2 de julho: a verdadeira Independência do Brasil só se dará com a revolução socialista!
Enquanto o 7 de setembro consagrou um príncipe como símbolo da emancipação nacional, foi a vitória conquistada pelo povo baiano em 2 de julho de 1823 que expulsou definitivamente as tropas portuguesas do país.

PCBR e UJC no 2 de julho em Salvador (BA), em 2025. Foto: Jornal O Futuro.
Por Maíra Nery
Antes mesmo do amanhecer, as ruas do Largo da Lapinha começam a receber milhares de pessoas. Crianças, idosos, estudantes, trabalhadores, movimentos populares, sindicatos e organizações políticas se misturam em torno de um mesmo cortejo. À frente da celebração não está um imperador, um marechal ou um presidente. Quem conduz a festa são o Caboclo e a Cabocla, figuras que simbolizam o povo brasileiro e sua vitória sobre o colonialismo português.
Todos os anos, o cortejo do 2 de julho transforma Salvador em um grande espaço de memória. Mais do que uma celebração cívica, a data reafirma uma narrativa que resiste há mais de duzentos anos: a de que a independência do Brasil não foi concluída às margens do Ipiranga, mas nas ruas, nos campos e nas batalhas travadas pelo povo baiano contra as tropas portuguesas.
Essa memória, preservada pela tradição popular, contrasta com a versão difundida pela história oficial. Durante gerações, os brasileiros aprenderam que a independência foi obra de Dom Pedro I, eternizado na pintura de Pedro Américo empunhando uma espada às margens do riacho Ipiranga. Pouco se ensinou, entretanto, sobre a guerra que continuou depois daquele 7 de setembro e que seria decisiva para consolidar a separação entre Brasil e Portugal.
A independência, na realidade, não aconteceu em um único dia. Ela foi um processo político, militar e social marcado por conflitos, interesses distintos e intensa participação popular.
No início do século XIX, o Império Português atravessava uma profunda crise. A Revolução Liberal do Porto, em 1820, exigia o retorno de Dom João VI a Lisboa e defendia a recolonização do Brasil, revertendo a autonomia conquistada durante a permanência da Corte portuguesa no Rio de Janeiro. As medidas aprovadas pelas Cortes ameaçavam tanto os interesses das elites locais quanto a estabilidade política da colônia.
Foi nesse cenário que Dom Pedro proclamou a independência, em setembro de 1822. A declaração, porém, estava longe de encerrar o conflito.
Em diversas regiões do país, tropas portuguesas permaneceram fiéis à Coroa. A Bahia tornou-se o principal foco dessa resistência. Salvador seguia ocupada pelo general Inácio Luís Madeira de Melo e por milhares de soldados portugueses que recusavam reconhecer a autoridade do novo governo brasileiro. A independência precisaria ser conquistada pela força.
Enquanto a capital permanecia sob domínio português, o Recôncavo Baiano transformava-se no centro da resistência. Cidades como Cachoeira, Santo Amaro, Maragogipe, São Francisco do Conde e Itaparica organizaram um amplo movimento militar para cercar Salvador e expulsar definitivamente as tropas coloniais. Foi ali que nasceu o Exército Libertador.
Ao contrário da imagem construída pela historiografia tradicional, esse exército não era composto apenas por oficiais ou grandes proprietários. Trabalhadores urbanos, pequenos agricultores, pescadores, artesãos, homens livres, libertos, indígenas, negros e até pessoas escravizadas participaram da mobilização que sustentou meses de enfrentamento contra um dos maiores impérios da época.
Mais do que uma guerra entre exércitos, tratava-se de uma ampla mobilização popular. Enquanto alguns combatiam diretamente nas trincheiras, outros garantiam o abastecimento das tropas, produziam alimentos, transportavam armas, organizavam redes de comunicação e mantinham vivo o esforço coletivo necessário para enfrentar um conflito prolongado.
As batalhas de Pirajá, de Itaparica e os combates travados ao longo do Recôncavo enfraqueceram progressivamente as forças portuguesas. Cercadas e sem condições de manter o controle da província, as tropas da Coroa iniciaram sua retirada.
Na manhã de 2 de julho de 1823, os navios portugueses deixaram definitivamente Salvador. Era o fim da presença militar portuguesa na Bahia e, para muitos historiadores, o momento em que a independência brasileira finalmente se consolidava.
