Metroviários do DF pressionam por investimentos e mantêm ameaça de greve diante de sucateamento do sistema

Os metroviários do Distrito Federal intensificaram a mobilização por melhorias no sistema e cobram investimentos urgentes, denunciando um processo contínuo de precarização.

29 de Abril de 2026 às 20h40

Reprodução/Foto: Poder 360.

Os metroviários do Distrito Federal intensificaram a mobilização por melhorias no sistema e cobram investimentos urgentes, denunciando um processo contínuo de precarização. O sistema sofre com superlotação, atrasos frequentes e falhas operacionais como problemas recorrentes, além de episódios mais graves, como incêndios e descarrilamentos.

Atualmente, dos 32 trens do Metrô-DF, 11 estão sem qualquer condição de operação e são utilizados para reposição de peças. Dos 21 restantes, parte passa por manutenção periódica, o que reduz para cerca de 16 o número de trens em circulação nos horários de pico e compromete diretamente o atendimento à população.

A situação é agravada por falhas no sistema elétrico. Em 2023, a falta de manutenção em uma subestação retificadora resultou em um acidente com funcionários eletrocutados. Para a categoria, os problemas não decorrem apenas de falhas de gestão, mas de um projeto político de sucateamento com vistas à privatização do serviço, como constantemente reforçado pelo ex-governador Ibaneis Rocha, que deixou o cargo para concorrer ao senado.

Além da frota reduzida, o déficit de funcionários é apontado como crítico. O último concurso público, realizado em 2013, já apresentava defasagem de 299 trabalhadores. Hoje, os metroviários reivindicam um novo certame que, no mínimo, recomponha esse quadro — considerado ainda mais urgente após a construção de novas estações.

A escassez de pessoal tem provocado sobrecarga nas estações. Segundo relatos, funções que deveriam ser desempenhadas por até cinco trabalhadores acabam concentradas em um único funcionário, responsável por atendimento ao público, apoio a pessoas com deficiência, resposta a emergências e outras demandas operacionais. A situação impacta inclusive necessidades básicas, como pausas para ir ao banheiro.

Outra queixa recorrente é o não pagamento de horas extras. Os trabalhadores são frequentemente convocados a atuar em dias de folga, como domingos e feriados, recebendo como compensação novas folgas que muitas vezes não conseguem usufruir, por falta de pessoal.

Segundo Amanda Souza, diretora do Sindimetrô-DF, o resultado é um quadro de adoecimento: cerca de 80% dos afastamentos estão relacionados a problemas psicológicos, agravados pelo temor constante de privatização e ameaça dos empregos. Ela também destaca que a sobrecarga imposta aos funcionários compromete tanto a saúde dos trabalhadores quanto a qualidade do serviço prestado. “Não é possível sair da negociação sem a garantia de um novo concurso público. Se for necessário, entramos em greve”, afirmou.

Diante da falta de respostas concretas, os metroviários realizaram assembleia em 24 de março e aprovaram greve a partir do dia 30 do mesmo mês. Após a mobilização, o Metrô-DF apresentou proposta de realização de concurso público, ainda sem autorização do Governo do Distrito Federal. Em 27 de março, o Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região passou a mediar as negociações, levando à suspensão da greve até 30 de abril.

Enquanto as negociações seguem sob mediação judicial, a possibilidade de paralisação permanece, condicionada ao avanço das reivindicações dos trabalhadores.

Articulação nacional amplia pressão

A mobilização no DF se insere em um movimento nacional. Em abril, sindicatos de metroviários de Minas Gerais, Distrito Federal, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul se reuniram em Brasília para discutir estratégias conjuntas, com agenda junto aos poderes Executivo e Legislativo.

Os representantes destacam problemas semelhantes em diferentes estados, como risco de privatização e impactos negativos de concessões já realizadas. Durante a agenda, também relataram dificuldades de diálogo direto com autoridades federais, como o Ministro Guilherme Boulos.

Ana Paula Almada, diretora do Sindimetrô-RS, defendeu maior unidade entre os trabalhadores: “Nossa luta é a mesma, contra as políticas neoliberais que massacram a classe trabalhadora. É preciso fazer a luta enquanto classe, mas acabamos nos dividindo enquanto categorias”. Ela também criticou políticas de diferentes governos, afirmando que medidas de caráter privatista não se restringem a gestões de extrema-direita, citando a recente iniciativa do Governo Lula de privatizar rios na Amazônia.

Privatização em Belo Horizonte piorou o serviço

A privatização do metrô de Belo Horizonte, concluída em 2022, foi apontada como exemplo negativo. O sistema foi vendido por apenas 25,7 milhões de reais, valor que não é suficiente para custear um único trem, enquanto recebeu 3,2 bilhões em aportes públicos, evidenciando que o problema não é falta de recursos estatais, mas de prioridade política.

Daniel Glória, secretário do Sindimetro-MG, relatou que após a concessão houve um aumento vertiginoso da tarifa, com redução do número de vagões e maior lotação, mostrando que a transferência de recursos públicos ao setor privado não garantem a melhoria do serviço — pelo contrário, geram precarização com a finalidade de maximizar os lucros privados.

Tarifa zero

A defesa da tarifa zero também ganhou espaço nas discussões. O urbanista Paíque Santarém, do Movimento Passe Livre, destacou a importância de um transporte gratuito sob controle público e da organização popular para conquistá-lo: “Não podemos depender das eleições para garantir nossos direitos”.

A proposta é apoiada por metroviários. Amanda reforçou a posição da categoria: “Tem que ser do serviço público, senão vai ser simplesmente transferência de dinheiro público pro bolso do empresário, garantindo inclusive o lucro”.