Em vitória histórica, movimento estudantil conquista redução do preço do Restaurante Universitário da UnB

Redução no preço do RU é conquista da mobilização de 8 anos; ISM Gomes Alimentação e Serviços, empresa terceirizada com histórico de corrupção, expõe a falência das PPPs sob o Arcabouço Fiscal.

9 de Janeiro de 2026 às 15h00

Reprodução/foto: Brasil de Fato.

Por Anthony Kenneth

Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) alcançaram uma vitória histórica com a aprovação da redução dos preços do Restaurante Universitário (RU), uma reivindicação que se arrastava há mais de oito anos. A nova política de preços, aprovada pelo Conselho de Administração (CAD) em dezembro de 2025, entrará em vigor em 4 de janeiro de 2026 e é resultado direto de um processo de diálogo e intensa mobilização, que incluiu a participação de estudantes, entidades e movimentos e um plebiscito organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) Honestino Guimarães.

Com a aprovação, cerca de 8,5 mil estudantes oriundos de escolas públicas (que não são beneficiários do Pnaes) e bolsistas verão os valores caírem para R$ 1,50 (café da manhã) e R$ 2,50 (almoço ou jantar), uma redução significativa em relação aos preços anteriores de R$ 2,85 e R$ 6,10, respectivamente. O RU da UnB figurava entre os mais caros do país, e a manutenção dos preços que só cresciam desde 2018 era insustentável para a permanência estudantil. A presença estudantil no dia da votação, que incluiu o DCE e Centros Acadêmicos, reafirmou o protagonismo estudantil na universidade e a força da mobilização.

A luta continua

Embora a redução do preço seja uma vitória concreta para a permanência estudantil, a luta pela qualidade, controle e fim da mercantilização da educação pública está longe de terminar, especialmente diante da continuidade da Parceria Público-Privada (PPP) com a empresa ISM Gomes de Mattos Eireli.

Desde setembro de 2021, a ISM Gomes de Mattos Eireli é a responsável por administrar o restaurante da UnB, após vencer a licitação. No entanto, a empresa e sua proprietária, Idalina Mattos de Gomes, possuem um histórico de escândalos de corrupção e práticas anti-trabalhador que expõem os riscos da terceirização em serviços essenciais.

Segundo o Metrópoles, a dona da ISM Mattos de Gomes é investigada pelo Ministério Público do Ceará por supostamente chefiar uma organização criminosa de fraude em licitações de quentinhas, entregando alimentos de baixa qualidade em vez dos produtos contratados pelo estado. Áudios revelados pelo Ministério Público do Ceará mostram, inclusive, a empresária reclamando com funcionários porque as marmitas estavam com “muita carne” no intuito de aumentar o lucro. Além disso, inquéritos no Ceará apontam que a empresa já recebeu verbas públicas para fornecer alimentação para cadeias desativadas e por meio de contratos simultâneos em gestões anteriores.

A ISM Gomes de Mattos também esteve envolvida em uma polêmica licitação do Ministério da Defesa (Operação Acolhida), na qual venceu a concorrência para fornecer refeições a refugiados venezuelanos em Roraima. Essa licitação previa a diminuição de proteína nas marmitas. A Justiça Federal no Amazonas suspendeu o certame, observando que a ISM Gomes de Mattos havia sido classificada mesmo oferecendo um preço R$ 0,30 maior que a concorrente desclassificada.

Arcabouço Fiscal e o ataque à educação pública

A precarização do RU da UnB está intrinsecamente ligada à política de austeridade fiscal que asfixia as universidades federais. O Novo Arcabouço Fiscal (Lei Complementar nº 200/2023), tocado pelo governo Lula, limita o crescimento dos investimentos públicos nos gastos primários, como saúde e educação, mantendo a lógica do Teto de Gastos.

Essa política de austeridade legitima o subfinanciamento crônico das instituições públicas. O corte de R$5,5 milhões projetado para a UnB na Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026, somado aos impactos da Desvinculação das Receitas da União (DRU), ilustra o cenário de restrição. A própria vitória da redução do RU exigiu um aumento de R$2 milhões no subsídio anual, a ser viabilizado por realocação de recursos próprios da UnB em um contexto orçamentário adverso.

A ausência de verbas suficientes, causada pelo arcabouço fiscal, compromete o funcionamento básico das universidades e fragiliza a assistência estudantil. Este modelo de contenção de gastos é uma escolha política que privilegia o capital financeiro em detrimento do desenvolvimento social e da democratização do conhecimento.

A pauta comunista: Fim das PPPs e controle do RU

O PCBR e a UJC têm afirmado que a luta não pode cessar na redução de preço, mas deve avançar para a derrubada do Arcabouço Fiscal, política que impõe o subfinanciamento das instituições e abre brechas para a precarização via terceirizações. Na UnB, essa atuação tem se materializado em uma presença constante na linha de frente dos atos públicos e nas mobilizações de massa que tensionaram a reitoria nos últimos meses.

Um dos momentos mais significativos dessa inserção foi o ato de 4 de setembro de 2025, organizado pelo DCE, que contou com um "catracaço”. Durante pelo menos uma hora, centenas de estudantes entraram no restaurante sem pagar, transformando a indignação com os preços abusivos em uma ação direta de questionamento à gestão da ISM Gomes Alimentação e Serviços e à própria lógica mercantil do RU. A participação dos comunistas nessas ações reforça a tática de que conquistas institucionais só se consolidam com a pressão das ruas e o protagonismo estudantil.

Além da mobilização direta, a disputa ideológica sobre o futuro do restaurante foi um eixo central da campanha da chapa Disputar o Presente, Construir o Futuro. Organizada pela UJC e por estudantes independentes para a eleição do Conune 2025 na UnB, a chapa agitou pautas avançadas como a gratuidade universal e a estatização do RU. Para o movimento, a redução atual é um passo importante, mas a solução definitiva contra a corrupção e a má qualidade das refeições passa obrigatoriamente pelo fim das parcerias público-privadas e pelo controle direto do restaurante pela comunidade acadêmica.

Essa pressão também foi levada para as mesas de negociação. A UJC esteve presente nas reuniões do Grupo de Trabalho (GT) do DCE com a reitoria, onde se discutiu tecnicamente a viabilidade da redução de preços. Ali, os estudantes defenderam que a universidade utilizasse seus recursos próprios para priorizar a permanência estudantil.

A vitória da redução do preço do RU é, portanto, o combustível para que o PCBR e a UJC, em união com estudantes independentes e trabalhadores do campus, continuem a luta pela Universidade Popular, pela efetivação dos trabalhadores terceirizados e pela revogação de todas as medidas de austeridade que asfixiam o ensino superior público.

Somente com a construção da independência política da classe trabalhadora e a luta contra o capitalismo e a austeridade imposta pelo governo burguês, será possível superar o arcabouço fiscal e construir um sistema educacional 100% público e de qualidade.