Batalha do Sarandiru: espaço de luta e cultura da juventude periférica em Sarandi
A Batalha do Sarandiru surge não apenas para disputar o termo, mas para combater as dificuldades locais e a violência policial, promovendo cultura e arte em um espaço de resistência e organização da juventude sarandiense.

Batalha do Sarandiru 36⁰ Edição - Poetisas. Reprodução/Foto: @batalhadosarandiru no Instagram.
Por Gabriel e Edson Cizeski
Apelidada pejorativamente de “Sarandiru”, em referência a penitenciária Carandiru, a cidade de Sarandi integra a região metropolitana de Maringá (PR). Percebida por muitos apenas como “cidade dormitório”, o município enfrenta problemas graves fruto da desigualdade social, especulação imobiliária e crescimento exponencial sem investimento adequado para áreas fundamentais como educação, saúde e limpeza urbana. Nesse cenário, a Batalha do Sarandiru surge não apenas para disputar o termo, mas para combater as dificuldades locais e a violência policial, promovendo cultura e arte em um espaço de resistência e organização da juventude sarandiense.
Nesta entrevista, os organizadores da batalha Devaneio e Kxin dialogam sobre a importância do acesso à cultura especialmente no interior do país, a relação do poder público com este espaço, o preconceito e marginalização ainda enfrentados pelo movimento hip hop e do freestyle, apontando o rap como fator de transformação social e caminho de resistência frente às opressões constantes instauradas pela sociedade capitalista.
O Futuro: Gostaríamos de começar pedindo para que se apresentem para nossos leitores, falando um pouco de vocês, de suas carreiras e da batalha
Kxin: Sou a kxin (@kxin.soy.yo), meu nome é Yohanna, tenho 20 anos, nasci em Campo Mourão mas resido atualmente em Sarandi e o hip hop literalmente salvou a minha vida. Por estar num meio periférico, que tem uma negligência social, me vi perdida por vários fatores, seja por companhias erradas, seja por vícios ou ambientes que eu não pertencia. Nesse meio tempo, eu conheci as batalhas de rima, comecei a rimar, me apaixonei por isso, não consegui mais me ver longe e comecei a participar de movimentos e aprendi. Fiquei muito tempo afastada também e agora voltei. Conheci o Devaneio, que nossa, meu braço direito, e foi uma pessoa muito fundamental na minha vida e nisso nasceu a Sarandiru e outros projetos também sociais, culturais.
Foi aí que eu me encontrei, como pessoa e como artista. Além de ser MC de batalha, eu adoro produzir cultura, eventos, estou me arriscando no caminho da música, pretendo fazer shows, ter mais lançamentos, mas sempre resgatar essa essência de que a arte é uma libertação. Por mais que ela exija ausência em alguns momentos, exige algum certo tipo de sacrifício, principalmente estudo, então assim, por mais que seja uma moeda de “ai eu estou dando o meu tempo”, mas também vou estar recebendo e apesar de ser difícil, é algo que vale muito a pena para não só se resgatar, mas para também se expressar, se libertar, poder chegar em outras pessoas que também precisam desse acolhimento. Acho que o hip hop é fundamental pelo resgate, pelo acolhimento, mas também pelo pertencimento - não só da arte em si, mas do seu ser consigo mesmo.
Devaneio: Meu nome é Enarê Ítalo, meu vulgo é Devaneio (@devaneiomc), sou transmasculino, tenho 26 anos e moro em Sarandi. Sou professor de português e francês, estou fazendo meu mestrado no hip hop, no estudo cultural. Sou produtor do projeto submerso de verso, voltado para a poesia e para o slam, valorizando a literatura marginal. Para mostrar que a gente também pode estar produzindo arte e cultura.
Eu já conhecia o cenário das batalhas, mas eu chegava mais como telespectador, eu ficava na plateia e gostava muito da dinâmica, de como é um ritual organizado. Tudo tem um motivo, “dá um passinho para frente”, “chega mais próximo”, “a gente precisa da sua vibe”. Sentir que, mesmo eu estando ali na plateia, ninguém sabendo meu nome, eu também fazia parte daquela unidade.
Só que eu achava que eu não fazia parte daquele ambiente, talvez não fosse o meu lugar, tanto por eu ser uma pessoa branca, quanto também por eu não ser um cara cis hétero que vai chegar com uma agressividade que é exigida nesse contexto de batalha. Porque eu me comparava com os outros e achava que não era o meu lugar. Até eu ver pessoas como eu na roda, mandando um freestyle puro, do coração.
