Entre a guerra e o bolso: alta dos combustíveis expõe limites da política econômica brasileira
Redução do ICMS é paliativa e mantém lógica neoliberal dos combustíveis, enquanto crise internacional expõe dependência e fragiliza a soberania energética brasileira.

Reprodução/Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.
No dia 28 de fevereiro de 2026, em decorrência das ações imperialistas dos Estados Unidos e de Israel, ocorreu um bombardeio no Irã. Como resposta legítima a essa agressão, o país buscou atingir, de forma estratégica, um dos principais eixos de sustentação do poder estadunidense e do projeto de expansão sionista: o Irã fechou o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de comércio marítimo do mundo. A Guarda Revolucionária Iraniana alertou diversas embarcações de que, em razão das condições de insegurança no entorno do estreito — decorrentes da agressão militar dos Estados Unidos e de Israel e das respostas do Irã —, a passagem pela região encontra-se atualmente insegura.
Devido a importância do estreito para o comércio do petróleo mundial, bem como a própria dinâmica interligada do imperialismo, o Brasil, mesmo que em menor escala quando comparado a outros países, foi atingido.
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), durante a semana inicial do conflito, o preço dos combustíveis subiu de forma aparentemente baixa. Entretanto, nos dias de 8 a 14 de março tivemos um aumento significativo, além de que o diesel acumula disparada de 20% desde o dia em que os EUA e Israel atacaram o Irã. Na bomba, o preço médio do óleo ultrapassa os R$7.
Diante do aumento dos combustíveis, o que mais causa temor ao trabalhador brasileiro é o preço da gasolina, mesmo que o impacto direto seja sobre o diesel. Com o temor do aumento de preços, o novo ministro da fazenda, Dario Durigan, propõe a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS) por parte dos governadores, com a união pagando o prejuízo.
Todavia, a medida apresenta fragilidades relevantes. Isso porque os preços dos combustíveis no Brasil não dependem exclusivamente da carga tributária estadual, estando fortemente vinculados à política de preços da Petrobras, a qual, devido às políticas neoliberais tanto do governo Temer, Bolsonaro e Lula, serve aos interesses do capital externo e visa assegurar a lucro e dividendos de seus investidores. A empresa possui autonomia para reajustar seus preços conforme variáveis como o mercado internacional do petróleo, a taxa de câmbio e sua própria estratégia comercial.
Todavia, mesmo com fim do programa de PPI em 2023, a Petrobras continua com preços inacessíveis. Essa dinâmica evidencia a permanência de uma racionalidade econômica alinhada ao ideário neoliberal, na qual a lógica de mercado e a maximização de resultados se sobrepõem à função social da empresa e às demandas internas do desenvolvimento nacional.
Nesse contexto, observa-se uma tensão entre a formal ruptura com o PPI e a continuidade de práticas que, na essência, ainda refletem a inserção subordinada do país no mercado internacional de commodities. A Petrobras, embora seja uma empresa de economia mista com papel estratégico, opera sob condicionantes que limitam sua autonomia, colocando a política dos preços dos combustíveis a serviço dos interesses do capital. Assim, a política de preços não pode ser compreendida apenas como uma escolha técnica, mas como expressão de um projeto mais amplo de organização econômica, no qual o neoliberalismo atua para desarticular políticas voltadas à proteção do mercado interno e à garantia de acesso a bens essenciais.
Essa medida paliativa é, portanto, bastante limitada, porque toda a lógica de organização do setor energético do Brasil é orientada a partir dos interesses capitalistas de grandes empresas, sobretudo internacionais. A regulação dos preços, a reversão das privatizações, o investimento na criação de empresas para controle e exploração dos recursos estratégicos e um plano de médio a longo prazo de transição energética, que diminua nossa dependência de combustíveis fósseis, são as medidas que podem garantir que os trabalhadores brasileiros não fiquem refém dos preços dos combustíveis.
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