Mesa diretora do SINTUPERJ abandona assembleia, mas não impede a luta dos trabalhadores

O episódio expõe uma contradição incomoda: em um cenário de avanço da precarização, com perdas salariais acumuladas, benefícios suspensos e condições de trabalho deterioradas, coube à base, não à direção sindical, protagonizar a pressão pela pauta de greve.

2 de Abril de 2026 às 15h00

Reprodução/Foto: SINTUPERJ.

No último dia 24 de março de 2026, o Campus Maracanã da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) sediou uma assembleia da categoria dos técnicos administrativos. Convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (SINTUPERJ), entidade que representa o segmento na instituição, a assembleia teve como pauta única “Avaliação do Estado de Greve”,

Os servidores compareceram em grande número e lotaram o auditório 11, evidenciado pelos próprios trabalhadores como “a assembleia mais lotada desde 2016”, fato interpretado por observadores como um indicativo da insatisfação coletiva diante das condições de trabalho consideradas precárias e da disposição da categoria para mobilizações. Entre as principais reivindicações estão o pagamento dos auxílios saúde e educação, a reativação dos triênios, a aprovação do plano de cargos e salários e a recomposição salarial — cujo atraso, segundo os técnicos, ultrapassa quatro anos amplificando a defasagem salarial.

A mesa diretora do SINTUPERJ (PCdoB), dias antes da assembleia, postou um vídeo em suas redes sociais com tom autoritário a despeito da responsabilidade de deflagração do Estado de Greve ser apenas da direção do sindicato e não do conjunto dos técnicos-administrativos de educação (TAE’s) da UERJ. Em resposta a isso, manifestações de repúdio às falas da mesa diretora foram feitas ainda nos informes da assembleia, neste momento já estava claro que não havia responsabilidade da gestão eleita do sindicato com a sua base e a situação orçamentária da UERJ.

Portanto, assim como na assembleia anterior, a condução da reunião gerou polêmica. Mesmo após todas as falas da pauta “avaliação do Estado de Greve” serem intencionadas à deflagração do estado de greve, menos as da mesa diretora, a direção do sindicato optou por abandonar a assembleia e não votar ali pelos interesses dos trabalhadores. A justificativa apresentada pelos representantes do SINTUPERJ foi a de que não haveria “conjuntura favorável” para uma paralisação, diante da renúncia do governador Cláudio Castro (PL), assim “não havendo a quem cobrar”.

Já havia sido organizado por organizações sindicais e setores do movimento estudantil, que a União da Juventude Comunista (UJC) pôde participar, um abaixo-assinado com mais de mil adesões favoráveis à deflagração da greve — número que, segundo os servidores, atende ao percentual mínimo de filiados exigido pelo estatuto do SINTUPERJ para que a votação pudesse ser realizada. Contudo, a direção do sindicato se recusou, ainda no auditório, a receber o documento.

Diante do impasse, os trabalhadores deixaram o auditório e se dirigiram em bloco até a sede do SINTUPERJ para a entrega do abaixo-assinado, exigindo a realização da assembleia deliberativa sobre a greve. Sob pressão, o documento foi conferido, e as assinaturas foram contadas uma a uma, diante dos servidores, que asseguraram ter mantido cópia do material. Com a confirmação do atingimento da meta mínima estatutária, o sindicato passa a ter um prazo de até 72 horas para convocar nova assembleia destinada à votação da paralisação.

O episódio expõe uma contradição incomoda: em um cenário de avanço da precarização, com perdas salariais acumuladas, benefícios suspensos e condições de trabalho deterioradas, coube à base, não à direção sindical, protagonizar a pressão pela pauta de greve. Ao se furtar do debate e abandonar a assembleia — mesmo diante de um abaixo assinado que já atendia às exigências estatutárias — o SINTUPERJ não apenas frustrou a expectativa de seus representados, como também colocou em xeque o papel de uma entidade que tem na autonomia e na defesa intransigente da categoria seus princípios fundamentais. Para os técnicos que lotaram o auditório, o recado foi claro: a representação sindical não pode, sob nenhuma justificativa, transformar a luta dos servidores em obstáculo a ser contornado. Resta agora aguardar a marcação da assembleia deliberativa que será convocada dentro do prazo regimental e garantir que o sindicato execute e cumpra com sua função.