Marcha da Classe Trabalhadora ou palanque para Lula se reeleger?
Como admitido pelas lideranças das centrais, o documento unitário entregue ao governo sequer foi aberto ao debate real dos trabalhadores, sendo votado apenas por aclamação em um evento pontual.

Foto: Paulo José / Jornal O Futuro.
Por Rhuan Maciel
No dia 15 de abril de 2026, a capital federal foi palco da autoproclamada "Marcha da Classe Trabalhadora", mobilização orquestrada pelas maiores centrais sindicais do país com o intuito de apresentar a pauta da chamada Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (CONCLAT) 2026 ao presidente Lula. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) celebrou o evento como um estrondoso sucesso, afirmando que a voz dos trabalhadores ecoou nos corredores do poder governamental. Contudo, uma simples análise já revela que a marcha foi, na realidade, um ato puramente simbólico, desprovido de construção orgânica junto às bases, e desenhado para servir de vitrine política ao governo.
A cúpula sindical formatou a CONCLAT de 2026 de maneira fechada, vertical e apenas com roupagem democrática. Como admitido pelas próprias lideranças das centrais, o documento unitário entregue ao governo sequer foi aberto ao debate real dos trabalhadores, sendo votado apenas por aclamação em um evento pontual, com apenas falas de parlamentares e lideranças das centrais. Um óbvio palanque para o governo e que careceu de qualquer conteúdo real que não seja endossar o petismo e suas consequências nefastas para a população brasileira.
Diante dessa manobra, surgem críticas à CONCLAT que resgatam a necessidade de se construir um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora (ENCLAT), uma tática que, historicamente, nós mesmos defendíamos nas fileiras do PCB, já que existe a urgência de reorganizar o movimento sindical brasileiro e essa bandeira foi apresentada como um caminho para construir a solução de diversos problemas que as entidades sindicais sofrem nos dias de hoje. Hoje, o PCBR, a partir do aprofundamento de seu processo de reconstrução revolucionária, avalia essa nossa antiga formulação com uma necessária autocrítica. A experiência histórica nos mostra que a tentativa de construção do ENCLAT encontrou limitações objetivas difíceis de transpor, muitas vezes esbarrando em um frentismo errático e na expectativa ilusória de que seria possível viabilizá-lo por meio de acordos com as lideranças sindicais reformistas.
Apesar da defesa desse encontro poder ser, em algumas conjunturas, um passo adiante na organização da luta, o que nos deparamos hoje é com bases extremamente desmobilizadas, sindicatos apartados da vida orgânica de suas categorias, concepções sindicais que defendem um apassivamento dos trabalhadores e a lógica predominante de conciliar acordos comuns entre as partes (Estado, capital e força de trabalho). Tudo isso demonstra a insuficiência de que bastaria organizarmos um grande encontro para sair desse gigantesco lamaçal e aponta que os desafios serão muito mais profundos. O que não quer dizer que, em um outro contexto, com sindicatos fortes e dirigidos organicamente pelas suas bases, com setores estratégicos do proletariado muito bem amparados por uma política de independência, com um partido comunista bem estruturado e capaz de dirigir e coesionar as diferentes lutas contra a burguesia, não seja positivo organizar um encontro que debata os problemas nacionais e internacionais e tenha um caminho muito claro a ser seguido pela classe trabalhadora.
Também, compreendemos que a proposta enfrentou dificuldades crônicas em definir seus objetivos finais - seja a formação de uma nova central, de uma frente, ou apenas uma unidade pontual - e em se enraizar nas dinâmicas locais, o que acabou dificultando sua real mobilização frente às bases. Acreditamos que é preciso dar um passo além, superando definitivamente qualquer resquício de fé de que a reorganização da classe virá da ação ou da influência sob as cúpulas e burocracias das atuais centrais sindicais.
A própria marcha expressa muito bem as barreiras e o pântano que se encontra o movimento sindical hoje em dia. Demonstração clara de que só é possível um caminho vitorioso, se os comunistas retomarem às disputas nos sindicatos com um programa claro que oriente a construção de uma política classista e independente em todo o país, sem qualquer ilusão das dificuldades dessa árdua tarefa, e que articule as diversas lutas contra o capital.
O caráter dessa marcha fica evidente na pauta rebaixada que as centrais aceitaram endossar. Durante a organização do evento, a CUT, em consonância com todo o campo governista, informou que o governo Lula pretende anunciar o fim da escala 6x1 acompanhado de uma jornada de 40 horas semanais, justificando que uma redução maior "não seria possível" devido à correlação de forças no Congresso. Isso representa uma profunda capitulação e o rebaixamento das bandeiras históricas do proletariado. Fica nítido que a luta pelo fim da escala 6x1 está sendo capitulada pelas forças oportunistas para fins puramente eleitoreiros.
As centrais sindicais não construíram a jornada de lutas que se apresentou possível em 15 de novembro de 2024, quando insurgiram vários atos ao longo do país e um horizonte claro de mobilização. Em vez de organizar o ascenso espontâneo das massas para forçar avanços, essas cúpulas atuaram como correias de transmissão para apassivar a população. Com uma ofensiva verdadeira e presença permanente nas ruas, seria plenamente possível tensionar o capital e impor uma vitória real à burguesia, e não aceitar essa proposta rebaixada sustentada na velha desculpa da correlação de forças.
Enquanto as centrais sindicais e as organizações reformistas aplaudem concessões mínimas e atuam para manter a hegemonia do campo governista frente à classe trabalhadora, o PCBR se mantém firme em seu programa: nossa luta é pela redução da jornada de trabalho para o limite de 30 horas semanais e a garantia de escala 4x3 (três dias de descanso a cada quatro trabalhados), sem qualquer redução salarial. Aceitar a demagogia das 40 horas semanais é abdicar de tensionar as contradições do capital em favor da manutenção da governabilidade burguesa.
Não podemos depositar esperanças em governos que se escamoteiam sob discursos progressistas, nem nas cúpulas sindicais que atuam como seus fiadores. A fragmentação e a desorganização da classe trabalhadora brasileira são frutos diretos de anos de hegemonia da conciliação, que rebaixou nosso processo de lutas e retirou do horizonte a estratégia de superação da sociedade de classes.
A tarefa que se impõe aos comunistas e à vanguarda da classe trabalhadora não é fazer número em marchas de projetos de governo. Nossa tarefa é reorganizar o movimento sindical sob uma perspectiva classista e independente, isolando a burocracia sindical reformista através de um efetivo trabalho de oposição combativa. Somente rompendo com as ilusões nos velhos fóruns e enraizando a luta diretamente nos setores estratégicos da produção seremos capazes de forjar uma força política que não mendigue migalhas ao Estado burguês, mas que marche de forma independente rumo à expropriação dos capitalistas e à construção do Poder Popular.