Essa vitória, entretanto, não foi obra de um personagem isolado. Ela foi construída por milhares de homens e mulheres cujos nomes raramente aparecem nos livros didáticos.
É justamente essa dimensão popular que torna o 2 de julho um acontecimento singular na história do Brasil. Enquanto a narrativa nacional costuma destacar acordos políticos conduzidos pelas elites, a experiência baiana revela que a consolidação da independência dependeu da organização coletiva de amplos setores da sociedade.
Essa organização também rompeu barreiras impostas por uma sociedade profundamente patriarcal.
Entre os combatentes estava Maria Quitéria, jovem nascida no interior baiano que precisou cortar os cabelos, vestir roupas masculinas e esconder sua identidade para conseguir integrar as tropas brasileiras. Descoberta durante a guerra, permaneceu no Exército graças à coragem demonstrada em combate, tornando-se uma das figuras mais conhecidas da independência. Sua trajetória revela que a participação das mulheres não foi exceção.
Na Ilha de Itaparica, Maria Felipa de Oliveira, mulher negra e trabalhadora, liderou grupos de homens e mulheres que participaram da resistência contra os portugueses. A tradição oral preservou relatos sobre ações de sabotagem contra embarcações inimigas e enfrentamentos diretos que ajudaram a desgastar o poder colonial. Durante muito tempo, porém, sua história permaneceu praticamente ausente da historiografia oficial, sobrevivendo sobretudo pela memória popular.
Outra personagem fundamental foi Joana Angélica, abadessa do Convento da Lapa. Em fevereiro de 1822, ao tentar impedir que soldados portugueses invadissem o convento, foi assassinada diante da porta principal do edifício. Sua morte tornou-se um dos primeiros símbolos da resistência baiana à ocupação portuguesa.
A recuperação dessas trajetórias ajuda a desfazer uma das principais distorções construídas sobre a independência brasileira: a ideia de que ela teria sido protagonizada exclusivamente por homens pertencentes às elites políticas e militares.
Se as mulheres permaneceram durante décadas invisibilizadas, o apagamento foi ainda maior quando se trata da população negra. A Bahia do início do século XIX era uma das sociedades mais escravistas das Américas. A maior parte de sua riqueza dependia do trabalho de homens e mulheres negros submetidos à escravidão. Ainda assim, milhares deles participaram da Guerra da Independência.
Negros livres, libertos e escravizados integraram batalhões, construíram fortificações, transportaram armamentos, garantiram o abastecimento das tropas e estiveram presentes em diversos combates. Muitos enxergavam naquela guerra a possibilidade de romper não apenas com o domínio português, mas também com a própria ordem escravista que sustentava a sociedade colonial.
A esperança de que a independência significasse liberdade para todos, contudo, encontraria limites profundos.
A derrota das tropas portuguesas encerrou o domínio colonial, mas não desfez a estrutura social que sustentava aquele sistema. A escravidão permaneceu como base da economia brasileira por mais 65 anos, preservando o poder dos grandes proprietários de terra e mantendo milhões de homens e mulheres negros submetidos ao trabalho forçado. A independência política não significou emancipação social.
Muitos daqueles que lutaram pela expulsão dos portugueses voltaram à mesma condição de exploração que existia antes da guerra. A nova nação nascera soberana diante de Portugal, mas profundamente desigual em seu interior.
O latifúndio permaneceu praticamente intacto. A escravidão foi preservada. A riqueza continuou concentrada nas mãos de uma pequena elite agrária e comercial. O Estado brasileiro nasceu independente, mas organizado para garantir a continuidade da ordem social existente.
Esses limites também ajudam a explicar por que a memória do 2 de Julho foi sendo gradualmente deslocada da narrativa nacional.
Ao longo do Império, consolidou-se uma interpretação da independência centrada na figura de Dom Pedro I e no episódio do Ipiranga. A imagem de um príncipe proclamando a emancipação do alto de um cavalo servia melhor ao projeto político das elites do que a lembrança de uma guerra popular travada por trabalhadores, negros, mulheres, indígenas e pequenos produtores.
