A articulação da extrema-direita e a ofensiva imperialista na América Latina
Essa ofensiva ocorre em um contexto mundial marcado pelo acirramento das disputas interimperialistas. A ordem internacional construída após o fim da Guerra Fria encontra-se em processo de reconfiguração.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assina o documento "Compromisso de combate à atividade criminosa dos cartéis" durante a Cúpula "Escudo das Américas" em Miami. Reprodução/Foto: REUTERS/Kevin Lamarque.
Por João Oliveira
A América Latina e o Caribe atravessam um novo período de instabilidade política, ofensiva reacionária e aprofundamento das disputas interimperialistas. Em praticamente todos os países do continente, as trabalhadoras e os trabalhadores são chamados a pagar a conta de uma crise que não criaram, enquanto as burguesias locais e estrangeiras disputam mercados, recursos naturais, territórios estratégicos e influência política.
Os acontecimentos recentes demonstram que não se trata de fenômenos isolados. As sanções contra Cuba, a crescente abertura da Venezuela ao capital internacional, os conflitos políticos na Bolívia, a consolidação do governo neoliberal de Javier Milei na Argentina, a eleição de José Antonio Kast no Chile, o acordo militar entre EUA e Paraguai, o avanço da extrema-direita no Brasil e a pressão permanente sobre governos latino-americanos compõem um mesmo quadro histórico, caracterizado pela tentativa dos Estados Unidos de recuperar sua influência sobre uma região que, nas últimas décadas, passou a receber investimentos crescentes da China e de outros competidores internacionais.
Essa ofensiva ocorre em um contexto mundial marcado pelo acirramento das disputas interimperialistas. A ordem internacional construída após o fim da Guerra Fria encontra-se em processo de reconfiguração. A ascensão econômica chinesa, o fortalecimento de novos polos de acumulação e as dificuldades do imperialismo estadunidense em manter sua hegemonia global impulsionam uma disputa cada vez mais intensa por mercados, matérias-primas, rotas comerciais e zonas de influência.
Nesse cenário, a América Latina volta a ocupar um papel estratégico. Rica em petróleo, lítio, cobre, terras raras, biodiversidade, água doce e produção agropecuária, a região tornou-se um dos principais terrenos de disputa entre as grandes potências do século XXI.
A disputa pela América Latina
Durante grande parte do século XX, os Estados Unidos exerceram um domínio quase absoluto sobre o continente. Intervenções militares, golpes de Estado, bloqueios econômicos, financiamento de grupos paramilitares e apoio a ditaduras empresariais-militares foram instrumentos utilizados para garantir governos alinhados aos interesses de Washington.
Nas últimas duas décadas, entretanto, esse monopólio relativo começou a ser questionado. A expansão chinesa transformou profundamente a inserção internacional de diversos países latino-americanos. A China tornou-se o principal parceiro comercial de várias economias da região e passou a disputar investimentos em infraestrutura, mineração, energia e agropecuária.
Ao contrário do que afirmam muitos analistas neoliberais, isso não significou o fim da dependência latino-americana. O que ocorreu foi uma reconfiguração parcial dos mecanismos de subordinação. A região passou a se inserir simultaneamente em diferentes circuitos de acumulação controlados por potências concorrentes.
Essa mudança, entretanto, produziu um problema estratégico para Washington. Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos passaram a enfrentar uma concorrência relevante em seu próprio quintal geopolítico.
A resposta tem sido uma combinação de pressão diplomática, sanções econômicas, fortalecimento de governos alinhados aos interesses estadunidenses, ampliação da cooperação militar e tentativas de reorganizar sua influência política, econômica e militar na região.
Cuba segue na linha de frente
Poucos países simbolizam essa disputa de forma tão evidente quanto Cuba.
Mais de seis décadas após a Revolução Cubana, o bloqueio econômico continua sendo um dos principais instrumentos da política estadunidense contra a ilha socialista. Apesar das reiteradas condenações internacionais ao embargo, Washington mantém uma estratégia permanente de estrangulamento econômico voltada para provocar o desgaste político interno e pressionar mudanças de regime.
As dificuldades enfrentadas por Cuba nos últimos anos são frequentemente apresentadas pela mídia burguesa internacional como resultado exclusivo de problemas internos. Entretanto, ignorar o peso das sanções significa ocultar um elemento central da realidade cubana.