Eu também tenho um… algo para dizer, para agregar. Porque eu achava que eu não ia ter nada para falar, que eu não ia ter nada para agregar, que eu não ia conseguir me defender se alguém me atacasse, que eu não ia conseguir atacar.
Quando eu comecei a ser MC, meio que eu comecei a entender algumas dinâmicas de poder, a partir desse espaço. De que a falta de acesso de MCs que moram em lugares mais periféricos da cidade era algo que influenciava neles. Então, por exemplo, um MC que mora aqui em Sarandi muitas vezes não vai ter dinheiro para ir em outra batalha. E eu percebi que tinha meio que essa desigualdade, que nem todos estavam tendo esse acesso de uma cultura que é para ser de todos.
Será que a gente precisa ir lá [em Maringá] para ter uma batalha? Não desmerecendo, mas, a gente também quer ter esse espaço de acolhimento. Aqui em uma cidade que historicamente foi jogada de escanteio, que foi o braço que construiu Maringá, que sustentou Maringá durante muito tempo e ainda sustenta. Costumamos chamar Sarandi de o dormitório de Maringá, porque as pessoas trabalham em Maringá, estudam e voltam para dormir, para descansar. E aí as pessoas chamam de Sarandiru também de um modo pejorativo, associado ao filme e ao massacre. Então pegamos o nome para ressignificar.
O Futuro: A Batalha do Sarandiru nasceu em setembro de 2024, logo no começo exaltaram a antiga batalha da pista velha, que acabou devido à repressão policial. Como foi assumir esse legado? E depois desse mais de um ano de caminhada de vocês, essa repressão mudou ou ela ainda existe, e se sim, de qual forma ela transparece para vocês?
Kxin: Olha, eu acho que teve uma transformação muito grande, mas de certa forma foi através do comparecimento, das forças que nós unimos, que foi meio que acabando essa segregação. Começamos na pista velha, é um marco histórico, hoje em dia já demoliram. Vamos prestar atenção, vamos lembrar, vamos colocar isso em pauta todas as vezes, porque lá era o lugar onde eu me sentia viva, é o céu mais lindo de Sarandi, não tem o que falar. O berço da cultura do hip hop de Sarandi. Um lote vazio que os skatistas e os MCs foram construindo em conjunto, investindo do bolso deles, criando da mão deles.
Surgiu o movimento ali, a partir do Doido e o Drop, mais uma rapaziada, mas esses dois que são de Sarandi e estavam ali sempre, construíram a Batalha da Pista Velha. Reviver isso foi algo tão forte para nós, não só na questão de reviver uma história antiga, mas dar outro significado e também criar forças para quem está aqui agora. Porque querendo ou não, aqui é o dormitório de Maringá, então tem muitas pessoas que não são vistas. Muitos lugares aqui são totalmente abandonados socialmente, as pessoas não têm acesso a nenhuma UBS, a coisas básicas, então ter esse espaço de manifestação, ter esse espaço de expressão, de acolhimento, é muito mais do que só artístico. Foi um marco de revolução mesmo, para as pessoas que estão aqui.
Devaneio: Eu cheguei a frequentar a Batalha da Pista Velha, antigamente, a última batalha que eu lembro em 2017, quando estava no fim das ocupações das escolas, dos colégios aqui de Sarandi, que eu participei desse marco histórico. E foi nessa época que eu conheci as batalhas de rima. Na verdade, era um espaço que estava combinado que poderia acontecer a batalha, mas, ao mesmo tempo, o barulho incomodava a vizinhança. Até então, se ninguém interromper, vai barulhar. Tem coisa que não dá para controlar.
Tinha um muro que tava sendo pichado por pessoas que passavam e nem tava fazendo parte do movimento, mas passavam e achavam ali uma oportunidade para mandar um pixo. Um muro branco ali, mó bonito, o cara vai, tá com uma lata, vai lançar um pixo. O pessoal da organização combinou com esses vizinhos de não ter mais pichação. Eles iam tentar, digamos, dar um recado para o pessoal para não pichar mais. Nisso pintaram o muro e deixaram bem bonitinho porque combinaram que iam fazer uma obra de grafite. Na mesma semana que isso aconteceu - pintaram o muro - no outro dia foram lá e picharam por cima.
