Privatização da Reman desmonta o refino, encarece combustíveis e ameaça a energia no Amazonas

O grupo privado que assumiu a refinaria atua principalmente na distribuição, não no refino. Refinar petróleo exige investimento contínuo, manutenção industrial e mão de obra qualificada. Em vez disso, a opção foi reduzir custos e maximizar lucros.

17 de Março de 2026 às 15h00

Vista aérea de um dos polos da Província Petrolífera de Urucu, a 650 quilômetros de Manaus. Reprodução/Foto: Agência Petrobras/Geraldo Falcão.

A venda da única refinaria do Norte transformou produção em monopólio privado, elevou preços e colocou Manaus sob risco de apagão.

A privatização da Refinaria Isaac Sabbá (Reman), concluída em 2022, não trouxe melhorias para o abastecimento nem redução de preços no Amazonas, pelo contrário: o que se viu foi o desmonte da capacidade de refino, demissões de trabalhadores, aumento do custo dos combustíveis e ameaça à segurança energética da região.

Hoje, a Reman já não cumpre sua função principal — a única refinaria da Região Norte deixou de transformar o petróleo produzido no próprio Amazonas em gasolina, diesel e gás de cozinha. Na prática, foi reduzida a um terminal de recebimento e distribuição de combustível pronto, grande parte importado, como denunciam os trabalhadores do setor e a Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Em entrevista ao jornal O Futuro, o coordenador do Sindipetro-AM, Marcus Ribeiro, tem alertado que a refinaria “não refina mais”. O petróleo extraído em Urucu, que antes movimentava a economia local e gerava empregos, passou a ser enviado para outros estados para processamento. O resultado é direto: o Amazonas produz petróleo, mas paga mais caro pelo combustível.

Este processo não foi acidental. O grupo privado que assumiu a refinaria atua principalmente na distribuição, não no refino. Refinar petróleo exige investimento contínuo, manutenção industrial e mão de obra qualificada. Em vez disso, a opção foi reduzir custos e maximizar lucros.

Misturar não é refinar

Após a privatização, a empresa passou a afirmar que “continua refinando”. Isso não corresponde aos fatos.

A antiga Reman, hoje chamada Ream, deixou de processar petróleo cru e passou a importar nafta, um subproduto já refinado, que é misturado com outros componentes até atingir o padrão mínimo exigido pela ANP. Trata-se de um processo simples de mistura, não de refino industrial, como apontam os petroleiros.
Na prática, é como dizer que fabrica um produto quando apenas monta peças prontas. O valor agregado é mínimo, a dependência de importações aumenta e a cadeia produtiva local é desmontada. Desde a privatização, o petróleo do Amazonas passou, inclusive, a ser refinado em São Paulo.

O capital privado amplia seus ganhos reduzindo empregos e eliminando conhecimento acumulado, pois não são necessários engenheiros, operadores de unidades ou técnicos especializados para misturar combustível, o que explica o novo modelo de produção.

Risco de apagão e insegurança energética

O desmonte do refino quase levou o Amazonas a um colapso energético.

Com a paralisação das unidades, os tanques de armazenamento se encheram rapidamente, exigindo operações improvisadas para escoar o petróleo ao Sudeste; no entanto, o maior risco estava no gás natural.

Em Urucu, petróleo e gás são produzidos juntos. Se a produção de petróleo fosse interrompida, a produção de gás também pararia e, por consequência, cessaria o abastecimento de cidades, uma vez que ele é responsável por mais da metade da geração de energia elétrica de Manaus e praticamente de todas as casas ao redor.

Na prática, uma decisão privada colocou milhões de pessoas sob risco de apagão. Isso mostra que energia não pode ser tratada apenas como mercadoria, mas como bem básico.

Monopólio e preços altosA iniciativa privada prioriza o lucro sobre a necessidade real.

Com a compra da Reman, o grupo Atem consolidou um forte controle sobre o mercado de combustíveis no Amazonas. A empresa domina os principais terminais e grande parte da distribuição no estado.

Sem concorrência real, os preços sobem. Enquanto a Petrobras operava com custos nacionais de produção, a Atem importa combustível a preço internacional e vende ainda mais caro. Quando algum posto tenta vender mais barato, o combustível acaba rapidamente, então a maioria da população é obrigada a pagar o preço mais alto.

Isso não é livre mercado, mas concentração econômica e abuso de poder.

Energia é soberania

O coordenador da FUP, Deyvid Bacelar, classificou corretamente a privatização da Reman como um crime contra o povo brasileiro e contra a soberania nacional.

A Reman é um ativo estratégico, construído com dinheiro público e é fundamental para o desenvolvimento da Amazônia. Entregá-la a interesses privados sem compromisso com a região significa enfraquecer o país.

Defender a retomada do refino, com participação da Petrobras e investimento público, é defender empregos, preços justos e segurança energética. No Amazonas, energia não é mercadoria: é condição básica de vida.