Campanha Salarial Bancária: uma década sem greve nacional e a necessidade de reorganizar a luta

A categoria bancária inicia mais uma campanha salarial diante de um cenário marcado por lucros bilionários dos bancos, intensificação da exploração e crescente adoecimento. É possível enfrentar essa ofensiva mantendo a mesma tática sindical que predominou nas últimas décadas?

18 de Agosto de 2026 às 17h00

Por Rhuan Maciel

Após dez anos sem uma greve nacional unificada, a categoria bancária inicia mais uma campanha salarial diante de um cenário marcado por lucros bilionários dos bancos, intensificação da exploração e crescente adoecimento. A experiência acumulada nesse período coloca uma questão central: é possível enfrentar essa ofensiva mantendo a mesma tática sindical que predominou nas últimas décadas?

A Campanha Salarial de 2026 acontece depois de um longo período de paralisia. Nesses últimos anos, os bancos aprofundaram reestruturações, reduzindo postos de trabalho, fechando agências e ampliando o controle sobre os trabalhadores. 

Enquanto isso, os lucros do capital financeiro seguiram crescendo. Apenas os quatro maiores bancos do país encerraram 2024 com lucro líquido superior a R$ 108 bilhões. Essa riqueza, somente possível de existir com o trabalho da categoria, não se converteu em melhores salários nem em melhores condições de trabalho. Pelo contrário, vieram novas demissões, sobrecarga laboral, aumento das metas e maior pressão por produtividade.

O resultado é visível no cotidiano das agências e diretorias. Crescem os casos de adoecimento mental relacionados ao trabalho, impulsionados pelo assédio moral, pelas metas, pelo medo do descomissionamento e pela insegurança permanente diante das reestruturações. Ao mesmo tempo, parcelas cada vez maiores da remuneração passam a depender de verbas variáveis, como a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), aprofundando a defasagem do salário fixo.

Foi justamente esse processo que se expressou de forma mais evidente na Campanha Salarial de 2024, que sintetizou os limites da tática adotada pela direção majoritária da categoria, a CONTRAF-CUT.

Naquele ano, a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), entidade que reúne os sindicatos patronais, apresentou uma proposta de reajuste de 4,64%, correspondente a menos de 1% de aumento real. Mesmo diante do descontentamento da base, o Comando Nacional, responsável nas tratativas pelos bancários, encerrou as negociações e pressionou para que suas bases aprovassem o acordo. 

A resposta dos trabalhadores, entretanto, mostrou outra realidade. Em aproximadamente 19 estados a proposta foi rejeitada em assembleias, e mais de dez estados chegaram a deflagrar greves ou paralisações, entre eles Bahia, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Rio de Janeiro, Acre e Amazonas. Entre esses estados, destacou-se a Bahia, onde a greve foi impulsionada apesar da resistência da direção sindical. Nesse processo, o PCBR cumpriu um importante papel na organização e direcionamento.

Essas mobilizações demonstraram que existia disposição de enfrentamento pela categoria. Porém, sem uma coordenação nacional capaz de unificá-las, sem a adesão em bases tão importantes como São Paulo, Brasília e Minas Gerais, permaneceram isoladas e sofrendo retaliações pelos banqueiros, inclusive retirando a PLR diretamente da conta dos bancários nessas localidades. A direção da CONTRAF-CUT manteve a política de priorizar negociações apartadas do movimento real dos trabalhadores e encerrou a campanha com um acordo rebaixado.

Apesar da derrota, a experiência de 2024 deixou uma lição importante: existe disposição suficiente na base, mas isso não é suficiente. Sem uma organização a nível nacional e sem uma tática acertada voltada para a mobilização, as iniciativas locais tendem a ser derrotadas e não conseguem alterar a correlação de forças.

A preparação da Campanha Salarial de 2026 tem sido acompanhada por um processo de debates entre sindicatos, oposições bancárias e associações de trabalhadores.