E aí, esse morador que tinha contatos internos na prefeitura e com o poder público, tipo assim, já...entendeu? E acabou. Acabou. Repressão policial, guarda municipal toda semana, polícia passando toda hora, dando enquadro, falando, ó, isso aqui acabou, leva sua caixa para sua casa.
O Futuro: Não tinha muito o que fazer mais…
Devaneio: Exatamente. O que nós íamos fazer? Vendo esse movimento histórico que tinha acontecido e entendendo qual tinha sido o problema naquela época, a gente tenta levar de um jeito mais voltado para o conhecimento, voltado para o crescimento. Uma coisa cultural, educacional, de acolhimento, de inclusão, de aumentar o acesso, de talvez incluir outras pessoas que não estavam fazendo parte desse ciclo, seja porque não se sentiam à vontade ou por diversos motivos.

Devaneio MC (esquerda) e Kxin (direita). Reprodução/Foto: redes sociais.
O Futuro: Falando um pouco mais da carreira musical de vocês, recentemente fizeram um primeiro show juntos lá na Groove Brew House, através do Hip Hop Resgate, que é um movimento social e cultural aqui da cidade. Na visão de vocês, qual é a importância de ter movimentos como esse na nossa região? Levando em conta que ela é uma região vista costumeiramente como muito reacionária e conservadora.
Devaneio: O hip hop resgate mudou nossa perspectiva, nosso jeito de ver produção cultural. A gente entendeu que o hip hop poderia ser, além da arte, igual a Kxin falou, uma ferramenta social de mudança e de transformação. Muitas vezes cuidar e pensar em mazelas e desigualdades que o Estado não vai pensar, que a Prefeitura não vai pensar e que os órgãos públicos não estão se importando.
E eu acho que essa oportunidade que eles dão para artistas independentes de ter essa visibilidade, principalmente artistas que estão começando é como se fosse… alimento. Essa crença que eles têm na gente de botar uma fé, de acreditar nessa nova geração que somos nós - se construindo e construindo um movimento ao mesmo tempo.
E a Groove também, sem palavras, traz vários artistas fodas, underground, que são referência para nós, que gostaríamos muito de conhecer e temos a oportunidade de ir e ver eles de perto no palco. A Kxin é prova viva disso.
Kxin: É revolucionário. Infelizmente a gente ainda é muito criminalizado, visto como algo sujo, vou dizer nessas palavras, por isso que tem muita essa questão de falar que a gente veio do bueiro, que a gente é rataria, que a gente é sujo, mas não pela forma de ser sujeira, ser bagunçado, mas sim por onde eles colocam hip hop, colocam o rap mesmo. Hip Hop Resgate Cidadania foi onde eu encontrei a humanização no artístico, onde eu entendi que uma produção cultural é muito além de um palco. A Groove também, sem palavras, tanto com tratamento que a gente teve lá.
E ter esse espaço era um sonho mesmo, de poder criar um currículo artístico, porque, querendo ou não, a profissionalização é importante. Se a gente não tem oportunidade, a gente não consegue ter essa visão, ter essa expansão. E muito além disso também, você ver as pessoas que você gosta vibrando, ou ver de cima do palco as pessoas que você gosta também, ter a oportunidade de conhecer pessoas referências.
Simplesmente a Groove trouxe a Cris do SNJ, que é uma referência master. SNJ é um dos grupos de rap que realmente revolucionou a periferia, Lauren Priscila e demais nomes. E assim, eu tive a oportunidade de cantar com ela no palco. A Cris, ela foi a pessoa que eu ouvi, foi o primeiro contato de rap feminino que eu ouvi, que eu falei “eu posso sim sair de tudo isso, de toda essa bagunça”.
Devaneio: Da mina da escola…
Kxin: Exatamente, aquela frase: da mina da escola à mina que sobe no palco e rima. Por muitas vezes, eu me pegando nesses momentos, por mais que sejam momentos ali de festividade, eu olhei os meus momentos de indivíduo, meus momentos comigo mesma e falei dá para transformar dá para pegar toda aquela dor e transformar em algo bom, dá para tirar as pessoas que eu sei que tá num caminho que não tem muita opção para ver o mundo de alguma outra forma diferente. Ter esse espaço aqui no sul, é muito bom porque eu já vi várias pessoas tendo uma outra perspectiva: “nossa, nem sabia que era assim, que o rap falava de coisas que não seja droga e ostentação”, querendo ou não, por ser uma realidade mais sofrida.

