Fronteira amazônica entre Brasil e Venezuela concentra tensões geopolíticas, fluxo migratório e resistência indígena

Pacaraima, principal porta terrestre entre os dois países, convive com impactos de crises internacionais, enquanto povos indígenas da Amazônia venezuelana denunciam violações de direitos e defendem soberania e autodeterminação.

28 de Fevereiro de 2026 às 15h00

Reprodução/Foto: International Organization for Migration (OIM).

Por Carolina Mello e Kauana Niz

Localizado a 215 quilômetros de Boa Vista, o município de Pacaraima, em Roraima, ocupa uma posição estratégica na Amazônia brasileira ao fazer fronteira direta com a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén, no estado de Bolívar. Ligados pela rodovia BR-174, Brasil e Venezuela compartilham nessa região um dos principais corredores terrestres de circulação de pessoas, mercadorias e combustíveis, marcado por intenso fluxo migratório, presença constante das forças de segurança e forte relevância geopolítica.

Pacaraima é hoje o principal ponto de entrada terrestre entre os dois países. A fronteira, que normalmente funciona de forma contínua, teve sua rotina abruptamente interrompida no dia 3 de janeiro de 2026, quando foi fechada entre 3h e 13h30, em meio aos desdobramentos do ataque dos Estados Unidos a Caracas e ao sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. Após a reabertura, o tráfego de pessoas e veículos foi restabelecido, mas o episódio reacendeu alertas sobre a instabilidade regional.

O governador de Roraima, Antonio Denarium, e o prefeito de Pacaraima, Waldery D’Ávila, manifestaram profunda preocupação com os impactos do ataque estadunidense à capital venezuelana, temendo reflexos diretos na fronteira e no cotidiano da população local.

Essa apreensão encontra respaldo na experiência recente da região. Roraima e, especialmente, Pacaraima sentiram de forma intensa os efeitos do fluxo migratório venezuelano iniciado ainda na década passada, em decorrência da crise econômica agravada pelas sanções impostas durante o primeiro mandato de Donald Trump.

Nos primeiros oito meses de 2016, pouco mais de 600 venezuelanos haviam migrado para o estado, segundo o Conselho Nacional para os Refugiados. Em 2018, uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de Roraima discutiu os impactos do alto fluxo de venezuelanos que, segundo diagnóstico apresentado na sessão parlamentar, estava sobrecarregando a saúde, educação e segurança pública.

Entre janeiro e agosto de 2024, o número de refugiados venezuelanos no país saltou para mais de 60 mil pessoas, uma média de 250 entradas diárias, conforme dados da UNICEF. Até novembro de 2025, de acordo com a Plataforma R4V, que reúne informações de agências da ONU e organizações da sociedade civil, o Brasil abrigava 732.272 refugiados e migrantes venezuelanos.

Como resposta a esse fluxo concentrado em Pacaraima, o governo federal criou em 2018 a Operação Acolhida, considerada a maior ação humanitária de recepção de migrantes da história do país, que já atendeu mais de 1 milhão de pessoas e segue em funcionamento.

Embora concebida como uma força-tarefa para recepcionar refugiados, organizar o fluxo e promover a interiorização, a operação enfrenta desafios estruturais e críticas quanto à sua capacidade de garantir, de forma plena, integração social, acesso a direitos e condições dignas de vida aos migrantes, especialmente nas cidades fronteiriças.

Reprodução/Foto: International Organization for Migration (OIM).

A Amazônia venezuelana e as populações indígenas do país

Do outro lado da fronteira, a situação dos povos indígenas na Amazônia venezuelana acrescenta uma camada adicional de complexidade ao cenário. A Amazônia da Venezuela corresponde a cerca de 5,6% a 6% da Amazônia internacional e cobre aproximadamente metade do território do país, abrangendo principalmente os estados de Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro.

Segundo o relatório The Indigenous World 2025, do Grupo de Trabalho Internacional para Assuntos Indígenas (IWGIA), vivem na Venezuela cerca de 700 mil indígenas, o equivalente a aproximadamente 3% da população nacional. São 51 povos distintos, concentrados majoritariamente na região amazônica, embora também estejam presentes, em menor escala, em estados como Zulia, Apure, Lara, Guárico, Monagas e Sucre - muitos deles situados em áreas de fronteira, evidenciando um histórico processo de expulsão dos povos originários das regiões centrais do país.

Essas populações enfrentam uma combinação de condições adversas: acesso limitado à saúde, alimentação e educação, além dos impactos diretos da mineração ilegal e de outras atividades extrativistas em seus territórios. Nos estados do Amazonas e Bolívar, a presença de grupos armados ilegais ligados ao garimpo tem provocado destruição ambiental, perda de territórios ancestrais e uma escalada de ameaças, ataques e assédios contra lideranças indígenas.

