Greve nas maiores bases da categoria: contra o arrocho salarial e a retirada de direitos
A convergência de movimentos paredistas em estatais aponta para um momento de intensas lutas de classes no Brasil, que não está restrito a essas categorias, isoladamente, mas reflete um descontentamento mais amplo com a condução de setores fundamentais da economia pelo governo Lula.

Categoria aprova estado de greve e confirma participação em caravana e ato unificado na capital federal. Reprodução/Foto: SINTECT-SP.
Por Caio Andrade
Em meados de dezembro, sindicatos que representam os trabalhadores dos Correios nas principais bases da categoria no país — como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Ceará e Paraíba — aprovaram greve por tempo indeterminado. Em São Paulo, a decisão pela greve contrariou a orientação da direção do sindicato local, demonstrando um profundo descontentamento da base com a postura da empresa. A greve decorre de um longo impasse nas negociações do novo Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), após meses sem avanços significativos.
Os trabalhadores cobram reajuste salarial e a manutenção de benefícios históricos — como adicional de férias de 70%, pagamento de 200% nos finais de semana e a gratificação de Natal (cerca de R$ 2.500). Além disso, os trabalhadores exigem a garantia dos direitos previstos no ACT, rechaçando propostas da empresa que preveem cortes de benefícios, mudanças no plano de saúde e redução de adicionais de férias. Os ecetistas não são culpados pela crise da empresa e não aceitam ser penalizados por medidas de gestão e decisões de governos que pressionam a categoria a abrir mão de direitos conquistados ao longo de décadas.
O Tribunal Superior do Trabalho (TST), envolvido na mediação do dissídio coletivo, determinou que 80% do efetivo dos Correios deve manter-se em atividade durante a greve e restringiu a realização de piquetes nas unidades. Essa intervenção revela o caráter de classe do poder judiciário, que, com raras exceções, atua para abolir, na prática, o direito constitucional de greve.
A crise dos Correios — marcada por queda de receitas e desafios logísticos — tem sido utilizada por setores empresariais e articulistas da chamada grande mídia para promover, novamente, uma campanha aberta pela privatização da estatal.
No discurso dominante, a privatização viria como solução “técnica” para restabelecer a sustentabilidade das operações. Contudo, esse argumento desconsidera que a ECT é a única empresa com presença em todos os municípios brasileiros, garantindo serviços essenciais como entrega de cartas, encomendas, livros didáticos, materiais de exames, vacinas, medicamentos e serviços postais universais.
Enquanto isso, empresas privadas no setor de entregas, como Amazon e Mercado Livre, atuam com lógicas de mercado predatórias, focadas no lucro rápido, com regimes de trabalho extenuantes e ausência de compromisso com os direitos trabalhistas e com a universalização do serviço. As experiências de privatizações em outros setores (como saneamento e energia) indicam aumento dos custos para a população e aprofundamento das desigualdades, além de qualidade questionável.
Cabe ressaltar que, no mesmo período em que os ecetistas deflagraram greve, os trabalhadores da Petrobras — outra categoria estratégica no Brasil — também entraram em greve por tempo indeterminado, em mobilização iniciada em 15 de dezembro de 2025, em defesa de suas negociações coletivas, melhores condições de trabalho e contra os ataques aos seus direitos.
A convergência de movimentos paredistas em estatais aponta para um momento de intensas lutas de classes no Brasil, que não está restrito a essas categorias, isoladamente, mas reflete um descontentamento mais amplo com a condução de setores fundamentais da economia pelo governo Lula.
A mobilização dos trabalhadores dos Correios e dos petroleiros assume um sentido crucial na atual conjuntura, reafirmando a luta sindical em categorias estratégicas, questionando o arrocho salarial e a retirada de direitos, defendendo serviços universais e a soberania nacional e construindo uma poderosa trincheira de resistência aos ataques neoliberais.