Liderada por mulheres indígenas, ocupação em Altamira (PA) denuncia projeto de mineradora Belo Sun

Marcada pela resistência indígena e a tentativa de invisibilização pela mídia, mobilização denunciou falhas no licenciamento, pressionou autoridades e levou luta para Brasília.

19 de Abril de 2026 às 18h00

Por Carolina Mello

A ocupação da sede regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira (PA), protagonizada por povos indígenas do Médio Rio Xingu, consolidou-se ao longo do mês de março como um dos principais focos de resistência contra o avanço do projeto de mineração da empresa canadense Belo Sun na região da Volta Grande do Xingu.

Liderado em grande parte pelo Movimento das Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX), o ato reuniu cerca de 500 indígenas de diferentes etnias e expôs denúncias de irregularidades no licenciamento ambiental e violações de direitos fundamentais.

A mobilização teve início com um grupo menor, mas rapidamente cresceu com a adesão de povos como Arara, Xikrin, Parakanã e muitos outros, além da chegada de lideranças femininas que passaram a coordenar ações estratégicas.

Mesmo diante de dificuldades logísticas — como falta de estrutura para abrigo, alimentação e atendimento de saúde —, os manifestantes mantiveram a ocupação ativa por mais de 30 dias. Igor Teixeira, que acompanhou a mobilização de perto e foi um dos responsáveis pelo boletim publicado no Em Defesa do Comunismo, destaca que a ocupação foi marcada tanto pela força coletiva quanto por desafios internos. Segundo ele, há conflitos históricos entre os próprios povos, mas a mobilização contribuiu para unificar a luta em torno de um adversário comum.

“Os indígenas são politizados e, como em qualquer espaço, há diferentes correntes e visões em disputa. Os próprios parentes têm desavenças não resolvidas, mas ao mesmo tempo estão percebendo que o grande desafio é contra grandes empresas que estão aí para comprar tudo”, afirmou.

Além dos conflitos internos, Teixeira lembra que também presenciou os externos, com pessoas contrárias ao movimento. “Não houve agressões diretas no período em que estive lá, mas houve ameaças. É uma região marcada pela violência”, relatou.

Ele enfatiza que as mulheres indígenas foram responsáveis por iniciar e sustentar a ocupação, além de desempenharem funções essenciais no cotidiano do acampamento. “As mulheres são a parte crucial. Foram elas que puxaram a ocupação e organizaram o movimento. Depois, outros grupos e homens se somam, mas elas são centrais”, explicou.

Foto: Igor Teixeira/Em Defesa do Comunismo.

Ocupação denuncia irregularidades no empreendimento

Durante o período da ocupação, o movimento indígena denunciou falhas graves no processo de licenciamento do empreendimento, incluindo a ausência de consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Também foram apontadas inconsistências nos estudos ambientais e tentativas de fragmentação das comunidades por meio de acordos pontuais com grupos isolados.

A tensão aumentou com decisões judiciais que restabeleceram licenças anteriormente suspensas, contrariando avaliações técnicas de órgãos como a própria Funai e a Secretaria de Meio Ambiente do Pará (SEMAS). O movimento também criticou a condução do processo em âmbito estadual, após o afastamento de instâncias federais, o que, segundo as lideranças, fragiliza o rigor da análise ambiental.

Além da resistência institucional, os indígenas promoveram ações diretas para ampliar a visibilidade da pauta, como o bloqueio da rodovia de acesso ao aeroporto de Altamira e a convocação de atos públicos. A mobilização também enfrentou disputas narrativas, com denúncias de campanhas favoráveis à mineradora e tentativas de deslegitimar o movimento.

Relatórios técnicos acessados durante a ocupação reforçam as preocupações dos manifestantes. Entre os riscos apontados estão o rompimento de barragens de rejeitos, contaminação de cursos d’água por substâncias tóxicas e impactos cumulativos com os danos já provocados pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O projeto prevê a instalação da maior mina de ouro a céu aberto do país, com uso intensivo de recursos hídricos e potencial impacto direto sobre comunidades indígenas e ribeirinhas.

Outro ponto de conflito envolve a sobreposição do projeto a áreas de assentamento rural, o que pode resultar na remoção de centenas de famílias. Dados divulgados pelo movimento indicam ainda que os benefícios econômicos prometidos pela empresa são limitados e temporários, contrastando com os danos socioambientais permanentes previstos.

Apesar de reuniões com representantes do poder público e da realização de audiências, o movimento denunciou a ausência recorrente de autoridades e a falta de respostas concretas às reivindicações. Ainda assim, houve avanços pontuais, como manifestações formais contrárias ao projeto por parte do Ministério dos Povos Indígenas e da Funai.

Foto: Júlio Cesar/Em Defesa do Comunismo.

Movimento vai para Brasília

Ao final de março, a mobilização entrou em uma nova fase. Com o deslocamento das lideranças para Brasília, onde participaram do Acampamento Terra Livre (ATL), a estratégia passou a priorizar a articulação nacional e a pressão política em instâncias federais.

A ocupação física em Altamira foi encerrada, mas o movimento reforça que a luta contra o empreendimento segue ativa. “A ideia é continuar a mobilização contra a Belo Sun e também contra outras empresas. Há intenção de retornar e seguir com as ações de pressão”, ressalta Teixeira.