O bloqueio afeta importações de combustíveis, medicamentos, equipamentos industriais, peças de reposição e acesso a linhas internacionais de crédito. Em um contexto global de desaceleração econômica, seus impactos tornam-se ainda mais severos.
A pressão sobre Cuba possui também uma dimensão simbólica. Para o imperialismo estadunidense, a existência de um país que rompeu com sua esfera de influência, a menos de 145 km do seu território, continua representando um obstáculo político que precisa ser permanentemente combatido.
Venezuela: da conciliação de classes à vulnerabilidade externa
A situação venezuelana revela outra face das disputas contemporâneas.
Durante anos, a Venezuela foi apresentada como símbolo da resistência ao imperialismo estadunidense, principalmente a partir da figura do ex-presidente Hugo Chávez. Entretanto, a trajetória do país nos últimos anos demonstra os limites de um projeto que buscou conciliar interesses contraditórios sem superar as bases estruturais do capitalismo dependente e avançar no processo da revolução socialista.
A crítica dos comunistas a esse processo não começou com os acontecimentos mais recentes. Ainda durante os anos de bonança petroleira, a estratégia predominante do chavismo consistiu em utilizar a renda dos hidrocarbonetos para financiar programas sociais sem romper efetivamente com o poder político e econômico da burguesia venezuelana.
Quando a crise econômica se aprofundou, as limitações dessa estratégia tornaram-se evidentes.
As sanções impostas pelos Estados Unidos tiveram um papel importante no agravamento da situação, mas não explicam sozinhas o cenário atual. A incapacidade de construir formas duradouras de poder popular e de reorganizar a economia venezuelana sobre bases socialistas abriu espaço para uma crescente dependência de acordos com setores da burguesia local e internacional.
Nos últimos anos, o governo do ex-presidente Nicolás Maduro ampliou mecanismos de flexibilização econômica, incentivos ao capital privado, negociações envolvendo grandes grupos internacionais interessados nos recursos estratégicos venezuelanos, perseguição a lideranças sindicais e censura ao Partido Comunista da Venezuela (PCV).
O resultado desse cenário é uma situação contraditória, onde, ao mesmo tempo em que o país continua sendo alvo da pressão imperialista, cresce também a penetração de interesses privados estrangeiros sobre setores estratégicos da economia capitalista venezuelana, intensificados sob a gestão da presidenta Delcy Rodríguez, que assumiu o governo diante do sequestro de Maduro em 3 de janeiro deste ano.
A defesa consequente da soberania nacional exige mais do que resistência diplomática. Exige a independência política da classe trabalhadora venezuelana diante de todas as frações da burguesia e de seus governos.
Argentina: o laboratório da ofensiva neoliberal
Se Cuba representa a pressão direta e a Venezuela expressa os limites da tentativa de conciliação de classes, a Argentina tornou-se um laboratório para a aplicação aberta do receituário neoliberal.
A ascensão de Javier Milei não pode ser compreendida apenas como um fenômeno eleitoral. Ela expressa o desgaste acumulado por anos de crise econômica, inflação persistente e incapacidade dos governos social-liberais de oferecer soluções para os problemas enfrentados pelas massas.
Sob o discurso de combate à “casta política”, o governo argentino implementa um programa profundamente favorável ao capital financeiro e aos grandes grupos empresariais, ao mesmo tempo em que se apresenta de forma subserviente ao imperialismo estadunidense.
Privatizações, cortes sociais, ataques à legislação trabalhista, repressão aos movimentos populares e abertura ainda maior da economia argentina constituem os pilares centrais desse projeto neoliberal.
Enquanto as trabalhadoras e os trabalhadores enfrentam o desemprego, a perda de renda e a deterioração das condições de vida, os grandes grupos econômicos ampliam seus espaços de acumulação.
A Argentina demonstra como a extrema-direita contemporânea combina a retórica antissistema com uma prática profundamente subordinada aos interesses do capital, assim como ocorreu com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 no Brasil.
Bolívia e a disputa pelos recursos estratégicos
Na Bolívia, as tensões políticas dos últimos anos evidenciam a importância crescente dos recursos naturais na disputa global entre potências.
O país possui a maior reserva de lítio do planeta, mineral indispensável para a produção de baterias, veículos elétricos e diversas tecnologias consideradas estratégicas.
