EDITORIAL: Um ano novo de velhos problemas
Entramos em 2026 lidando com problemas que conhecemos há décadas e a generalização da violência na sociedade tem sua origem na luta de classes, e é vista também no plano internacional nos conflitos crescentes entre países, prelúdio para uma guerra imperialista generalizada.

Foto: Jornal O Futuro.
O Brasil observou, nos últimos quarenta anos, um avanço a passos largos da institucionalização da política, em todos os âmbitos. A transição conservadora e tutelada à democracia foi o marco dos conturbados anos 1980, cujo acabamento foi dado na década seguinte, na consolidação do desmonte do Estado “social” pactuado na Constituinte de 1988 — daí as privatizações, a financeirização da economia e o combate frontal ao sindicalismo nos governos FHC. Os governos petistas, nos anos 2000, semearam a ilusão de um ciclo glorioso, especialmente na economia, beneficiada por fatores conjunturais no plano internacional (“boom” das commodities); entregaram, porém, a consolidação de um sindicalismo oportunista e burocrático (o tal do sindicalismo “de resultado”), o aparelhamento do movimento estudantil na UNE, uma política crescente de encarceramento em massa, a explosão da crise urbana — muito por conta dos Megaeventos —, além da maior crise econômica da histórica, cujos impactos são sentidos até hoje, visto que as Reformas da Previdência e Trabalhista seguem vigentes.
Entramos em 2026 lidando com problemas que conhecemos há décadas.
O ano passado se encerrou com a maior chacina da história do país, no Rio de Janeiro, proclamada como “combate” ao crime organizado. Mas vejam que o Comando Vermelho surgiu ainda na ditadura empresarial-militar, como organização formada para sobrevivência dos detentos do presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, chamado de “caldeirão do inferno”. Vejam também que o Primeiro Comando da Capital surgiu também em um presídio, o Carandiru, em São Paulo. E enquanto a política de segurança pública brasileira for a guerra contra a pobreza através da militarização ilimitada das polícias, a violência generalizada seguirá sendo a norma e a realidade. Afinal, as armas do crime organizado vem do Estado, uma retroalimenta o outro.
A pobreza é fator diretamente responsável pelo crescimento da violência social generalizada. A pobreza alimenta as fileiras tanto da polícia quanto do tráfico. A pobreza e a violência de nossas capitais são, dentre outros fatores, fruto de uma urbanização descontrolada fundamentada na segregação social e racial, chamada “favelização”, do afluxo de migrantes nas grandes metrópoles, com os casos particulares de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília funcionando como “modelo” de uma perversa máquina social. Também se trata de um legado da ditadura empresarial-militar.
A violência generalizada não é combatida com o endurecimento penal, ainda que seja, por vezes, uma demanda popular. Prova disso é que já vivemos mais de dez anos da Lei do Feminicídio, de 2015, e vinte anos da Lei Maria da Penha, de 2006, ainda assim, os casos de violência contra a mulher crescem dia após dia. Cria-se, com isso, uma espécie mórbida de mercado de notícias pelo qual veículos jornalísticos lucram, em visualizações e compartilhamentos, com vídeos de mulheres sendo espancadas e mortas, cotidianamente — o que apenas aumenta o medo e pânico social, gerando mais clamor por endurecimento penal, que, por sua vez, retroalimenta a generalização da violência na sociedade.
Entramos em 2026 lidando com problemas que conhecemos há décadas e a generalização da violência na sociedade tem sua origem na luta de classes, e é vista também no plano internacional nos conflitos crescentes entre países, prelúdio para uma guerra imperialista generalizada. Frente a uma esquerda que, de governismo em governismo, apenas entregou os mesmo problemas que bem conhecemos, a nossa política só pode ser a independência de classe do proletariado e o combate classista ao oportunismo.