Quando se retira do povo o protagonismo de sua própria história, reforça-se a ideia de que as grandes transformações dependem sempre da ação de líderes individuais ou de acordos construídos entre os grupos dominantes. A experiência baiana aponta justamente para o contrário: foi a organização popular que tornou possível consolidar a independência brasileira.
Essa talvez seja uma das maiores lições do 2 de julho: Mais de duzentos anos depois, o Brasil continua convivendo com muitas das marcas deixadas pela formação colonial. A população negra segue ocupando os piores indicadores de renda, escolaridade e acesso a direitos. Jovens negros continuam sendo as principais vítimas da violência letal no país. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maioria das pessoas mortas em intervenções policiais é negra, realidade denunciada por movimentos sociais como expressão do racismo presente na atuação do Estado.

Reprodução/Foto: Paulo Macedo / Correio da Bahia.
Da mesma forma, povos indígenas continuam enfrentando a invasão de seus territórios, conflitos fundiários e ameaças constantes à sua sobrevivência física e cultural. Comunidades quilombolas seguem lutando pelo reconhecimento de suas terras, enquanto milhões de trabalhadores convivem com a precarização do emprego, o avanço da terceirização, a informalidade e o aumento da exploração do trabalho.
Embora separados por dois séculos, esses processos possuem uma raiz comum: a permanência de estruturas de poder construídas durante o período colonial e reorganizadas ao longo da história brasileira.
É justamente por isso que o 2 de julho permanece uma data profundamente atual.
Celebrar a vitória do povo baiano não significa apenas recordar uma batalha vencida em 1823. Significa reconhecer que os direitos e as conquistas populares nunca foram fruto da benevolência das classes dominantes, mas resultado da organização coletiva daqueles que decidiram enfrentar a exploração e a opressão.
Ao olhar para o cortejo que todos os anos percorre as ruas de Salvador, percebe-se que o Caboclo e a Cabocla representam mais do que personagens históricos. Eles simbolizam um projeto de país construído a partir do protagonismo popular. Não por acaso, continuam sendo acompanhados por sindicatos, movimentos negros, organizações estudantis, movimentos de mulheres, coletivos indígenas e tantas outras expressões das lutas sociais contemporâneas.
Essa continuidade revela que o 2 de julho não pertence apenas ao passado. Ele permanece vivo porque recorda uma verdade frequentemente esquecida: a história do Brasil nunca foi construída exclusivamente nos palácios, nos quartéis ou nos gabinetes. Ela também foi escrita nas ruas, nos quilombos, nos campos, nas fábricas, nas comunidades e em todos os lugares onde trabalhadores e povos oprimidos decidiram organizar-se para enfrentar as estruturas de dominação.
A independência conquistada em 1823 representou um passo decisivo para a construção da soberania nacional. Mas ela também deixou tarefas que atravessaram gerações e continuam desafiando a sociedade brasileira.
Enquanto a população negra continuar sendo vítima preferencial da violência de Estado; enquanto povos indígenas precisarem lutar diariamente pela preservação de seus territórios; enquanto trabalhadores seguirem enfrentando formas cada vez mais intensas de exploração; e enquanto a riqueza produzida coletivamente permanecer concentrada nas mãos de uma pequena parcela da sociedade, a independência continuará sendo uma obra inacabada.
Mais de duzentos anos depois, o maior legado do 2 de julho talvez esteja justamente nessa lição histórica: a vitória sobre o colonialismo português demonstrou que nenhuma transformação profunda nasce da passividade ou da espera por concessões daqueles que concentram o poder. Ela nasce quando os trabalhadores e os povos oprimidos reconhecem sua força coletiva, organizam-se e assumem o protagonismo da própria história. O PCBR e a UJC participam anualmente do 2 de julho, e em 2026 estaremos presentes levando o programa do proletariado, numa agitação que demonstre a necessidade histórica do socialismo.
É essa memória que continua desfilando pelas ruas da Bahia a cada 2 de julho. Não apenas como homenagem aos que lutaram pela independência, mas como lembrança de que a emancipação de um povo é sempre fruto de sua capacidade de organizar-se, resistir e transformar a realidade. E é por isso que a história do 2 de julho permanece, ainda hoje, uma das mais poderosas expressões da luta do povo brasileiro por soberania, liberdade e justiça.