Torcedor congolês dá vida à Patrice Lumumba nas arquibancadas da Copa Africana de Nações
A cobertura midiática brasileira, repleta de gafes e tons caricaturais, tratou a figura como um fato pitoresco. Reduziu um gesto de memória combativa a uma curiosidade folclórica, ignorando seu profundo significado.

Michel Kuka Mboladinga permanece imóvel durante os 90 minutos dos jogos da República Democrática do Congo na Copa Africana de Nações, realizada no Marrocos, representando Patrice Lumumba, ex-primeiro-ministro do país, assassinado em um golpe orquestrado pelo imperialismo. Reprodução/Foto: AFP.
Por Guilherme Sá
A Copa Africana de Nações de 2025, sediada no Marrocos, iniciou-se em meio de uma conjuntura de tensão. Meses antes do pontapé inicial, protestos protagonizados pela juventude questionavam o alto custo do megaevento em um país com urgentes demandas sociais. No entanto, a polêmica mais significativa expressou-se nas arquibancadas. Durante os jogos da fase de grupos, o congolês Michel Kuka Mboladinga, transformou-se em uma efígie viva de Patrice Lumumba, o primeiro-ministro pan-africanista assassinado em 1960 num golpe orquestrado pela CIA e oficiais belgas. Sua presença silenciosa e imóvel, caracterizada como o ícone pan-africanista, contrasta com o burburinho festivo, tornando-se um ato político de resgate histórico no palco do maior torneio futebolístico do continente.
A cobertura midiática brasileira, repleta de gafes e tons caricaturais, tratou a figura como um fato pitoresco. Reduziu um gesto de memória combativa a uma curiosidade folclórica, ignorando seu profundo significado. O resgate de Lumumba ocorre em um momento de efervescência política global, onde o continente africano reassume seu papel como arena de disputas geopolíticas.
Filho de camponeses residentes na região central do Congo, Lumumba recebeu educação clerical na infância, até receber gratificações das autoridades coloniais, sendo reconhecido como évolué, termo utilizado pelos franceses para designar africanos considerados por eles “evoluídos”. Este fato permitiu a Lumumba publicar ensaios e poemas, abrindo caminho ao autodidatismo.
Em Stanleyville, Lumumba trabalhou no serviço de correios, aproximando-se de sindicatos e da luta pela independência. O enfrentamento ao colonialismo belga, marcado por prisões arbitrárias e pelo racismo cotidiano, mesmo com sua condição de évolué e portando documentos de cidadania belga, levou-o à radicalização e ao lançamento do Movimento Nacional Congolês (MNC), primeiro partido nativo do Congo.

Reprodução/Foto: Wikimedia Commons
Naquele contexto, no início da década de 1960, a África vivia o ápice da luta anticolonial, fazendo pulular centros revolucionários em todo continente, gerando temores na burguesia nativa ligada aos colonialistas e às metrópoles. No Congo em especial, sua riqueza mineral agudizava a crise, empurrando Lumumba para o centro do furacão.
O curto período em que Patrice Lumumba e seus companheiros estiveram no poder foi suficiente para que a histeria dos colonialistas belgas, incomodados com a nacionalização das riquezas, levasse à tomada de ação do imperialismo estadunidense, que agiu não apenas para derrubar Lumumba, mas para estrangular qualquer resquício de seu legado político. Sequestrado, torturado e executado, seu corpo foi dissolvido em ácido, um ato de obliteração física que buscava apagar também seu legado político.
Desde então, a República Democrática do Congo tornou-se o grande enclave do continente. A ditadura de Mobutu Sese Seko, que renomeou o país para Zaire, serviu de ponte para o Ocidente minar as iniciativas revolucionárias, como a guerrilha liderada pelo revolucionário maoísta Pierre Mulele, Ministro da Educação do governo de Lumumba e principal expoente da continuidade de seu legado. O massacre da Rebelião Simba marcou o fim daquele que foi chamado por marxistas como Walter Rodney e Amílcar Cabral de epicentro da Revolução em África.
Nessa toada, a Copa Africana de Nações tornou-se, ao longo das décadas, não apenas um torneio futebolístico, mas a expressão de um continente moldado pelo colonialismo. Ela é um espelho das tensões pós-coloniais, onde rivalidades nacionais e lealdades étnicas, fabricadas e exacerbadas pelo colonialismo, se manifestam.
Neste ano, com o torneio antecipando a Copa do Mundo que reunirá o maior número de seleções da história, a presença simbólica de Lumumba nas arquibancadas reflete um momento de contestação da presença imperialista no continente e o resgate de lideranças que foram vítimas das canhoneiras coloniais.
Ademais, a figura de Lumumba simboliza o anseio da população congolesa por alguma coesão social. Imersos em contínuos conflitos pelas riquezas, o país enfrenta há meses as ofensivas do grupo armado M-23 nas fronteiras com Ruanda, que é responsável por financiá-los. Os infrutíferos acordos de paz, midiaticamente insuflados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e a extensa rede de contrabando de minerais seguem aterrorizando a população no leste da RDC e levando a uma crise humanitária sem precedentes, que com frequência atribui a responsabilidade da instabilidade do país à intervenção estrangeira.
Após a euforia da fase de grupos e a classificação, no dia 06 de janeiro, quando ocorreram as eliminatórias da CAN entre República Democrática do Congo e Argélia, num jogo extremamente disputado no estádio Moulay Hassan, em Rabat, Michel Kuka Mboladinga desabou nos braços da torcida após o gol do argelino Adil Boulbina, nos últimos minutos da prorrogação. O resultado levou a eliminação da RDC, que ainda conta com chances remotas de classificação para a Copa do Mundo através da repescagem, a ser disputada nos próximos meses.

Mboladinga emocionou-se com o gol dos argelinos, após um jogo truncado que chegaria às penalidades. Reprodução/Foto: Redes Sociais.
Visto apenas como uma espécie de torcedor alegórico pelas páginas de notícias brasileiras, Mboladinga traz novamente ao cenário global a figura histórica de Lumumba. Cabe aos que ainda preservam seu legado radical, relembrar que ela representa não apenas uma simples liderança passiva no processo de independência formal, mas a luta ativa, de uma vida dedicada à luta contra o colonialismo, a violência e o racismo expressos no avanço do capital.