Um convite ao embate: resposta ao SINDUECE
São, hoje, na UECE os estudantes a principal força auxiliar em todas as mobilizações propostas pelo SINDUECE. Cabe soltar suas mãos e se esconderem em cima do muro nesse momento? Não existe combinação entre classismo e corporativismo.

Cartaz denuncia a criminalização da Ocupação Palestina Teimosa. Reprodução/Foto: Katharyne Farias.
Por Nalbert Pietro (Professor Substituto no IFCE - Campus Canindé)
A diretoria do Sindicato dos Docentes da UECE (Sinduece) postou uma nota há poucos dias com um Convite ao Diálogo para o movimento estudantil (ME) e as gestões do Centro de Humanidades (CH) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). A piada que é esse título é reforçada pelo contexto da nota e bases que tentam propor para o diálogo.
No dia 9 de dezembro os estudantes do CH organizadamente ocuparam uma sala, que já pertencia ao movimento estudantil, conquistada há anos, e que estava sob a ingerência da direção do Centro, que pretendia ocupar a sala com uma padaria. O projeto da padaria foi tocado a toque de caixa com a pretensão de excluir os estudantes do debate. A sala era um espaço de organização e convivência estudantil que seria perdida em mais uma das movimentações das gestões que tentavam minar a participação dos estudantes no dia-a-dia da universidade.
A ocupação levantava também uma série de importantes debates no Centro, denunciava assédios, o regime de precarização e desvio de função de trabalhadores terceirizados e as tentativas de intimidação do ME e levou nome de "Palestina Teimosa", reforçando o compromisso dos estudantes com a luta internacionalista. Tamanha disposição deveria ser exemplo para todos os lutadores nesse período desmobilização, cooptação, apaziguamento e apatia que sofre diversos setores estudantis, sindicais e populares.
A resposta da gestão do Centro sobre a direção da professora Kadma? Intransigência e repressão. Nas primeiras horas de ocupação receberam uma visita de um policial civíl e a ameaça de que poderiam chamar o Batalhão de Choque da PM. Um BO registrado e cerca de 20 estudantes intimados e chamados para depor, com seus nomes e endereços entregues pela gestão à polícia. Um estudante foi demitido de seu trabalho por mando da direção.
O reacionarismo das medidas de Kadma, aliada a reitoria de Hidelbrando, deveriam fazer tremer de indignação a todos. Tais medidas de intimidação e repressão são comparáveis às aplicadas pelas gestões biônicas da ditadura empresarial-militar.
Aqui entra a carta escrita pela direção do Sinduece que "acompanha com preocupação os desdobramentos do movimento de ocupação", e reserva um parágrafo para defender abstratamente o "debate fraterno" e a "liberdade de gestão acadêmica, administrativa e patrimonial", ressalta em outro parágrafo a importância do movimento estudantil reafirmando o óbvio: que não deveria ser tratado como caso de polícia.
As posições escorregadias não são o pior da carta, numa tentativa de justificar sua falta definição tenta construir uma meia-culpa dizendo que é solidária a Kadma, que articulou e operou as medidas reacionários já amplamente denúncias – que são certamente de conhecimento do Sinduece – e que ela estaria sendo vítima de insultos misóginos. Uma acusação de opressão nunca deve passar em branco, acontece que, questionada pelos próprios estudantes, a direção do Sinduece é incapaz de dizer que insultos seriam esses, evidenciando que a acusação é uma muleta para a posição vacilante da diretoria e deve ser amplamente repudiada.
Para finalizar, a direção sindical diz ter "disposição para construir consensos", uma posição que caminha entre a ingenuidade e o oportunismo. Os estudantes, em sua ocupação, apontaram para o futuro, a solidariedade aos trabalhadores e povos do mundo e sua disposição para lutar e manter direitos e conquistas, as gestões apontaram para o passado: a repressão e o afastamento de estudantes das decisões. Que consenso há entre o passado e o futuro? Nenhum. Quando se está preso a uma corda ou a força para frente, até rompê-la, ou se marca-passo e deixa que te puxem para trás. Esse é o impasse do Sinduece.
Me admira que muitos companheiros que enchem a boca para dizer que tem um sindicato classista e combativo esqueceram que essa posição só é possível negando o corporativismo e tomando lado do que se é justo. A combatividade dos estudantes já deveria tá amplamente provada aos docentes, quantos piquetes nas últimas greves não foram garantidos pelo ME? São, hoje, na UECE os estudantes a principal força auxiliar em todas as mobilizações propostas pelo Sinduece. Cabe soltar suas mãos e se esconderem em cima do muro nesse momento? Não existe combinação entre classismo e corporativismo.
Para finalizar, os professores em seu papel não podem ficar sem reação enquanto que seus companheiros, estudantes, sofrem tamanhos ataques. Há pouco a reitoria, Hidelbrando, mandou um ofício para os estudantes que estão na ocupação para dizer que esses ficarão trancafiados durante todo o final de ano, os alimentos e itens recebidos serão vistoriados pelos seguranças. O banheiro que os estudantes têm acesso – agora – é um balde e uma torneira de água no jardim do Centro, estão presos, detidos por lutar para continuar com sua sala de convivência.
Tamanho absurdo merece uma resposta à altura, não é possível que o calendário continue como se nada tivesse acontecendo, que a permanência na gestão de Kadma e Hidelbrando não sejam contestadas. A manutenção da sala, o fim de todas as perseguições, a readimissão do estudante demitido e a responsabilização de Kadma e Hidelbrando devem marcar a retomada das negociações, e os docentes devem ir ao embate ao lado dos estudantes, só assim é possível reencontrar o caminho da combatividade e do classismo.