Antiga batalha da pista velha, em Sarandi. Reprodução/Foto: Batalha da Pista Velha no Facebook.
O Futuro: Sobre a criminalização, acabamos de ver em Maringá o apagamento dos grafites na VO, aqui em Sarandi no viaduto em frente a nova Havan a mesma coisa. No ano passado vimos vários políticos de expressão nacional e regional intensificando o discurso contra esse tipo de cultura, não só o rap, mas o funk, o pagodão baiano, o brega funk, enfim, várias culturas populares. Tivemos a CPI dos Pancadões em São Paulo e as diversas leis anti-oruam. Como vocês entendem esse processo de perseguição por parte do Estado? Lá na pista velha, como falaram, quando o Estado chegou foi para reprimir e extinguir o espaço coletivo. Complementando essa pergunta, desde o começo da conversa sempre é dito que “o hip-hop me salvou e ele também pode te salvar”. Esse mesmo movimento que é criminalizado é um movimento que pode te salvar. E essa mensagem, ela chega a muitas pessoas, tanto que a Sarandiru traz pessoas para praça. O que é esse sentimento em comum que vocês dois tem, que também alcança várias pessoas?
Devaneio: Acho que é uma junção do que vocês dois falaram. Às vezes a gente pega uma praça que o povo olhava e não dava nada, só via um terreno vazio ali para jogar lixo, jogar caco de vidro. Cansamos de chegar e ter que limpar a praça. Levar 30 garrafas d'água porque não tinha bebedouro. Levar ring light, levar flash porque não tinha iluminação, então fazendo o corre para dar certo, trazendo gente, tentando fazer as pessoas acreditarem no movimento e na gente, porque isso é uma parada difícil.
Enxergo como micro apagamento, porque, por exemplo, começa com uma coisa básica, chegam aqui e cortam a água. Para muitas pessoas isso não é nada, mas para nós faz muita diferença. Eles nem sabem o quanto que impacta uma coisinha dessa. Se a gente chega e tem um caco de vidro na grama vamos nos importar porque o território importa. Esse lugar importa, porque a gente sabe que vem criança brincar aqui.
Não só aqui em Sarandi, mas também como nas batalhas da VO, do Convés, a gente chega não tem água no bebedouro, ou o bebedouro está bloqueado, ou eles cortaram todas as torneiras. O policiamento também, que eles ficam rondando procurando confusão. Nunca é algo amigável, sempre é algo arbitrário. Talvez eles não entendam o quanto o espaço importa para gente, mas importa muito. Ou talvez entendam e por isso que eles fazem.
Kxin: Acredito que seja realmente isso, não um micro, mas um apagamento total. É a tentativa de uma higienização, de determinar o que é lindo, comprável e consumível. O hip hop tá vivo, ele serve para mostrar que na periferia tem vida, tem arte, mas na maioria das vezes é repressão, é perseguição, tanto velada quanto escrachada. Aqui mesmo a gente não tem uma [grande] visibilidade, mas mesmo assim acontecem, infelizmente, perseguições veladas com a desculpa de que ninguém conhecia. Então a gente resistiu.
Sofremos ataques, não de pessoas em si, mas de certas instituições. Por estar se fortalecendo na cidade, querendo manchar nossa imagem, mas acredito que, já pegando o gancho da resposta do Gabriel, a esperança de que dá para fazer, de que é muito além disso, de que a gente consegue mostrar que não é bagunça, de que é transformador, de que salva realmente e ter forças de ir se aliando. A maior força é a junção, é o coletivo que alimenta esse propósito, é o coletivo que faz com que a gente tenha força para lutar contra essa repressão e resistir também nos espaços que a gente precisa.
Devaneio: Isso que ela falou da higienização faz todo sentido, não só com nós da batalha de rima, que é marginalizado, além de criminalizado, é marginalizado. Mas do ambiente, no sentido de que eles não querem pessoas em situação de rua, eles não querem a comunidade ocupando o ambiente. Então por isso que vai cortando ali, vai cortando uma coisa na semana, outra semana eu corto outra coisa. A nossa união é o que nos mantém, como se fosse uma teia onde um tá mais fraco o outro fortalece, o outro tá mais fraco o outro fortalece, então “ninguém solta a mão de ninguém”.