No Encontro Nacional das Oposições Bancárias, realizado em Brasília nos dias 4 e 5 de julho e noticiado na Edição 23 do Jornal O Futuro, foram discutidos os caminhos para consolidar uma atuação nacional e reconstruir uma alternativa de organização. Um dos principais debates envolveu a proposta de criação da Federação Nacional dos Bancários (FNB), com a participação central dos três sindicatos de oposição à CONTRAF-CUT. Parte dos envolvidos defendeu que a nova entidade organizasse uma mesa própria de negociação com a Fenaban. Entretanto, o PCBR entende que esse instrumento deve servir para articular as oposições e fortalecer a disputa política junto ao conjunto da categoria, evitando aprofundar sua fragmentação e lutando pela conquista das localidades que estão à mercê da política da CUT. Além desse debate, o encontro também discutiu quais deveriam ser os eixos políticos da campanha salarial.

Nesse sentido, aprofundamos o entendimento de que a luta central deve ser em torno da disputa pelo salário, com o objetivo de incorporar as parcelas variáveis e reduzir a dependência dos trabalhadores em dispositivos de controle e critérios do banco. Assim como da necessidade de estarmos realmente municiados com a capacidade de fazer greve, pois nenhum banqueiro entregará qualquer concessão sem uma ameaça concreta e um enfrentamento claro.

Diante desse cenário, a Campanha Salarial de 2026 precisa recolocar no centro das reivindicações as principais demandas da categoria, mas não como uma simples pauta de negociação. Em primeiro lugar, a luta pela recuperação dos salários, com um reajuste de 35% capaz de recompor várias das perdas acumuladas nas últimas três décadas e a defesa de um piso salarial de 7.999,44 reais, que foi o valor aprovado pelo conjunto dos bancários na Conferência Nacional, reafirmando que a remuneração é uma das principais reivindicações. É necessário erguer bandeiras capazes de dialogar com a realidade concreta dos bancários, a recuperação das perdas salariais, a valorização do salário fixo, a defesa da jornada de seis horas, o fim das metas, a proibição das demissões sem justa causa e o fim da terceirização, transformando essas reivindicações em instrumentos de mobilização e organização coletiva.

A própria história dos bancários demonstra esse caminho. Na greve de 1932, bancários lutavam por uma jornada de seis horas diárias, num contexto em que se enfrentava um grande adoecimento provocado pelas longas jornadas de trabalho. A conquista veio no ano seguinte, mas a luta não terminou ali. Novas greves nacionais, entre 1961 e 1963, garantiram o fim do trabalho aos sábados e consolidaram a jornada semanal de 30 horas, posteriormente incorporada à legislação trabalhista. Em 1985, os empregados da Caixa Econômica Federal conseguiram terminar com a distinção de economiários e bancários, onde realizaram uma greve nacional e conquistaram também a redução da jornada. Esses direitos, que hoje se apresentam consolidados, foram frutos de sucessivas mobilizações ao longo de mais de meio século.

A experiência acumulada pela categoria demonstra que nenhuma conquista relevante foi resultado da boa vontade dos banqueiros ou da habilidade das mesas de negociação. Os avanços históricos sempre estiveram ligados à capacidade dos trabalhadores de construir grandes mobilizações nacionais e utilizar a greve como principal instrumento de pressão. Sem paralisações capazes de afetar o funcionamento do sistema financeiro, os bancos preservam ampla margem para impor sua agenda e aprofundar a exploração do trabalho.

A campanha salarial, portanto, precisa ir além da apresentação de uma lista de reivindicações. A luta por salários, jornada, melhores condições de trabalho e estabilidade evidencia, na prática, que os interesses dos bancários são incompatíveis com os dos banqueiros. Quanto mais a categoria se organiza para defender seus direitos, mais se revela que eles se chocam com a busca permanente dos bancos por ampliar seus lucros.

Reconstruir a organização pela base e retomar a greve nacional significa, portanto, criar as condições para conquistar melhorias imediatas na vida da categoria e fortalecer sua capacidade de enfrentar a ofensiva patronal. Ao mesmo tempo, é por meio dessa experiência concreta de luta que se apresenta aos trabalhadores, de forma clara, a verdadeira contradição insolúvel de interesses e que a emancipação definitiva exige superar a sociedade dividida entre exploradores e explorados.