Lula e a distribuição de renda: como criar ilusões sobre um “capitalismo humanizado”
O Brasil pintado por Lula é um sonho alucinado, que parece querer impor à realidade social brasileira uma máscara de sucesso e avanço que absolutamente não se verifica na sociedade.

Reprodução/Foto: Ricardo Stuckert / PR.
Por Gabriel Lazzari
Em dezembro de 2025, a Carta Capital lançou, com grande destaque, um “artigo” escrito pelo presidente da República, “O crescimento vem da distribuição”. Tratado com pompa e circunstância pela mídia governista, Lula trabalha para, mais uma vez, apontar para os problemas secundários como se fossem principais e simplesmente se calar sobre os problemas principais de fato. O Brasil pintado por Lula é um sonho alucinado, que parece querer impor à realidade social brasileira uma máscara de sucesso e avanço que absolutamente não se verifica na sociedade.
A crise internacional do capitalismo aumentou o fardo sobre os ombros dos trabalhadores. Desde que esse ciclo se iniciou, em 2008, só o que vemos são cortes de direitos e ataques diretos à população trabalhadora, em nível global. No Brasil de Lula, existe “valorização dos trabalhadores” e “reconhecimento do andar de baixo”; no mundo real, vimos a Reforma Trabalhista de 2017 acabar com uma série de proteção aos trabalhadores, dificultando a sindicalização, permitindo a terceirização irrestrita e abrindo espaço para a “pejotização”, que nada mais é do que fraude trabalhista.
Os dados do desemprego, mencionados pelo presidente, são um resultado direto disso: dos aproximadamente 100 milhões de “ocupados”, 38% são de trabalhadores na informalidade, sem proteção previdenciária ou direitos trabalhistas. Além disso, as estatísticas oficiais do desemprego não incluem os “desalentados”, considerados aqueles que já desistiram de buscar emprego, que somam mais de 2 milhões de brasileiros.
Se nos dados sobre valorização do trabalhador já podemos ver o quão equivocado é a visão de Lula, a situação torna-se ainda pior quando ele defende, em seu artigo, o Novo Teto de Gastos. Falando em “tirar o país do caos orçamentário” “sem precisar parar o investimento”, Lula simplesmente mente. O Novo Teto de Gastos exige da União um retrocesso nos investimentos públicos, que tem afetado diretamente os direitos sociais – vejamos por exemplo, a política de aumento do salário mínimo, que segue insuficiente para o sustento digno de qualquer pessoa, ou os cortes no orçamento para a educação. Além disso, o que o presidente omite em seu artigo é que uma parte significativa dos “investimentos” sob o Novo Teto de Gastos está direcionada à privatização de empresas públicas, em diversos casos com investimento do BNDES. Mesmo para quem defende que o foco deva ser a “redistribuição de renda”, a política do atual governo caminha no sentido contrário.
Mas, sob uma visão científica, a desigualdade de renda não é senão um sintoma do próprio modo de produção capitalista. Para Lula, emulando o receituário neoliberal, “Quando os mais pobres têm mais renda disponível [...] o mercado de consumo se aquece, puxa a produção e a geração de empregos”. A “renda disponível” do presidente não é o aumento da força da classe trabalhadora a partir da luta de classes, que se reflete em ganhos salariais reais, mas desoneração de impostos.
Além disso, o “ciclo vicioso” é, mesmo nos melhores casos, uma ilusão na estabilidade do capitalismo: o “puxar da produção” e a “geração de empregos” só se produzem se existe uma vantagem concorrencial, ou seja, uma taxa de lucro média sendo produzida por esses setores que compense esse investimento pelos capitalistas. Mesmo nesse caso, as próprias contradições do capitalismo gerarão um novo momento de queda da taxa de lucro média e um novo ciclo de superprodução e crise. As “esperanças” do presidente em um capitalismo que cresça para sempre não passam de uma fantasia e acabam por desviar os trabalhadores da luta contra os próprios capitalistas.
Se isso é verdade para qualquer país, a economia monopolista dependente do Brasil ainda enfrenta outras contradições: a burguesia brasileira, ao mesmo tempo sócia subordinada do grande capital imperialista e, ela própria, buscando expandir seus capitais para outros países, busca extrair ainda mais valor do trabalho, para financiar sua posição historicamente subordinada nas disputas globais em um outro patamar. O papel intermediário do Brasil na cadeia imperialista global produz precisamente os interesses da nossa burguesia, que, diferentemente do que coloca o presidente, tem avançado rapidamente contra conquistas históricas da classe trabalhadora.
A solução não é a da distribuição de renda. Mesmo como paliativo, essa visão apenas desarma os trabalhadores para a próxima crise que virá, porque o capitalismo é um sistema que se reproduz exatamente através de crises cíclicas, não pode ser “humanizado”. Isso não quer dizer que não desejemos que a situação da classe trabalhadora melhore, mas não podemos dourar a pílula – a distribuição de renda que não seja fruto da luta dos trabalhadores não desenvolve entre a nossa classe as condições subjetivas de que precisemos, ou seja, a consciência e a organização dos trabalhadores não para reformar o capitalismo, mas para acabar com ele, para uma Revolução Socialista no Brasil.
É apenas no curso da construção do socialismo que o crescimento econômico pode, de fato, ser benéfico para toda a sociedade. Não por ele vir “da distribuição”, como quer Lula, mas por efetivamente o controle operário e o planejamento centralizado darem as condições para que esse crescimento seja feito nos interesses dos trabalhadores e não da geração de lucro para os monopólios.