização da renúncia, alega que o governo Paz não respondeu às demandas sociais dos movimentos durante seus primeiros seis meses de mandato, que pretende impor a privatização na Bolívia que levarão a aumentos nos preços da eletricidade, da água potável e do gás de cozinha e veicular. “Não estamos pedindo a saída deste presidente incompetente e de todo o seu gabinete porque somos loucos; é porque eles não apresentaram soluções claras para o país”, afirmou dirigente nacional da COB, Mario Argollo.

Foram assinados, em 27 de abril, memorandos de “entendimento sobre minerais críticos” que afirmam a abertura das principais minas do país a “investidores estratégicos” americano-canadenses, sob o signo da cooperação internacional com capitais imperialistas que buscam se apossar do lítio boliviano. A proeminência dos trabalhadores mineiros, organizados historicamente no país como um setor-chave das lutas operárias, e sua adesão aos protestos ressalta também o elemento da luta popular por soberania no país.

A ingerência ianque sobre o governo Paz vem sendo incessantemente denunciada pelo movimento popular boliviano, que aponta as constantes visitas de coordenadores do Comando Sul dos EUA e da “agência antidrogas” DEA, sob pretenso objetivo de ”estabilizar” o país. Em meados de maio o ex-presidente boliviano Evo Morales, que se encontra refugiado no interior de Cochabamba, denunciou também um plano que estaria sendo operado pelo governo boliviano em aliança com os EUA para assassiná-lo.

Atualmente há muitas marchas em andamento rumo a La Paz. A “tomada” da capital administrativa pelo movimento popular é uma tática muito recorrente nas grandes mobilizações bolivianas. Tal cena assombra a burguesia do país desde 1979, quando um golpe militar do general Alberto Busch se defrontou com feroz resistência popular. Se concretizada, a unificação dos protestos na capital tem potencial de escalar drasticamente a pressão pela renúncia de Paz.