A criminalização da solidariedade: Renee Good, Alex Pretti e os grupos de observação civil nos Estados Unidos
Esses grupos comunitários vêm sendo retratados pelo próprio Estado como presenças “extremistas”, tratadas como ameaça à ordem pública que precisam ser investigados e interrompidos.

Mulheres gravam enquanto uma delas usa um apito para alertar sobre a presença de agentes federais na região de Minneapolis. Reprodução/Foto: Tim Evans - Reuters.
Por militantes do PCBR nos EUA
Renée Good foi morta a tiros por Jonathan Ross, um agente federal do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE) em Minneapolis, Minnesota, no dia 7 de janeiro de 2026. No dia 24 de janeiro, na mesma cidade, Alex Pretti foi assassinado por um agente da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) com dez tiros, a maioria nas costas. Renee não estava armada nem representava ameaça imediata a ninguém. Alex, apesar de ter porte de arma permitido pelo estado, tentava proteger duas mulheres que estavam sendo atacadas por agentes federais. Ambos faziam parte de um grupo comunitário que vem crescendo em cidades dos Estados Unidos, conhecido por nomes como “ICE Watch” ou “Rapid Response”, formado por residentes que saem às ruas para procurar, confirmar e observar as operações do ICE com o objetivo de alertar e proteger suas comunidades
Segundos antes de ser morta, Renée foi filmada dizendo “eu não estou com raiva de você” ao agente que, logo em seguida, disparou quatro tiros contra ela. Alex perguntou a uma mulher que havia sido empurrada ao chão por um agente se ela estava bem. Mesmo assim, tanto ele quanto Renée passaram a ser classificados por autoridades federais como terroristas domésticos em razão de suas atuações como observadores civis. Esses grupos comunitários vêm sendo retratados pelo próprio Estado como presenças “extremistas”, tratadas como ameaça à ordem pública que precisam ser investigados e interrompidos.
A expansão nacional dos grupos de Rapid Response
Embora recebam nomes diferentes (Rapid Response, ICE Watch, Hands Off), esses grupos seguem um formato semelhante: são redes de moradores que se comunicam rapidamente para confirmar a presença de agentes federais, compartilhar informações em tempo real e avisar a comunidade local. Em muitos casos, essa informação é a única barreira entre uma pessoa continuar sua vida normalmente (ir ao trabalho, buscar os filhos na escola, voltar para casa à noite) e um desaparecimento silencioso em meio a uma operação federal.
Os grupos têm tamanhos e níveis de organização distintos, estratégias variadas e contextos locais diferentes, mas um objetivo em comum: tentar observar e proteger suas comunidades diante de uma força estatal excessiva em operações onde agentes armados e, muitas vezes, mascarados cruzam o cotidiano dos moradores.
Essa expansão também revela um processo acelerado de politização popular que não acontece nos Estados Unidos em muitos anos, já que as pessoas estão tendo uma experiência direta com a violência do Estado. Pessoas que nunca haviam participado de reuniões, treinamentos ou ações coletivas passaram a se envolver por um sentimento de necessidade, não por ideologia.
O que essa presença organizada faz no cotidiano
Na prática, a atuação desses grupos vai muito além do alerta imediato sobre a presença do ICE. Em alguns estados, como Connecticut, voluntários organizam acompanhamento a audiências judiciais, chegando aos tribunais antes do início das sessões para verificar se há agentes federais no local e avisar a comunidade antes mesmo que as pessoas saiam de casa. Em dias de maior movimentação do ICE, pessoas oferecem transporte e ajuda com compras básicas e outras tarefas cotidianas, reduzindo a necessidade de circulação em momentos de risco elevado.
Os grupos promovem sessões de Conheça Seus Direitos (Know Your Rights), ajudam famílias indocumentadas a preencher formulários, assinar procurações, organizar documentos de guarda legal para seus filhos e estruturar planos caso alguém seja detido. Em muitos desses encontros, há também apoio com cuidado infantil, para que pais e mães possam prestar atenção às orientações e lidar com decisões que, em circunstâncias normais, ninguém deveria ser obrigado a tomar.
Em algumas cidades, quando a presença do ICE é confirmada, os alertas acontecem de forma visível e sonora: apitos, cartazes, mensagens em redes sociais e grupos de mensagens. Voluntários que não falam espanhol aprendem frases básicas para alertar moradores ou utilizam gravações em alto-falantes. Em bairros com grande concentração de famílias imigrantes, surgiram também os chamados "walking school buses": grupos de adultos que acompanham crianças e os pais até a escola, apostando na lógica simples de que é mais difícil fazer alguém desaparecer quando se caminha em grupo.