Kxin: Achei muito legal você falar dessa normalização do apagamento do pixo, do grafite, porque o pixo, querendo ou não, por ser uma arte visual mais agressiva, expressiva e marcante, é lido como sujeira ou vandalismo, sendo que eles aplicam a mesma coisa no grafite, que é assinado por um edital. Por exemplo, no caso da VO foi o que aconteceu, deram a desculpa de que iria entrar outros editais, os grafiteiros se inscrevem, e na maioria das vezes é só um ciclo que se repete, que fica só naquele nicho do centro, sendo que existem vários locais culturais, da cidade, que poderiam ter essa arte, poderiam abraçar esses artistas que muitas das vezes só ter espaço.
Então é desanimador, é uma contramão do sistema continuar resistindo e fazendo arte. Eu conheço pessoas que foram presas, apanhavam e continuam resistindo, mas tendo que se manter num codinome, escondidas por denúncias tanto de pessoas que odeiam o movimento, vou colocar assim, porque não tem como não ser, mas que não veem de uma forma positiva. Pessoas que estavam ali se dizendo amigos, mas que também meio que pendem para esse outro lado.
Toda tentativa de higienização, seja na batalha de rima, seja na arte visual, seja na dança - porque tem muito isso da censura: “Ai, mas você não pode colocar esse passo porque ele é sensual”, “aí você não pode colocar esse passo porque ele é arriscado” (uma manobra de break ou de skate) - então essa segregação onde só o que é bem visto aos “bons samaritanos” é aceitável e o povo que vive e realmente enaltece, pavimenta, a cultura é deixado de lado.
O Futuro: Vocês falam bastante dessa contradição: tem a repressão do Estado, e em resposta a isso vocês vão lá e fazem mais cultura. Eles vêm e cortam as formas de vocês fazer arte, fazer movimento social, e vocês vão lá e ocupam espaço público, e lançam mais projeto cultural, é Vozes Livres, é Sarandiru, o rolê das crianças. Então, sempre que o Estado vai lá e oprime, vocês vão lá e ocupam mais espaço. Qual é a importância de sempre ocupar mais o espaço, quanto mais o Estado bate e oprime o nosso povo?
Devaneio: Mostra que essa resistência não é brincadeira. Estou estudando mais sobre cultura e eu aprendi que tradição é quando você passa as práticas sociais ou culturais, ritualísticas, simbólicas, de geração em geração. E cultura é quando isso acontece com o todo, na coletividade, na comunidade. Então sempre tivemos em mente que a Sarandiru não é o ponto de chegada, e sim o entremeio. O caminho. Não sei se para facilitar ou para agregar, mas a Sarandiru seria essa ferramenta. Eles fazem coisas para nos impedir, as artimanhas, o Estado faz qualquer artimanha para impedir a gente de fazer arte. É como se fosse um combustível para a gente alimentar mais a nossa revolta. Nós tá cansado. Nós estamos muito cansados. Vocês sabem porque vocês viram como foi difícil arrumar essa conversa. Os horários tá foda, a gente tá na correria de trampo, correria artística, de estudo. Só que nós não vamos largar a mão da Sarandiru, não vamos largar a mão da cultura urbana, marginalizada, dessas pessoas e desses artistas que precisam disso, assim como nós precisamos. Por mais que seja cansativo, desgastante, muitas vezes a gente quer desistir ou achamos que não vale a pena por não ter nenhum retorno visível, físico e imediato, mas não tem como largar. Sentimos que nascemos para fazer isso e que vamos transformar, assim como já tá transformando.
Kxin: Uma frase que o Rugal fala, que virou um grito de batalha, é assim: “mesmo se o rap doer, você precisa se doar”. Como o Deva falou, por muitas das vezes a gente se frustra por não ter uma visibilidade imediata, ou por talvez não alcançar aquele objetivo que idealizava, mas mesmo assim se sente preenchido por estar ali naquela coletividade. Porque se não existe um conjunto, para onde vai essa cultura? Então a cultura acontece se cada pecinha estiver junto.
Resistir é a forma de se manter vivo. Então, a importância de rebater com cultura mostra que estamos aqui. Querendo ou não, vendo ou não, nós estamos aqui. Se cada vez tivermos mais força, vamos nos transformar, vamos conseguir revolucionar juntos. Se nos separarmos, o propósito se perde. Porque aí eles vão pegando um por um para fazer essa retaliação e fazer essa manipulação. Cada um tem o seu corre, sua carreira, mas no coletivo você tem força para ter aquela posição. Podem tentar destruir a pista véia, podem tentar colocar a gente para rimar na rua, até porque esse é o nosso espaço. É na rua, é nos espaços não vistos que conseguimos resgatar um brilho de esperança. Resistindo conseguimos superar toda e qualquer adversidade contra o nosso movimento.
