Sérgio Moro barra convocação em CPI e aproximação com PL expõe bastidores de barganha política no Paraná

O episódio levanta questionamentos sobre o uso de espaços institucionais, como uma CPI destinada a investigar organizações criminosas, como instrumento de negociação política.

5 de Abril de 2026 às 21h00

Reprodução/Foto: Evaristo Sá/AFP.

Por João Oliveira

O senador Sérgio Moro (União), pré-candidato ao Governo do Paraná, foi colocado no centro de uma controvérsia política após declarações do presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar da Costa Neto, indicando que o parlamentar atuou diretamente para impedir sua convocação na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado.

Segundo relatos do próprio dirigente partidário e condenado por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, Moro teria afirmado que votou contra a convocação e ajudou a garantir sua rejeição por uma margem apertada. “Não te convocamos, graças ao meu voto. Foi seis a cinco”, disse Valdemar ao relembrar conversa com o senador e hoje pré-candidato a governador. De fato, a comissão rejeitou o requerimento de convocação por esse placar, barrando a oitiva do presidente do PL.

A revelação ocorre em meio à aproximação política entre Moro e o PL, que pode culminar em sua filiação ao partido para disputar o Governo do Paraná neste ano. O episódio levanta questionamentos sobre o uso de espaços institucionais, como uma CPI destinada a investigar organizações criminosas, como instrumento de negociação política.

CPI e interesses políticos

A “coincidência” entre a atuação de Sérgio Moro na votação e o avanço de sua articulação com o PL reforça a leitura de que há uma negociação política em curso. Ao evitar o desgaste de seu futuro aliado, envolvido em diversos escândalos de corrupção, Moro abriria caminho para consolidar apoio partidário à sua pré-candidatura no estado.

Valdemar, por sua vez, já havia sido adversário político de Moro, chegando a questionar seu mandato na Justiça Eleitoral. A reaproximação, agora marcada por gestos políticos concretos, indica uma reconfiguração de alianças baseada em interesses eleitorais imediatos.

Paraná como palco da disputa

No Paraná, a possível candidatura de Sérgio Moro ao governo já movimenta o cenário político, com a busca por alianças robustas sendo um elemento central. O apoio do PL, partido com forte base eleitoral, pode ser decisivo - e episódios como este indicam o preço dessas composições.

O episódio evidencia uma contradição difícil de ignorar: o mesmo Sérgio Moro que construiu sua trajetória pública como símbolo do combate à corrupção agora faz alianças políticas com um partido presidido por Valdemar da Costa Neto, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro no escândalo do Mensalão.

A aliança, marcada por gestos concretos, como a atuação na CPI, reforça a percepção de que, na prática política do jogo burguês, antigos discursos de moralidade cedem espaço a acordos voltados à viabilização de projetos eleitorais.