Não é coincidência que as disputas internas na Bolívia sejam acompanhadas com atenção por governos e empresas de todo o mundo.
As divergências entre diferentes setores do próprio campo progressista, os conflitos envolvendo antigas lideranças do Movimento ao Socialismo (MAS) e as pressões exercidas por grandes grupos empresariais refletem, em parte, essa importância geopolítica crescente.
A luta em torno do controle do lítio boliviano é apenas um exemplo de uma tendência mais ampla, caracterizada pela intensificação da disputa internacional por minerais críticos em um contexto de transição tecnológica e reconfiguração das cadeias produtivas globais.
Inserida neste cenário mais amplo, a classe trabalhadora boliviana intensifica os protestos contra o governo neoliberal de Rodrigo Paz.
Chile: do estallido social à ascensão da extrema-direita
O Chile talvez seja um dos exemplos mais ilustrativos das contradições vividas pela América Latina na última década.
Em 2019, o país foi palco de uma das maiores explosões sociais de sua história recente. Milhões de trabalhadores, estudantes e setores populares ocuparam as ruas contra o aumento do custo de vida, a precarização dos serviços públicos, o sistema de aposentadorias privatizado e o legado político e econômico herdado da ditadura de Augusto Pinochet. O chamado estallido social colocou em xeque não apenas um governo específico, mas todo o modelo neoliberal construído ao longo de décadas.
Entretanto, a enorme energia popular mobilizada naquele período acabou sendo canalizada para saídas institucionais incapazes de responder às demandas mais profundas das massas. O governo de Gabriel Boric surgiu como expressão desse processo. Apresentando-se como alternativa às velhas elites políticas, sua administração assumiu prometendo mudanças estruturais, mas acabou limitada pela conciliação com setores do grande empresariado e pelos estreitos marcos da institucionalidade burguesa.
A frustração acumulada abriu espaço para uma reorganização das forças conservadoras. Em 2025, José Antonio Kast, representante da extrema-direita chilena e admirador declarado de experiências reacionárias internacionais - inclusive da própria ditadura empresarial-militar comandada por Pinochet no Chile -, venceu as eleições presidenciais com uma campanha centrada na segurança pública, na repressão ao crime, no endurecimento das políticas migratórias e na redução dos gastos sociais. Sua vitória representou a primeira chegada da extrema-direita ao governo chileno desde a redemocratização do país. A campanha foi marcada por uma forte polarização política e pelo deslocamento do debate público para pautas de segurança e imigração.
Desde que assumiu a presidência, em março de 2026, Kast tem buscado implementar uma agenda baseada no fortalecimento do aparato repressivo do Estado burguês, no endurecimento do controle migratório e em medidas econômicas favoráveis ao grande capital. Ao mesmo tempo, enfrenta crescente desgaste político, queda de popularidade e resistência de setores sociais que voltaram a se mobilizar contra a implementação de seu programa neoliberal. Protestos acompanharam importantes pronunciamentos do governo e pesquisas recentes apontam aumento da desaprovação popular à sua gestão.
O caso chileno demonstra que a ascensão da extrema-direita não ocorre apenas pela força dos setores reacionários, mas também pelas limitações das alternativas social-liberais, como se deu com Boric. Quando governos como esse não conseguem - ou não querem - romper com os pilares fundamentais do capitalismo dependente, acabam criando as condições para que o descontentamento popular seja capturado por projetos ainda mais conservadores.
Ao mesmo tempo, as mobilizações que seguem ocorrendo no país mostram que as contradições que explodiram em 2019 permanecem abertas. O Chile continua sendo um terreno de disputa entre projetos antagônicos de sociedade. A extrema-direita ocupa temporariamente o governo, mas não eliminou as causas estruturais que levaram milhões de trabalhadoras e trabalhadores às ruas poucos anos atrás.
Paraguai: a volta da influência direta de Washington
Se em países como Argentina, Bolívia e Chile a ofensiva imperialista se expressa principalmente através de governos neoliberais e do avanço da extrema-direita, no Paraguai ela assume uma forma mais clássica, caracterizada pelo fortalecimento direto da influência estadunidense sobre as instituições políticas, militares e de segurança.
Historicamente, o Paraguai ocupa uma posição estratégica no centro da América Latina. Faz fronteira com Brasil, Argentina e Bolívia, abriga uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo e está localizado próximo a importantes reservas de água doce e corredores logísticos do continente. Não por acaso, o país sempre foi alvo de atenção especial por parte de Washington.