Devaneio: Uma das coisas que mais me deslumbrou no hip hop foi quando eu percebi que o hip hop eram as pessoas. Então, a união faz todo sentido quando você vê que os quatro elementos que são a base da cultura, que é o DJ, o graffiti, o b-boy, o MC, são pessoas que podem ser o que são sem o material, sem os recursos.
A importância está nas pessoas e na humanização, de entender que essas identidades acontecem fora daqui também, que essas pessoas têm uma vida, têm uma labuta delas também. É um movimento que se retroalimenta, nós não vamos ficar fazendo isso aqui para sempre. Assim como os nossos antecessores, que foram as referências que inspiraram a gente a continuar, também não estão porque seguem outros caminhos - porque vê que não dá dinheiro, ou porque precisa dedicar o trabalho, a família, aos filhos, ou porque se desanima.
Então temos essa ciência de que não vamos conseguir fazer isso para sempre, mas enquanto conseguirmos fazer, nós vamos fazer com o máximo do nosso coração e para tentar passar um legado, igual passaram para a gente.
O Futuro: Caminhando para o encerramento, queria primeiro, tanto pessoalmente, mas também em nome do nosso jornal, agradecer a vocês por falarem conosco. Queria pedir para vocês fazerem suas considerações finais, falar sobre os projetos que não deu tempo de vocês falarem, mandar um recado, enfim, o que vocês quiserem, tá aberto para vocês.
Kxin: Agradecer pela oportunidade de estarmos nos expressando, com uma voz mais séria, querendo ou não, de ter uma visão mais formada do que de tudo que tá acontecendo, de ter um espaço para falar sobre tudo que tá acontecendo.
Agradecer pela luta, de vocês querendo ou não, é uma luta, por darem vazão para muita coisa importante que passa despercebida. E resiste de uma forma tão original, eu acredito, por reviver essa essência do jornal, da leitura, então acho muito gratificante estar participando e estou muito feliz. Deixar o convite aí para o pessoal, eu sei que vai sair um pouquinho depois, mas Livre Almas da Rua, [o projeto] vem para resgatar toda essa essência de introdução ao meio do hip hop através das rimas. Ter a oportunidade de escrever e de participar de um edital foi algo muito revolucionário para minha pessoa, porque eu não botava fé que eu ia conseguir escrever duas linhas, que eu ia conseguir ler o edital. Então, o ato de participar já foi muito grandioso, de conseguir e inserir pessoas do nosso cotidiano, pessoas que estão nessa luta.
A Sarandiru, ela é o que me resgata, seja com 3, 30, 300 pessoas, ela é o que me salva. Cantar é a minha maior riqueza, é o que me mantém viva. E hoje poder mostrar para minha família que o rap que eles desacreditaram é o que me salva, tem o poder educacional, tem o poder de liberdade, é o que me faz continuar todos os dias. E ver que o espaço tá sendo cada vez mais seguro pras manas, minas e para as pessoas da comunidade LGBTQAPN+ também tá sendo incrível. Muito grata por tudo que tem acontecido até agora, por tudo que vai acontecer e eu desejo muito sucesso para o Jornal Futuro.
Devaneio: Queria complementar o agradecimento da Kxin, agradecendo esse reconhecimento que vocês tiveram, que alimenta a gente a continuar esse trabalho de formiguinha que fazemos. Às vezes a gente tá tão cansado e se pergunta se tá valendo a pena e fala: “tal pessoa voltou a rimar”, “tal pessoa começou a rimar” e “você viu como tal pessoa ficou feliz de rimar aquele dia?”.
Ver a juventude de volta na praça, fazendo arte, trocando ideias, falando sobre as suas diferenças é o que me encanta. Pessoas tão diferentes que se encontram com ideias totalmente diversas, mas que conseguem dialogar e aprender umas com as outras. E eu acho que a mensagem que fica é que Sarandi significa raiz forte, tá ligado? Significa raiz forte no tupi. Então já diz tudo, tá ligado? A raiz é forte, não vai acabar.