‘Desenrola 2.0’ pode aliviar dívidas temporariamente, mas não enfrenta bases do endividamento

O governo federal lançou o “Desenrola 2.0”, prometendo aliviar o endividamento recorde das famílias brasileiras. Entretanto, a queda da renda disponível, os juros abusivos do crédito rotativo e o avanço das bets revelam uma crise estrutural de financeirização da vida cotidiana.

26 de Maio de 2026 às 21h00

Reprodução/Foto: Joédson Alves/Agência Brasil.

O governo federal anunciou, em 4 de maio de 2026, o chamado “Desenrola 2.0” — oficialmente denominado Novo Desenrola Brasil — um amplo pacote de medidas destinado à redução do endividamento das famílias brasileiras e à recuperação da capacidade de consumo da população. O programa foi instituído por medida provisória assinada pelo presidente Lula e possui duração inicial de 90 dias, contemplando pessoas físicas, estudantes, micro e pequenas empresas e produtores rurais.

A nova versão do programa prevê descontos que podem chegar a até 90% sobre dívidas bancárias e financeiras, especialmente aquelas relacionadas a cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e contratos do FIES. Além disso, os juros das renegociações deverão permanecer abaixo de 2% ao mês, buscando tornar os parcelamentos mais acessíveis às famílias inadimplentes.

A iniciativa surge em um contexto de elevado nível de inadimplência no país. Dados divulgados no período do anúncio indicavam que mais de 82 milhões de brasileiros estavam negativados, enquanto o comprometimento da renda das famílias atingia patamares recordes.

Todavia, a medida surge apenas como solução paliativa diante do agravamento das condições materiais das famílias brasileiras, que dispõem de cada vez menos renda para garantir necessidades básicas e quitar suas dívidas. Mesmo quando conseguem honrar os débitos — inclusive por meio de programas federais de renegociação — o comprometimento da renda permanece elevado.

Nesse contexto, as dívidas de cartão de crédito assumem centralidade como expressão da financeirização da vida cotidiana, transformando a insuficiência salarial em mecanismo permanente de captura da renda do trabalho. A crescente dependência das famílias em relação ao crédito rotativo e às linhas emergenciais — marcadas por juros abusivos e prazos reduzidos — é consequência de um Banco Central cada vez mais omisso diante das práticas predatórias do sistema financeiro, legitimadas pelo falso discurso de autonomia do Banco Central e pelas reformas neoliberais, sobretudo as realizadas no governo Temer ao Governo lula, que ampliaram o poder dos bancos sobre o orçamento das famílias trabalhadoras.

Outro ponto que merece atenção é a omissão do governo federal e do Poder Legislativo diante da expansão desenfreada das bets e do impacto social produzido pela indústria das apostas on-line. A ausência de uma regulação restritiva, somada à permissividade institucional em relação às campanhas publicitárias, contribui para a naturalização do jogo como promessa de ascensão financeira em um contexto marcado pelo desemprego, pela precarização do trabalho e pelo endividamento crescente das famílias.

Tal dinâmica se agrava diante da atuação massiva de influenciadores digitais, celebridades e plataformas de entretenimento, que promovem as apostas como forma fácil e rápida de obtenção de renda, ocultando deliberadamente os riscos financeiros e psicológicos envolvidos. Assim, parcela significativa da população trabalhadora, já pressionada pela perda do poder de compra e pelo avanço das dívidas — especialmente do cartão de crédito e do crédito rotativo — passa a enxergar nas apostas uma alternativa ilusória de sobrevivência econômica.

Na prática, consolida-se um ciclo perverso de espoliação financeira: enquanto os bancos ampliam seus lucros por meio do endividamento e da cobrança de taxas abusivas — conforme reconhecido pelo próprio Banco Central do Brasil, ao apontar que mais de 100 milhões de brasileiros estão submetidos a juros superiores a 100% ao ano —, as empresas de apostas expandem seus ganhos mediante a exploração da vulnerabilidade social e econômica da população. A omissão estatal diante desse processo evidencia não apenas uma incapacidade regulatória, mas uma verdadeira conivência estrutural com mecanismos permanentes de extração da renda dos trabalhadores em benefício do capital financeiro e das plataformas de apostas.