Construção de Data center em Uberlândia (MG) explicita as contradições do lobby de Inteligência Artificial (IA)
O aporte, no valor de 6 bilhões de reais, realizado pela empresa norte-americana RT-one apresentou como previsão inicial a instalação do projeto em um período estimado de 12 meses.

Reprodução/Foto: Valter de Paula / Secretaria de Comunicação/Prefeitura Municipal de Uberlândia.
Por Guilherme Santos
Em julho de 2025 a prefeitura de Uberlândia (MG) divulgou o investimento inicial para a construção do primeiro data center de inteligência artificial (IA) do sudeste brasileiro. O aporte, no valor de 6 bilhões de reais, realizado pela empresa norte-americana RT-one apresentou como previsão inicial a instalação do projeto em um período estimado de 12 meses. No anúncio da proposta, feito pelo prefeito Paulo Sérgio (PP) juntamente do presidente da empresa, Fernando Palamone, houveram comemorações acerca de movimentações na economia e criação de empregos, bem como comentários acerca da condição estratégica da cidade em relação a recursos hídricos. Já em fevereiro deste ano, ignorando os impactos da construção e da operação do data center para os trabalhadores uberlandenses, o plano tem segmento com a apresentação e aprovação do projeto arquitetônico, que tem previsão de ser consolidado ainda no primeiro semestre de 2026.
Data Centers ou Centro de Armazenamento de Dados (CPD, na sigla em inglês) são instalações físicas responsáveis por centralizar o armazenamento e processamento de grandes volumes de dados. O modelo a ser implantado em Uberlândia, o de treinamento de Inteligência artificial (IA), depende de um alto fluxo de dados a serem processados em componentes que exigem imensas quantidades de energia. Não apenas, como o funcionamento constante das operações consome por consequência altos volumes de água, responsáveis pelo resfriamento do sistema.
Consumo de água
A empresa promete operar com base em “princípios de sustentabilidade e responsabilidade ambiental”, substituindo, por exemplo, o uso de água no arrefecimento do servidor por outros líquidos com baixa taxa de evaporação. Contudo, essa argumentação, usada para defender a instalação do complexo, denota as contradições do processo e aponta para impossibilidades de um “capitalismo sustentável”. Como demonstra o pesquisador Lourenço Galvão Diniz Faria, economista pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sustentabilidade não é um parâmetro fixo: “Algo é ‘sustentável’ em relação a algum parâmetro de referência, por exemplo uma tecnologia mais antiga e com menor eficiência. Entretanto, isso não significa que não exista um impacto ambiental significativo, apenas que o impacto daquilo é menor em relação à outras tecnologias”.
Para viabilizar as operações, a empresa RT-one solicitou para o Departamento Municipal De Água e Esgoto (DMAE) o fornecimento inicial de 2,77 L/s (litros por segundo) de vazão de água potável, consumo este equivalente a 239,3 mil litros de água por dia. A autarquia aprovou a solicitação sob a justificativa que o consumo realizado pela empresa não impactaria na produção de água tratada da cidade, e que com esse consumo ela não configura no “rol das dez primeiras clientes consumidoras locais, tendo em vista a presença de várias indústrias multinacionais no município”. Contudo, os dados conflituam com a situação em baixa do saneamento na cidade, que entre 2024 e 2025 esteve 155 R$ abaixo da média ideal por habitante de investimento em saneamento.
Além do mais, o malabarismo argumentativo da prefeitura não leva em consideração as estiagens, comuns no bioma do cerrado, mas que se ampliaram e prolongaram nos últimos anos em razão das mudanças climáticas. Os períodos de seca podem reduzir os níveis de água das barragens do município, ainda mais considerando-se o cenário da instalação do data center, e somando-se com o maior uso de água em proveniência do crescimento populacional, população flutuante e demais atividades econômicas com consumo predatório, como o agronegócio.