Nos últimos anos, essa relação tornou-se ainda mais estreita. O governo de Santiago Peña, herdeiro político da longa hegemonia do Partido Colorado, aprofundou acordos de cooperação com os Estados Unidos nas áreas de defesa, inteligência e segurança. Autoridades estadunidenses ampliaram sua presença diplomática e militar no país, enquanto programas conjuntos de treinamento e intercâmbio entre forças militares ganharam um novo impulso.
Sob o discurso de combate ao crime organizado, ao narcotráfico e ao terrorismo, Washignton reforça mecanismos de influência sobre instituições estratégicas paraguaias. Trata-se de uma política conhecida em toda a América Latina, representada pela utilização da agenda de segurança para ampliar sua capacidade de intervenção política e militar na região.
Essa aproximação também possui uma dimensão econômica. O Paraguai tornou-se um dos principais laboratórios de políticas favoráveis ao agronegócio exportador, à baixa tributação sobre grandes fortunas e à atração de capital estrangeiro. O resultado é um modelo que produz crescimento para determinados setores empresariais enquanto mantém elevados níveis de concentração fundiária, desigualdade social e precarização das condições de vida da classe trabalhadora paraguaia.
Ao mesmo tempo, movimentos camponeses, sindicatos e organizações populares seguem enfrentando a criminalização e a repressão. As disputas em torno da terra continuam sendo uma das principais expressões da luta de classes no país, marcada por uma das estruturas agrárias mais concentradas do continente.
O caso paraguaio demonstra que a ofensiva imperialista na América Latina não se limita às sanções ou às ameaças militares explícitas. Em muitos casos, ela opera através da integração cada vez mais profunda entre as elites locais e os interesses estratégicos dos Estados Unidos, transformando governos formalmente soberanos em instrumentos da reprodução da dependência econômica, política e militar, como podemos observar atualmente com o Paraguai.
Num contexto de crescente disputa interimperialista entre Estados Unidos e China pela influência regional, o Paraguai surge como uma das peças mais confiáveis de Washington no tabuleiro sul-americano, funcionando como ponto de apoio para seus interesses geopolíticos no coração do continente.
Soberania para quem? As contradições do governo neoliberal de Lula
No Brasil, as contradições aparecem de forma particularmente aguda.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca se apresentar como um defensor da soberania nacional diante das pressões externas. Em determinados momentos, essa postura produz atritos reais com interesses estadunidenses e europeus. Episódios como a defesa do Pix, as críticas ao unilateralismo internacional e a busca por uma inserção mais ativa nos BRICS são frequentemente utilizados para reforçar essa imagem.
Entretanto, quando observamos a política econômica e a gestão dos recursos estratégicos do país, emerge uma realidade mais complexa, distante das falas de Lula em eventos internacionais.
O governo atua como um mediador entre diferentes interesses burgueses: o capital financeiro nacional, o agronegócio exportador, os investimentos chineses e os interesses estadunidenses e europeu. Em vez de romper com a dependência, procura administrá-la.
O caso das terras raras ilustra essa contradição. Em meio à crescente disputa global por minerais críticos utilizados em semicondutores, baterias, equipamentos militares e tecnologias de ponta, o Brasil possui a 2ª maior reserva conhecida do planeta, ficando atrás apenas da China. Ainda assim, não existe um projeto consistente de monopólio estatal sobre sua exploração, beneficiamento e industrialização.
Ao contrário, a tendência predominante continua sendo a integração dessas riquezas às cadeias globais controladas por grandes corporações internacionais. É importante ressaltar que foi sob o olhar passivo desse governo social-liberal que os EUA compraram a única mina brasileira de terras raras.
A mesma lógica se manifesta em outros setores da mineração, da energia e da infraestrutura. O país exporta recursos naturais, commodities agrícolas e minérios, enquanto permanece dependente da importação de produtos industrializados de maior valor agregado.
Outra expressão dessa ambiguidade aparece na esfera militar. Embora setores governamentais defendam uma política externa mais autônoma, continuam existindo mecanismos de cooperação e treinamento conjunto entre as Forças Armadas brasileiras e os Estados Unidos, como ocorreu com a presença do porta-aviões nuclear estadunidense USS Nimitz, atracado na costa brasileira em maio deste ano. Em um contexto de crescente competição geopolítica, tais acordos revelam os limites da soberania defendida pelas classes dominantes brasileiras.
