ATL 2026: Indígenas ocupam Brasília contra privatizações por sua sobrevivência

Cerca de 7 mil indígenas de 200 povos ocupam a capital federal para denunciar projetos que afetam seus territórios e pressionar pela demarcação de terras.

9 de Abril de 2026 às 0h00

Foto: Victor Oigres / Jornal O Futuro.

Em mais uma edição, o Acampamento Terra Livre chega a Brasília, reunindo povos de diferentes regiões do país. Eles se mobilizam contra as privatizações de hidrovias, mineração em terras indígenas e para exigir demarcações reais. Com o lema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, as lideranças denunciam o avanço de interesses econômicos sobre os territórios indígenas.

Povos das regiões do Tapajós e do Xingu chegam ao acampamento trazendo experiências recentes de mobilização, como a ocupação do terminal da Cargill e a ação em curso na sede da Funai. A programação inclui marchas ao Congresso Nacional e plenárias sobre direito originário e crise climática.

As delegações começaram a montar a estrutura desde as 6h do domingo, 5 de abril. O primeiro dia foi marcado por rezas e acolhidas, além das falas de abertura das lideranças.

Foto: Victor Oigres / Jornal O Futuro.

"O meu espírito chora, porque toda vez que eu abro o Instagram, está lá parente morto, terra contaminada, solo explorado. Cada vez mais a mineração avançando, cada vez mais o agronegócio avançando", denunciou Marilda Lyrio, coordenadora regional da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY). A fala reflete um cenário de violência que não cessa.

Este ano, a mobilização também é marcada pela cobrança por justiça diante da morte de uma liderança indígena em Roraima. Após desaparecer, o corpo foi encontrado, em um caso que mobiliza os povos presentes no acampamento e reforça as denúncias de violência nos territórios.

Ao longo da semana, estão previstas marchas ao Congresso Nacional, alvo constante de críticas das lideranças indígenas, além de plenárias sobre o direito originário às terras e os impactos da crise climática.

As atividades também incluem discussões regionais e a construção de um documento final com as principais reivindicações do movimento.

Apesar desse cenário, o ano começou com uma vitória importante para os povos originários. Em fevereiro, indígenas do Baixo Tapajós ocuparam por 30 dias o terminal da Cargill em Santarém (PA), bloqueando acessos e paralisando as operações da multinacional.

O protesto foi direcionado contra o Decreto nº 12.600/2025, que incluía Tapajós, Tocantins e Madeira no Plano Nacional de Desestatização, abrindo caminho para empreendimentos como hidrelétricas e mineração nas margens desses territórios.

Com apoio de quilombolas e ribeirinhos, a mobilização pressionou o governo, que revogou o decreto em 23 de fevereiro. A revogação evidenciou o impacto da mobilização direta, capaz de paralisar operações e forçar recuos.

No Xingu, a mobilização também se mantém ativa. Iniciada em 23 de fevereiro, a ocupação da sede da Funai em Altamira (PA), liderada pelo Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu, durou mais de 40 dias e foi encerrada no início de abril, quando as lideranças seguiram para Brasília para participar do Acampamento Terra Livre.

Foto: Victor Oigres / Jornal O Futuro.

Durante a ocupação, as mulheres indígenas pressionaram o poder público e denunciaram a ausência de consulta livre, prévia e informada, além dos riscos de contaminação dos rios e impactos sobre o modo de vida das comunidades. Segundo as lideranças, a saída da Funai não representa recuo, mas uma mudança de estratégia, com a mobilização agora concentrada em Brasília.

As mobilizações mostram que ações diretas em alvos estratégicos podem interromper projetos e impor recuos. Reunidas em Brasília, essas experiências reforçam o papel do movimento na disputa por terras, rios e sobrevivência.