Consumo de energia
Na fase inicial da operação, a multinacional autointitulada informou que o Data Center terá a capacidade de operar em até 100 Megawatts (MW), com a possibilidade de expansão para 400 MW. Essa questão coloca-se em evidência quando, apesar da Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG) afirmar que o sistema elétrico regional possui as capacidades para suprir a demanda, a empresa declara que “desabastecimento energético ou hídrico em nível nacional não é de sua responsabilidade”. Ademais, há anualmente na região o aumento da bandeira tarifária das contas de energia. Isso se deve pela matriz energética de distribuição da região ser majoritariamente feita por hidroelétricas, que em períodos de estiagem, pela falta de água, não são capazes de suprir a demanda de geração energética regional, demandando o acionamento de termelétricas. Tomando a maior demanda energética no município, ocasionada pela instalação do data center, será mais comum o aumento das bandeiras tarifárias, já que em seu potencial máximo o consumo poderá chegar ao equivalente a 1,6 milhão de casas. Dessa forma, fazendo com que os lucros da burguesia internacional ocorram às custas dos trabalhadores de uberlandenses. Levando-se em consideração a natureza dos combustíveis utilizados nas termelétricas em Minas Gerais, sendo fósseis em sua maioria, a necessidade de maior produção energética ocasionará igualmente impacto, mesmo que o data center opere sobre supostos “princípios de sustentabilidade”
A empresa divulga informações a respeito de suas operações usando termos vagos, “Projetado segundo os mais altos padrões internacionais de sustentabilidade e eficiência energética”, que não dão real magnitude dos possíveis impactos e ignoram efeitos como a poluição sonora e a produção de lixo eletrônico, que fazem-se frequentes na rápida substituição de equipamentos ocasionado pela corrida pelo desenvolvimento das inteligências artificiais (IA), considerando seu vínculo a lógica da acumulação de Capital. A situação se torna mais alarmante quando não existem registros de operações anteriores da empresa no setor de Data Centers de inteligência artificial (IA), sendo registrada até em 2024 no ramo de importações de eletrônicos, não havendo parâmetros comparativos.
A falsa promessa de geração de empregos
Foram anunciados pela empresa e pela prefeitura a geração de 2 mil empregos permanentes associados às operações direta e indiretamente. A realidade é que essa cifra se demonstra inflada, principalmente se comparada a outras experiências e deve ser encarada apenas como exagerada promessa com o fim de convencer a opinião da população. A maior demanda é de empregos temporários na área de construção, setor já está inflado na cidade; logo necessitando de trabalhadores que viriam de outras regiões e que em pouco tempo já estariam desempregados, favorecendo o aumento da informalidade. Os quesitos apontados demonstram as contradições inerentes dessa promessa, em relação à habitação dos contratados em uma cidade que já está em déficit habitacional e em uma forte dinâmica de especulação imobiliária; absorção após o período; os efeitos na dinâmica de empregos e moradia na cidade.
Os data centers demandam altas quantidades de mão de obra para construção, mas não necessitam de mais de uma centena de funcionários para operar. A empresa afirmou que seus Data Centers empregariam de 20 a 30 funcionários por MW, montante que ultrapassa em muito a média observada em outras experiências de um contratado por MW. Considerando as estimativas da operação em Uberlândia teríamos no máximo 100 empregos gerados especificamente na manutenção das operações. Outros empregos auxiliares, como eletricistas, analistas de dados, engenheiros de software e hardware, guardas de segurança, etc. não compõem uma quantidade significativa de vagas criadas.
É igualmente necessário evidenciar que nessas poucas vagas o regime de contratação como Pessoa Jurídica (PJ) faz-se amplamente presente (tomando como base empregos em demais Data Centers operando no Brasil), situação que levará a maior exploração, pela coação na extensão da jornada de trabalho, já que os servidores precisam estar operando e sob vigilância 24 horas por dia. Não apenas como ocasionando em uma alta instabilidade para os trabalhadores e rotação nas contratações, além de dificultar a organização política do setor de T.I por impeditivos na sindicalização.
Outra questão a ser levantada é como o desenvolvimento da argumentação para convencimento acerca da instalação do data center no município segue o mesmo roteiro ideológico que outras muitas empresas usam para a instalação de operações semelhantes em toda América Latina: desenvolvimento local, geração de empregos e investimentos bilionários nos municípios. Enquanto em países como EUA há acirramento da pressão popular para barrar projetos de construção de Data Centers, os lobistas do setor partem em busca de recursos em países onde há maior disponibilidade de mão de obra a baixo custo, com leis trabalhistas flexíveis e dinâmicas de contratação por prestação de serviço, representando maior facilidade de extração de mais-valia com maiores taxas. Mesmo com o cenário facilitado para a exploração do capital internacional, os lobistas e empresários seguem fazendo pressão por incentivos fiscais e alfandegários.
