Greve petroleira expõe lucros recordes, repressão judicial e recuo da FUP
O papel conciliador da direção sindical acelerou a desmobilização de uma base disposta a enfrentar a empresa e o governo.

Petroleiros organizados votam em assembleia da categoria. Reprodução/Foto: Poder 360.
Por Alessandro Lima
A greve nacional dos petroleiros, deflagrada no final de 2025 em defesa do Acordo Coletivo de Trabalho 2025–2026, foi encerrada por decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST) após um intenso processo de desmobilização pela Federação Única dos Petroleiros, ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT). O fim do movimento paredista revelou uma base disposta ao enfrentamento contida por uma direção governista que priorizou a mediação institucional ao direito dos trabalhadores.
Dentre outras pautas, a categoria reivindicava ganho de salário real, o fim de cortes em benefícios conquistados e das cobranças progressivas no fundo de pensão da empresa, além de denunciar os R$32,4 bilhões em dividendos distribuídos aos acionistas em 2025. Embora construída através dos sindicatos filiados às duas federações nacionais de petroleiros, FNP e FUP, a federação base do governo Lula apoiou a greve formalmente em notas públicas enquanto aceitava a proposta inferior da estatal sem diálogo com o movimento paradista, pressionando pela sua aprovação.
Para Eduardo Henrique, dirigente do Sindipetro RJ e da FNP, “ficou nítido que a FUP atua na defesa da direção da empresa e do governo, assinando um acordo rebaixado justamente quando a greve estava no auge”. Desde o início, optou-se pela estratégia do dissídio coletivo e da aposta no TST como árbitro imparcial entre as partes. Esta tese, propagada como pragmatismo, foi na prática uma rendição prévia. A retórica de apoio à greve em notas oficiais da FUP serviu apenas de cortina de fumaça para uma operação de desgaste e contenção do movimento. Antes do fim da greve nacional, praticamente toda a base da FUP já havia encerrado sua mobilização.
O TST atuou abertamente como instrumento de contenção da luta. Sob a alegação de garantir o abastecimento do país, determinou a manutenção de 80% dos trabalhadores em atividade em cada unidade das empresas, multas milionárias e criou um clima de terror jurídico entre os grevistas que permaneceram mobilizados por um ACT mais avançado.
A tática de restringir o direito à greve pela via judicial é recorrente nas batalhas sindicais, com recentes imposições de multas por descumprimento que vão de R$10 mil até R$1 milhão por dia, além de cortes de ponto e outras medidas para pressionar os trabalhadores. O desfecho no caso da greve petroleira foi a sua suspensão em diversas bases, após assembleias realizadas sob coação. Acordos irrisórios foram aprovados em um ambiente de chantagem institucional, onde a ameaça de demissões e perdas salariais pesava sobre cada trabalhador. Sindicatos combativos, em moções de repúdio, denunciaram a manobra e alertaram que a subordinação da ação sindical ao projeto da direção da Petrobrás e ao governo Lula-Alckmin configura grave conflito de interesses.
A greve não é apenas um dispositivo legal, mas instrumento legítimo de enfrentamento de classe frente à ofensiva patronal e estatal. Trata-se de uma conquista histórica consolidada após décadas de lutas no século XX. No Brasil, sua regulamentação só veio com a redemocratização, após anos de repressão durante a ditadura militar.
O movimento grevista dos petroleiros comprovou disposição de luta da base operária, mas teve como principal obstáculo a opção estratégica de submeter o movimento aos marcos da conciliação institucional. O caso demonstra que a confiança na mediação estatal como via principal resulta em recuos e reforça a necessidade de organizações sindicais independentes, com enraizamento nas bases e capacidade de conduzir conflitos prolongados, articulando as dimensões econômica e política. Desse modo, a greve transcende o balanço do acordo coletivo e recoloca uma questão estratégica fundamental, a conquista de direitos duradouros e a reorganização da classe trabalhadora exigem a construção de um projeto classista e independente em sua orientação.
#petroleiros#Federação Única dos Petroleiros (FUP)#Federação Nacional dos Petroleiros (FNP)#greve