A deterioração das condições de vida também tem levado ao recrutamento forçado ou involuntário de indígenas para atividades ilegais, alterando profundamente a dinâmica social das comunidades. À medida que parte da população migra para áreas de mineração em busca de renda, diminui a capacidade produtiva tradicional, fragmentam-se as estruturas de governança e enfraquece-se a resistência coletiva à pressão externa, comprometendo direitos à autonomia e ao autogoverno.

Embora o relatório reconheça esforços recentes do Estado venezuelano para retomar o controle de áreas afetadas — como as operações que expulsaram garimpeiros ilegais do Parque Nacional Yapacana —, aponta que essas ações são pontuais, pouco sustentáveis e insuficientes diante da extensão territorial e da dificuldade de acesso à região.

Movimentos indígenas defendem que o fortalecimento do controle territorial passe pelo reconhecimento pleno e pela demarcação dos territórios indígenas, medida respaldada por estudos que indicam maior preservação ambiental em áreas sob gestão indígena.

Indígenas denunciam violações e defendem soberania

Nesse contexto, organizações indígenas do estado Amazonas, na Venezuela, tornaram pública uma nota de repúdio aos acontecimentos de 3 de janeiro de 2026. O documento foi divulgado pela Organização Regional dos Povos Indígenas de Amazonas (ORPIA), que reúne 31 organizações de base e representa 21 povos da Amazônia venezuelana.

Na nota, as lideranças indígenas rejeitam a invasão, o bombardeio do território venezuelano e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, atribuindo as ações ao governo dos Estados Unidos. As declarações, segundo o texto, partem “dos territórios ancestrais dos povos originários da Amazônia venezuelana”.

As organizações denunciam ainda violações de direitos humanos e reafirmam o direito de toda nação à autodeterminação e à vida em paz em seus territórios legítimos. O documento acusa os Estados Unidos de promover ações de guerra em solo venezuelano, em desacordo com normas do direito internacional, e conclama o respeito aos direitos humanos fundamentais como condição para a paz e a autonomia dos povos.

Ao reafirmar a defesa da soberania nacional, a manifestação destaca o papel histórico e político dos povos indígenas na proteção de seus territórios e na resistência frente às pressões externas.

Migração de povos indígenas venezuelanos para o Brasil

Levantamento do InfoAmazônia com base em dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), aponta que mais 9 mil indígenas deixaram a Venezuela e migraram para o Brasil entre 2015 e 2024. Segundo a pesquisa, existem pelo menos 13 povos indígenas originários venezuelanos vivendo em todos os estados do país. A maioria pertence às etnias Warao e Taurepang.

Reprodução/Foto: Arquivo Pessoal.

Xenofobia e as consequências do discurso de ódio

“Eu te amo muito, papai. Não me deixei aqui”, suplicava aos prantos, ao lado do caixão, um dos filhos de Yerffersson de Jesus Montilla Matos, indígena venezuelano da etnia Warao, de 39 anos, assassinado a tiros em uma ocupação de migrantes indígenas no bairro Pintolândia, zona oeste de Boa Vista, capital de Roraima.

O crime aconteceu na noite de 8 de janeiro de 2025 enquanto o venezuelano estava jantando. Conforme os depoimentos colhidos, dois homens chegaram de motocicleta no local e caminharam até o barraco da família até que um deles efetuou os disparos, atingindo Yerfferson, sua esposa, Myiela Perez Cardona, e uma bebê de apenas 4 meses, que estava no colo da mãe e acabou ferida na mão. As duas foram internadas, a mulher em estado crítico e a bebê estável. Dois dias depois, Myiela veio à óbito após não resistir aos ferimentos. Ninguém foi preso.

Uma reportagem publicada na Agência Pública mostra que, sete dias depois, o boletim de ocorrência do caso não havia sido despachado às equipes de investigação do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Roraima.

O despacho é um ato importante para direcionar a condução da apuração do caso, tratado pelas autoridades como apenas mais um episódio que se perdia na rotina de violência invisibilizada contra migrantes, revelando o quanto a xenofobia tem se enraizado em territórios marcados por desigualdade e abandono institucional.

Yerfferson era sapateiro e vivia com a família em Boa Vista desde 2017. Assim como muitos venezuelanos, ele veio ao Brasil fugindo da crise econômica gerada pelas sanções estadunidenses impostas ao país.

Vivendo em um abrigo desativado da Operação Acolhida, a família - assim como outros milhares de refugiados - atravessou a fronteira em busca de sobrevivência, mas encontrou vulnerabilidade extrema, exposição à violência e a fragilidade de políticas públicas incapazes de garantir segurança, dignidade e integração social efetiva.