Em Uberlândia, com o favorecimento das administrações locais para a exportação do capital estrangeiro e a instalação de cadeias produtivas desses novos segmentos tecnológicos, as IA´s, há a proporcional contribuição para a extração de mais-valia da força de trabalho local e uso de recursos e infraestrutura já existente. Contudo, ao contrário do proferido pela prefeitura, o montante acumulado não ficará no município, muito menos no Brasil. Principalmente considerando a natureza da IA enquanto mercadoria, que pode ser efetivada no ciclo de acumulação do capital em outro local, até mesmo país, já que o Data Center é apenas um servidor. O entusiasmo do prefeito Paulo Sérgio (PP) e vereadores acerca da cifra investida na operação esbarra na omissão da empresa em dizer que boa parte do montante não será destinado ao município, sendo que em média 60% dos investimentos são feitos na importação de maquinários e tecnologia.
Não há possibilidade de equilíbrio
Os esforços da vereadora Amanda Gondim (PSB), apesar de valorosos por fazerem o único contraponto à prefeitura, apontam uma importante contradição: não há possibilidade de equilíbrio entre responsabilidade ambiental e a situação dos trabalhadores de Uberlândia com os interesses da burguesia, da exploração desenfreada da força de trabalho, e dos recursos naturais, balizada pela acumulação de Capital. A minuta do projeto de lei elaborada em conjunto pela vereadora e o curso de direito da UFU, busca maneiras de “equilibrar a atração de investimentos tecnológicos com a proteção do meio ambiente e a qualidade de vida urbana”, mas desconsidera mecanismos essenciais na dinâmica de reprodução do capitalismo.
Antes de tudo, o projeto desconsidera impactos amplos socioeconômicos e foca apenas nos aspectos ambientais. Mas, não apenas, como em seus principais pontos, usa da retórica de um capitalismo responsável ignorando que enquanto o uso dos recursos naturais estiver vinculado à lógica da produção de valor, sua exploração será desenfreada para atingir as expectativas do lucro. Não somente, mas, ainda que a empresa por lei seja obrigada a descartar corretamente os resíduos eletrônicos, não altera o fato que no alto ritmo da corrida desenvolvimentista das IA´s, seguindo lógica de acumulação de capital, exige-se constantemente substituição dos maquinários, por outros tecnologicamente mais avançados. Dessa forma, serão explorados com mais frequência recursos naturais, no Brasil e outros países dependentes, havendo a possibilidade de aumento da dinâmica de uso dos recursos hídricos locais. Igualmente, como podendo ocasionar o aprofundamento da dinâmica de dependência do Brasil, situação na qual, a empresa, buscando a maximização de lucros, venderá a tecnologia obsoleta e não amortizada para a indústria tecnológica brasileira.
A falta de preocupação com as questões levantadas explicita-se ao apontar a possibilidade da formação de um lobby de data centers na cidade, que atualmente está negociando com a Alibaba Cloud e mais duas outras companhias internacionais. A situação se apresenta crítica com os impactos de um datacenter, havendo a chance desses efeitos serem ampliados com a cidade se abrindo como um polo para eles. A argumentação da prefeitura e da empresa em relação a pretensos “padrões de sustentabilidade” não se sustenta, considerando a facilitação para a operação de uma infinidade de atividades do gênero. As promessas de promoção de inovação tecnológica, avanço econômico e social, qualificação de mão de obra e até “desenvolvimento de talento humano”, confrontadas com os dados apresentados explicitam que não há outra alternativa além da extinção dessas contradições, pois não existe possibilidade de conciliação. As atividades dos Data Center tem toda relação com as necessidades de desenvolvimento predador do capitalismo, sem a qual ele não se perpetua; de uma forma indissociável da exploração, que relega a produção de objetos de utilidade social a serem apenas uma forma de extorsão de mais-valia.
É precisamente por esse motivo que não existe possibilidade de equilíbrio entre esse modo de produção e uma suposta sustentabilidade, com formas de exploração responsáveis. Como seria responsável se as bases de suas relações de produção estão arraigadas a um sistema de exploração, com a produção subordinada a ampliação do capital, que ocasionará sempre na rapina de mais recursos, na maior destruição da natureza, na maior exploração dos trabalhadores. devemos estar juntos dos trabalhadores do setor, levando a cabo a organização da classe para combater esse sistema, com o fim de construir uma alternativa socialista-comunista, cessar os antagonismos de classe, destruir a produção com base no valor, alterar radicalmente as relações de produção para que ela seja determinada de acordo com as necessidades de todos.