The Minnesota Star Tribune | Manifestantes sopram apitos na presença de agentes federais em Minneapolis. Reprodução/Foto: Renée Jones Schneider.
Essas ações não têm como objetivo interromper operações federais mas para romper o silêncio. Para garantir que detenções não aconteçam sem testemunhas, que famílias não sejam surpreendidas sem aviso, que a violência do Estado não opere na invisibilidade. Stella Carson, observadora legal que ficou conhecida como a “mulher do casaco rosa” após registrar em vídeo a execução de Alex, resumiu de forma simples o que esses observadores fazem. Segundo ela, são pessoas que “andam pelas ruas com um apito no pescoço e um celular na mão, tentando informar seus vizinhos de que estão ali para protegê-los da melhor forma possível, apenas com um apito e um celular”.
A desproporção é evidente: enquanto agentes federais atuam armados, mascarados e amparados por toda a estrutura do Estado, esses grupos caminham com instrumentos mínimos, apostando na visibilidade e na comunicação como única forma de proteção coletiva.Trata-se menos de resistência formal e mais de presença. Porém é uma presença que, no contexto atual dos Estados Unidos, passou a ser tratada como provocação.
Quem são essas pessoas e como aprendem a observar
Apesar do discurso de Trump, os grupos não são compostos majoritariamente por militantes ou ativistas de carreira. São pessoas comuns: aposentados, professores, enfermeiras, pais e mães que trabalham em tempo integral, cuidam de netos, fazem compras no fim do dia e, entre uma obrigação e outra, passam a reservar parte do seu tempo para observar operações federais em suas próprias cidades.
Muitos entram nesses grupos sem qualquer experiência prévia em organização política. Chegam por indignação, medo, e incredulidade porque viram algo que não conseguiram mais ignorar. É comum ouvir relatos de pessoas que dizem ter participado do primeiro treinamento “apenas para entender melhor o que estava acontecendo” e que, pouco tempo depois, se veem dirigindo alguns minutos a mais antes do trabalho, passando por bairros específicos ou respondendo alertas durante o horário de almoço.
Libby, uma mãe em Minneapolis com filhos de 1 e 4 anos, contou que, com o aumento das operações do ICE, as mães da escola dos seus filhos criaram um grupo para coordenar caronas entre professoras, pais e crianças, por medo de cada família ter que sair sozinha. Em conversas no grupo, muitas relataram que se sentem um pouco mais seguras quando estão na presença de outras pessoas e, em particular, com alguém branco dirigindo. Mães que trabalham em tempo integral e não têm histórico de ativismo agora se veem organizando planilhas de caronas no Excel e ajustando agendas em um ato de coordenação comunitária e de proteção mútua.
Para criar uma linguagem comum entre voluntários tão diversos, muitos grupos adotam métodos simples de observação. Um dos mais usados é o acrônimo S.A.L.U.T.E. (Size, Activity, Location, Uniform, Time, Equipment), que orienta o tipo de informação coletada: o tamanho da operação, as ações dos agentes, o local exato, os uniformes utilizados, o horário, e o equipamento ou armamento.
No grupo em que atuo, no nordeste dos Estados Unidos, o treinamento inicial inclui também um breve contexto histórico: o ICE nem sempre existiu, e sua atuação atual não pode ser dissociada de tradições mais antigas de controle e vigilância sobre populações racializadas. A partir daí, falamos de níveis diferentes de engajamento e risco — desde observar sem sair do carro até confrontos diretos — além de noções básicas de segurança digital, já que grande parte da comunicação ocorre por aplicativos de mensagens criptografadas.
Depois disso, as pessoas já podem atuar. Algumas preferem ir em grupo, outras acompanham observadores mais experientes, e há quem atue sozinho, mantendo contato constante com o grupo. Não existem garantias, protocolos infalíveis, ou um treinamento de fato. Porém, há uma disposição compartilhada de não deixar que tudo aconteça em silêncio.
A criminalização da presença

The Minnesota Star Tribune | Um morador de Minneapolis oferece apitos gratuitos a carros que passam. Reprodução/Foto: Alex Kormann.
O governo Trump passou a classificar grupos como esses como ameaças e até como terroristas domésticos, apesar de serem formados majoritariamente por vizinhos voluntários que recebem, no máximo, uma sessão básica de orientação e saem às ruas usando seus próprios recursos e o pouco tempo livre que têm. O Departamento de Segurança Interna chegou a afirmar que gravar e postar vídeos de agentes da ICE seria “doxxing”, a divulgação pública de informações pessoais com o objetivo de expor alguém, e alertou que quem fizesse isso poderia ser processado pelo governo. Essas ações começaram a ser retratadas por autoridades como formas de violência ou como “interferência” em operações federais, sob o argumento de que observadores estariam dificultando o trabalho dos agentes. No entanto, numerosos tribunais federais nos Estados Unidos reconhecem que qualquer pessoa tem o direito de gravar agentes federais em público, desde que não interfira na ação. Enquanto o governo Estadunidense categoriza civis como agitadores violentos por exercerem seus direitos, ou acusa de serem “manifestantes pagos” sem qualquer prova, o vice-presidente afirmou que agentes federais têm "imunidade absoluta" em seus atos. Inclusive em casos que incluem o uso letal da força em plena luz do dia contra civis sem armas, criando um duplo padrão de responsabilidade.
Nenhum manual prepara alguém para a experiência de ver agentes armados e mascarados circulando pela sua cidade, sendo agressivos com você e seus vizinhos, levando pessoas embora em plena luz do dia. À distância, sempre existe uma reação “correta” mas no momento, não. O que esses grupos fazem é uma forma de observação legal (um direito ainda protegido pela Constituição dos Estados Unidos) não terrorismo, como tenta enquadrar o discurso oficial. Renée Good fazia parte desse cotidiano. Era poeta, mãe, pintava vasos com a esposa para vender na feira de plantas da escola dos filhos. Alex Pretti também fazia parte desse cotidiano. Era enfermeiro na UTI no hospital dos Veteranos em Minneapolis, conhecido por amigos por sua vontade de ajudar os outros mesmo fora do trabalho. A morte brutal deles é o retrato de um país onde até a solidariedade passou a ser tratada como ameaça.