Fórum OVALE de Mobilidade: O futuro da mobilidade decidido por quem não anda de ônibus

Realizado em dezembro de 2025, em São José dos Campos (SP), apesar do discurso sofisticado, os problemas estruturais do transporte público simplesmente não entraram em pauta.

2 de Janeiro de 2026 às 20h55

Fórum OVALE de Mobilidade. Reprodução/Foto: PMSJC.

Por Bertolucci

No dia 2 de dezembro, São José dos Campos sediou o 1º Fórum OVALE de Mobilidade Urbana, promovido pelo jornal OVALE no Teatro Colinas, dentro de um shopping localizado em um dos bairros mais nobres da cidade. O local não é um detalhe neutro: ele já revela para quem o debate foi pensado — e, principalmente, quem ficou de fora.

Enquanto milhares de trabalhadores enfrentam diariamente ônibus superlotados, longos períodos de espera, insegurança e casos recorrentes de assédio, o fórum reuniu autoridades, CEOs, representantes de OSCs (Organizações da Sociedade Civil) e especialistas para falar sobre o “futuro da mobilidade”, com foco em novas tecnologias, inteligência artificial, veículos autônomos, carros voadores e, claro, os já famosos ônibus elétricos.

O problema é que, apesar do discurso sofisticado, os problemas estruturais do transporte público simplesmente não entraram em pauta.

O evento foi apresentado como um “amplo debate”, mas sem a presença de usuários do transporte coletivo, nenhum movimento popular, sindicato ou organização que luta por tarifa zero teve espaço de fala. A mobilidade foi tratada como vitrine tecnológica e oportunidade de negócios — não como direito social básico.

O painel de encerramento, intitulado “São José dos Campos, a capital do ônibus elétrico”, deixou evidente o caráter publicitário e eleitoral do fórum. O ônibus elétrico aparece como símbolo de modernidade e sustentabilidade, ajudando a reconstruir a imagem do prefeito Anderson Farias, mas sem enfrentar o que realmente faz o sistema adoecer.

A chamada “nova frota elétrica”, amplamente divulgada pela prefeitura, prevê um aumento irrisório de apenas 2% no número de ônibus em circulação. Na prática, isso significa que a superlotação continuará sendo regra, os intervalos longos não serão reduzidos e o cotidiano de quem depende do transporte coletivo seguirá marcado por atraso, desconforto e insegurança.

Esse ponto é central porque desmonta a narrativa oficial: não falta tecnologia, faltam ônibus nas ruas. Ainda mais grave foi o silêncio absoluto sobre o modelo de financiamento do transporte público. Em São José dos Campos, como em grande parte do país, as empresas operam sob o modelo do IPK (Índice de Passageiros por Quilômetro). Isso significa que ônibus cheios rendem mais lucro, criando um incentivo direto para reduzir frota, alongar intervalos e concentrar passageiros.

Não se trata de má gestão ou incompetência: a superlotação é parte do modelo de negócio. E justamente por isso esse tema foi cuidadosamente evitado no fórum.

Outro debate ausente foi o da tarifa zero, hoje uma das principais discussões nacionais sobre mobilidade urbana. Em várias cidades brasileiras, experiências mostram que tratar o transporte como política pública — financiada coletivamente, como saúde e educação — melhora o serviço e amplia o acesso à cidade. No entanto, no Fórum OVALE, esse tema sequer foi mencionado, evidenciando a falta de interesse da prefeitura em aliviar o peso da tarifa no bolso de quem trabalha.

O contraste é gritante: enquanto se fala em carros voadores dentro de um teatro em shopping de luxo, o trabalhador espera 30 ou 40 minutos por um ônibus lotado, chega atrasado e viaja espremido, muitas vezes em situação de risco.

O Fórum OVALE não foi um espaço de escuta popular. Foi um evento de legitimação política, travestido de debate técnico, que evita enfrentar os interesses das empresas de ônibus e naturaliza um sistema que lucra com o sofrimento cotidiano da população.

Sem enfrentar o modelo de concessões privadas, sem romper com o IPK, sem ampliar de fato a frota e sem discutir a tarifa zero, nenhuma inovação tecnológica será capaz de garantir mobilidade digna.