O problema não é que o governo Lula esteja simplesmente subordinado a Washington. Sua estratégia consiste justamente em tentar equilibrar simultaneamente interesses chineses, estadunidenses, europeus e nacionais.
Porém, à medida que as disputas interimperialistas se intensificam, torna-se cada vez mais difícil sustentar esse equilíbrio sem aprofundar as contradições internas.
O crescimento da extrema direita
Paralelamente, a extrema-direita continua acumulando forças em praticamente toda a região.
Mesmo após derrotas eleitorais em alguns países, os setores reacionários preservaram posições estratégicas dentro das instituições estatais, dos meios de comunicação, das forças de segurança, das igrejas e do grande empresariado.
No Brasil e na Colômbia, por exemplo, as derrotas eleitorais da extrema-direita em 2022 não significaram a derrota do reacionarismo como força política organizada. Pelo contrário, aqui no Brasil a extrema-direita segue controlando governos estaduais importantes, possui forte influência parlamentar e mantém uma capacidade significativa de mobilização social. Enquanto isso, a extrema-direita colombiana também se apresenta fortalecida, tendo o seu candidato saído à frente no primeiro turno presidencial, em oposição ao candidato de centro-esquerda indicado por Gustavo Petro.
Esse crescimento não pode ser explicado apenas pela atuação da própria extrema-direita. Ele também reflete as limitações das forças reformistas que, ao longo dos últimos anos, administraram crises sucessivas sem alterar seus fundamentos econômicos.
Quando a população trabalhadora experimenta o desemprego, a precarização, o endividamento e a deterioração dos serviços públicos sem enxergar alternativas concretas, o discurso reacionário encontra terreno fértil para se expandir.
Um continente em disputa
A América Latina encontra-se novamente no centro das disputas interimperialistas.
Em alguns países, a pressão assume a forma de sanções econômicas e ameaças militares. Em outros, manifesta-se através de governos abertamente subordinados ao capital financeiro internacional. Em outros ainda, aparece sob a forma da tentativa de conciliação permanente entre diferentes frações burguesas.
As especificidades nacionais são importantes, mas não alteram o conteúdo geral do processo.
Os trabalhadores venezuelanos, argentinos, bolivianos, chilenos, paraguaios, brasileiros e de todo o continente enfrentam adversários comuns: a exploração capitalista, a dependência econômica e a ofensiva imperialista.
Enquanto diferentes burguesias disputam mercados, recursos naturais e posições geopolíticas, a classe trabalhadora latino-americana continua sendo utilizada como bucha de canhão de interesses que não são os seus.
Por isso, a defesa consequente da soberania nacional não pode ser separada da luta pelo poder político e econômico das trabalhadoras e dos trabalhadores.
Somente uma transformação radical das estruturas econômicas, sociais, políticas e militares permitirá que os povos latino-americanos intervenham de maneira independente nos rumos de suas sociedades. Somente a superação do capitalismo e a construção do socialismo-comunismo poderá romper os mecanismos que subordinam nossas economias aos interesses das grandes potências imperialistas.
Num período marcado pelo avanço da extrema-direita, pelas disputas interimperialistas e pela crescente instabilidade global, a tarefa dos comunistas não é escolher entre diferentes blocos burgueses ou diferentes potências em disputa. É construir a independência política da classe trabalhadora e sua capacidade de dirigir a transformação revolucionária da sociedade.
Como afirmaram Marx e Engels, os trabalhadores não possuem pátria no sentido defendido pelas classes dominantes. Mas isso não elimina a necessidade de enfrentar concretamente as formas nacionais da exploração e da dominação imperialista.
As revoluções socialistas se desenvolveram ao longo da história e continuarão se desenvolvendo em condições nacionais específicas, porém respondem a interesses históricos comuns da classe trabalhadora mundial.
A revolução é nacional em sua forma, mas internacional em seu conteúdo.
É nessa perspectiva que a luta das trabalhadoras e dos trabalhadores latino-americanos se conecta às batalhas travadas pelos povos explorados e oprimidos em todos os continentes: uma mesma luta contra o imperialismo, contra o capitalismo e pela construção do socialismo, rumo ao comunismo.