A Zona Franca de Manaus e a exploração da força de trabalho feminina

Mulheres correspondem 27% da força de trabalho, concentram-se em funções operacionais no setor eletroeletrônico e enfrentam precarização, desigualdade salarial e dupla jornada.

7 de Março de 2026 às 15h00

Reprodução/Foto: Alberto César Araújo / Amazônia Real.

Por Letícia Batista

A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) informou que, em 2025, as mulheres representavam 27,44% da força de trabalho do Polo Industrial de Manaus -  cerca de 35,6 mil trabalhadoras em um universo de quase 130 mil empregados, entre efetivos, temporários e terceirizados. Considerada estratégica para o capitalismo brasileiro, a Zona Franca de Manaus foi criada como projeto de desenvolvimento e integração do Amazonas ao mercado nacional e se consolidou, ao longo das décadas, como um polo industrial dependente de incentivos fiscais e voltado à montagem de produtos para grandes conglomerados nacionais e internacionais.

Embora sejam minoria no total de postos de trabalho, as mulheres concentram-se majoritariamente no setor eletroeletrônico, onde representam aproximadamente 64% da mão de obra. Elas ocupam, sobretudo, funções operacionais e de montagem, marcadas por atividades repetitivas, exaustivas e de baixo valor agregado.

O cenário evidencia a divisão sexual do trabalho no interior do polo industrial: enquanto as mulheres são amplamente empregadas em etapas produtivas consideradas menos qualificadas, os cargos de maior qualificação e remuneração permanecem, em sua maioria, sob ocupação masculina, o que limita as possibilidades de ascensão profissional e contribui para a manutenção da desigualdade salarial de gênero.

Dados históricos indicam a precarização do trabalho no Polo Industrial de Manaus, com registros de queda contínua na contratação de mulheres desde 2011, além de mobilizações e greves por melhores salários e condições de trabalho. No cenário da Zona Franca de Manaus, a retração da participação feminina ocorre em meio a um modelo industrial marcado por alta rotatividade, funções repetitivas e pressão por produtividade.

Essa situação deve ser analisada à luz do feminismo marxista, que relaciona a exploração da força de trabalho feminina às estruturas do capitalismo industrial. No polo, muitas operárias ocupam postos operacionais exaustivos, com baixa perspectiva de ascensão profissional. Além da jornada nas fábricas, frequentemente organizada em escalas intensivas, como a 7x0, grande parte dessas trabalhadoras ainda enfrenta a chamada dupla jornada, dividindo-se entre o trabalho, formal ou informal, e as responsabilidades domésticas.

A divisão sexual do trabalho, a opressão de gênero e a exploração de classe se manifestam de forma concreta no cotidiano das operárias do Polo Industrial de Manaus. A emancipação das mulheres trabalhadoras, não só dessa área do Amazonas como também das demais regiões do país, está ligada diretamente à superação do capitalismo e à construção de uma sociedade comunista.

A realidade das trabalhadoras

Essa realidade se agrava nas periferias urbanas, visto que o trabalho é um meio necessário para a sobrevivência, exigindo horas extensas de atividade a fim de obter subsistência. A precariedade dos serviços públicos, como transporte insuficiente, saúde sobrecarregada e creches escassas, amplia a carga de trabalho reprodutivo feminino. A realidade de muitas trabalhadoras é o deslocamento entre bairros periféricos e o Distrito Industrial.

Mulheres indígenas e ribeirinhas: exploração fora do meio urbano-industrial

A realidade das mulheres trabalhadoras do Amazonas não se limita a um espaço urbano. O capitalismo amazônico articula exploração econômica, violência patriarcal e colonialismo interno, afetando especificamente a vida de mulheres indígenas e ribeirinhas.

Historicamente, a integração da Amazônia ao mercado nacional ocorreu por meio da expropriação territorial, da imposição de grandes projetos econômicos e da destruição de modos de vida tradicionais. Mulheres indígenas e ribeirinhas sofrem, de forma particular, com os impactos do avanço do agronegócio, da mineração, do garimpo ilegal e da expansão urbana desordenada. A perda de território implica não apenas perda econômica, mas ruptura cultural, insegurança alimentar e intensificação da violência.

Essas mulheres enfrentam uma tripla opressão: de gênero, étnico-racial e de classe - são frequentemente excluídas do acesso a políticas públicas, não possuem boa inserção no mercado de trabalho e estão frequentemente expostas à violência sexual e ao racismo estrutural.

A violência contra a mulher e a falha do Estado

Apesar de sua diminuição, a violência contra a mulher mostra, de forma brutal, as contradições sociais agravadas pela desigualdade estrutural. Dados recentes indicam altos índices de violência contra a mulher no Amazonas, sendo que a maior parte dos casos ocorre em ambiente doméstico, atingindo principalmente mulheres periféricas, negras e de baixa renda.

Embora existam dispositivos legais como a Lei Maria da Penha e delegacias especializadas, as respostas institucionais se mostram insuficientes. Soluções estritamente punitivistas, centradas no encarceramento, não enfrentam as causas materiais da violência, como a desigualdade de gênero e a naturalização da dominação masculina, que faz com que mulheres continuem à mercê da justiça falha do Estado e dependentes economicamente de seus agressores.

Sob a perspectiva marxista, a violência de gênero não é interpretada apenas de forma isolada, mas como parte de uma estrutura social que combina exploração econômica e opressão patriarcal. Enquanto as mulheres permanecerem subordinadas economicamente e sobrecarregadas pelas tarefas domésticas e responsabilidades de cuidado, a violência continuará com terreno fértil.

A luta feminista em contraste com a luta anticapitalista

Apesar do cenário de exploração e violência, as mulheres em Manaus constroem cotidianamente formas de resistência. No Polo Industrial, há registro de mobilizações por condições salariais melhores e contra demissões.

Essas mobilizações mostram que resistir no dia a dia é importante, mas é preciso ir além e enfrentar a realidade com o coletivo - é necessária a luta feminista de maneira organizada, na perspectiva de classe, para desempenhar papéis fundamentais na denúncia da precarização do trabalho e na defesa programática de estruturas que arrebatam frontalmente os papéis sociais de gênero e socializem as tarefas e responsabilidades domésticas. A emancipação feminina das trabalhadoras não virá de concessões individuais ou de políticas isoladas, e sim da organização e da luta de classes.

O feminismo marxista compreende que a opressão de gênero está ligada à exploração capitalista, ferramenta usada para fomentar as estruturas patriarcais. Assim, a libertação das mulheres trabalhadoras da ZFM, trabalhadoras informais, indígenas ou ribeirinhas, depende da construção de uma sociedade socialista e da transformação radical das relações de gênero.